"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 28
O avental rosa e o diamante negro
Rafael se inclinou e a beijou.
Lara ficou quieta apenas no primeiro instante. Depois segurou sua camisa, aproximando-se o suficiente para que ele entendesse a saudade que ela não tinha conseguido dizer nas ligações.
O beijo demorou mais que o da porta do ateliê.
Quando se afastaram, Rafael continuou com a mão junto ao rosto dela. Lara tentou organizar uma resposta, mas tocou o nariz e viu uma pequena mancha vermelha nos dedos.
Os dois pararam.
"Você está sangrando."
Ela olhou para a mão, indignada com a escolha do momento.
"Eu percebi."
Rafael pegou um guardanapo. De repente parecia menos seguro do que quando entrara depois de quinze dias viajando.
"Precisamos..."
"De um guardanapo e de você não transformar isso numa operação."
Lara se sentou. Não era a primeira vez que seu nariz reclamava de uma noite longa e do ar seco, mas nunca escolhera uma ocasião tão inconveniente.
Rafael permaneceu perto até o pequeno sangramento cessar. A tensão deu lugar a um sorriso quando ela finalmente o olhou.
"Não ria."
"Estou tentando."
"Tente melhor."
Ele obedeceu por pouco tempo.
Lara jogou nele o guardanapo limpo que sobrara sobre a mesa. Rafael pegou, rindo baixo para não acordar os meninos.
A vergonha dela já tinha se misturado à alegria de vê-lo ali.
Perto de uma da manhã, ele perguntou se poderia descansar no sofá antes de ir para casa. Lara olhou para o rosto cansado, para a mala e para a proximidade que já não parecia uma ameaça.
"Só no sofá."
"Eu ouvi."
"Você costuma ouvir e encontrar