"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 35
Um adversário na mesa do jantar
Leo aproximou a cadeira da mesa do quarto.
"Foi ele?"
Theo apontou a tela.
A resposta aparecera no ambiente de desafios que usavam havia meses. Os irmãos tinham seguido uma pista de configuração publicada ali para comparação. Ao perceberem que um dos caminhos levava a uma estrutura ativa, Theo interrompera a tentativa. Não haviam encontrado apenas um problema antigo para resolver.
Alguém acompanhava os movimentos do outro lado.
E agora esse alguém lhes mandara uma versão isolada do problema, separada do sistema real.
"Ele mudou a porta", disse Leo.
"Mudou três."
O menor largou o pedaço de bolo no guardanapo e aproximou o rosto.
A assinatura continuava no canto: Noite.
Tinham visto aquele nome em discussões que raramente terminavam com alguém provando que ele estava errado.
Theo abriu a cópia de teste, ainda desconfiado.
Havia uma frase curta: Se querem tentar, tentem aqui.
Leo ficou ofendido antes mesmo de encontrar uma solução.
"Ele está achando que a gente não consegue."
"Ele viu por onde estávamos indo."
"Eu sei. Não precisava escrever desse jeito."
Na empresa, Rafael encostou na cadeira.
O usuário Musa demorou alguns minutos para aceitar o arquivo. Depois voltou com uma pergunta sobre a terceira mudança, exatamente a que ele esperava que percebesse.
Rafael sorriu de leve.
Lucas apareceu à porta.
"Conseguiu resolver?"
"O sistema da parceira está protegido. Pedi que trocassem as credenciais envolvidas. O restante agora é curiosidade."
O assistente olhou para a tela, sem se aproximar demais.
"Sua ou dele?"
"Dos dois."
Rafael voltou ao teclado. A pessoa do outro lado pensava depressa, mas tinha pressa para chegar à parte difícil e às vezes deixava uma etapa simples sem conferir.
Ele alterou uma condição.
A resposta veio quase imediatamente, reclamando que aquela condição não constava na primeira descrição.
Rafael escreveu que constava no comportamento do problema.
No quarto, Leo cruzou os braços.
"Não gosto dele."
Theo continuava olhando.
"Eu também não."
Apesar disso, os dois se aproximaram mais da tela.
Duas batidas na porta fizeram Leo cobrir o teclado com o primeiro caderno que encontrou.
Lara abriu, segurando uma sacola de roupa limpa.
"Não precisa esconder. Eu vim avisar que vamos sair em meia hora."
Theo olhou para o relógio.
"Para a casa do Davi?"
"Vocês combinaram a tarde inteira para montar o circuito do trem. Esqueceram?"
Leo afastou o caderno, que ainda deixava uma ponta do teclado visível.
"Não. A gente estava terminando uma coisa."
"Terminando agora ou naquele agora que vira depois do jantar?"
Theo salvou o trabalho.
"Agora."
Ela deixou as roupas sobre a cama e percebeu o bolo abandonado.
"Isso também precisa terminar ou guardar. Não quero formiga fazendo reunião aqui."
Leo pegou o guardanapo depressa.
Quando a porta se fechou, os irmãos se olharam.
O desafio continuava sem solução. Era difícil sair justamente naquele momento.
Theo escreveu que voltariam mais tarde.
Rafael recebeu a mensagem enquanto Lucas confirmava um compromisso. Uma parte dele quis responder que o adversário estava desistindo cedo. Preferiu apenas guardar a versão atual.
Tinha um jantar com Lara e os filhos. Também não pretendia ficar ali até a noite.
Na casa dos Vasconcelos, Davi os esperava no chão da sala, cercado de trilhos.
"Eu fiz uma estação. Mas ela desmonta quando o trem bate."
Theo se ajoelhou imediatamente. Leo pediu para testar a colisão, e Mirela precisou lembrar que o objetivo era evitar o acidente, não aperfeiçoá-lo.
Lara ficou para um café e conversou com ela sobre a escola. Gostava de ouvir os meninos discutindo uma brincadeira que exigia apenas espaço no tapete e tempo para refazer uma curva.
Quando saiu, Theo já explicava por que o trem precisava reduzir antes da estação. Leo construía uma barreira absurda na frente da parede.
A tarde terminou com os três no jardim, testando um avião de papel que Davi fizera com Daniel.
Leo perdeu o seu numa planta e voltou à sala com folhas presas na camiseta.
Theo riu tanto que demorou para conseguir ajudar.
Ao buscá-los, Lara encontrou duas crianças suadas, com fome e pouco interessadas em discutir um computador.
Rafael chegou ao apartamento pouco depois.
Leo correu para contar sobre o avião, tropeçou na própria mochila e quase caiu. O pai o segurou pela cintura.
"O piloto precisa olhar para a pista."
"Foi a mochila."
"A mochila estava parada."
Theo soltou uma risada e recebeu do irmão um olhar ressentido.
Durante o jantar, Rafael bocejou discretamente.
Lara percebeu.
"Dia difícil?"
"Uma pessoa insistente."
Leo levantou a cabeça.
"No trabalho?"
"Mais ou menos."
Theo passou a colher devagar pela borda do prato.
Lara observou os dois filhos, também mais quietos do que o normal depois de comer.
"Aqui temos dois assim. Talvez vocês se entendam."
Rafael olhou para os meninos.
"Acho que os nossos sabem quando parar."
Leo soltou um som indignado e imediatamente fingiu que o arroz tinha saído quente.
Theo lhe empurrou a água.
"Você também encontrou uma pessoa insistente?", perguntou Lara ao menor.
Ele hesitou.
"Um problema."
"De que tipo?"
"Uma coisa de computador. A pessoa muda e depois fala que a gente devia ter visto."
Rafael pousou o garfo.
"Às vezes a mudança já estava indicada."
Leo o encarou, desapontado.
"Você nem sabe quem é e já está do lado dele."
Lara começou a rir.
Theo olhou para o pai com atenção nova, mas Rafael já servia mais água para a mãe. Era o mesmo homem que demorara para entender uma função do telefone montado pelos filhos. Podia saber de computadores sem ser aquela pessoa irritante.
O mais velho abaixou o rosto.
"A gente vai tentar de novo depois."
"Amanhã", corrigiu Lara. "Hoje vocês passaram a tarde correndo. O problema não foge durante a noite."
Rafael concordou, e Leo lhe lançou um olhar que incluía todos os adultos daquela categoria.
Depois do banho, os irmãos ainda olharam a tela por alguns minutos, com a porta aberta e o tempo combinado.
Havia uma nova resposta de Noite. Nada de solução pronta. Só uma indicação de onde haviam confundido duas condições diferentes.
Theo ficou quieto.
Leo leu e releu.
"A gente tinha visto isso?"
"Não."
O menor se acomodou na cama.
"Continuo não gostando dele. Mas essa parte foi boa."
Theo fechou o computador antes que a mãe viesse lembrar. Amanhã confeririam com calma.
Leo passou para a cama do irmão e lhe mostrou um pequeno arranhão no joelho, feito no jardim de Davi. Só agora parecia interessado em reclamar.
Theo chamou a mãe. Lara conferiu a pele, limpou o lugar e ouviu uma história na qual o avião de papel se tornava maior a cada frase. Quando ela terminou, os dois pediram que ficasse até o fim da história do livro.
O adversário poderia esperar. Leo ainda queria escolher a voz do personagem.
Na segunda-feira, a tranquilidade de Lara durou até Bianca aparecer no ateliê.
A amiga chegara para almoçar e tinha no telefone uma publicação da VD Studio. A marca anunciava a nova coleção, com pré-venda aberta naquela manhã.
"Achei que você gostaria de ver", começou Bianca. "Mas tem uma coisa que..."
Lara já havia reconhecido o primeiro modelo.
Pegou o aparelho.
A segunda fotografia trouxe a mesma gola que redesenhara depois de uma prova. Na quarta, a saia tinha a alteração de volume feita no último estudo, ainda não enviado à produção.
Uma pequena curva junto à cintura parecia quase invisível para quem não soubesse quantas vezes fora refeita.
Lara soube.
Sentiu os dedos esfriarem enquanto passava as imagens.
"Essa coleção não saiu daqui", disse Bianca, agora séria.
Lara abriu a gaveta. Retirou a pasta de estudos e colocou as folhas na mesma ordem da publicação.
As duas ficaram olhando.
Bianca aproximou o telefone de uma das páginas.
"Até isso."
Apontava uma prega que Lara retirara na última versão porque prejudicava o movimento.
A VD Studio publicara a versão anterior à correção.
Lara ficou de pé.
"Chame Lourenço, por favor. E peça à Joana para separar o histórico das provas. Sem avisar o restante da equipe ainda."
Bianca a observou apertar uma folha pelas pontas.
"Você quer água?"
Lara assentiu. Não porque acreditasse que um copo resolveria aquilo. Precisava de alguma coisa para fazer enquanto recuperava a voz.
Na reunião, Lourenço levou alguns segundos para compreender a dimensão do problema.
O lançamento da Maison Vallon estava previsto para a semana seguinte. Os materiais tinham circulado entre profissionais diferentes, em etapas distintas. Lara não era a única pessoa com acesso, mas poucas tinham visto o conjunto daquela maneira.
"Precisamos parar a campanha até conferir", disse ele.
Lara ergueu o rosto.
"Conferir os registros, sim. Desistir da coleção, não. Ainda não."
Lourenço assentiu, envergonhado pela rapidez com que o medo se transformara em recuo.
Joana trouxe as datas das provas e os nomes de quem recebera cada arquivo. Lara pediu que guardassem os originais e procurassem a assessoria responsável pelos contratos.
Não acusou nenhuma costureira no meio do salão. Olhou para as mãos que trabalhavam além do vidro e sentiu raiva por agora precisar perguntar quais delas tinham carregado seus desenhos para outro lugar.
Perto da saída, Bianca lhe tocou o braço.
"Liga para Rafael."
Lara olhou para o telefone.
Ainda se lembrava da própria voz pedindo que ele lhe contasse as coisas antes de decidir sozinho.
Abriu a conversa e escreveu: Preciso falar com você sobre meu trabalho. A VD Studio publicou a minha coleção.
Dessa vez, não apagou.
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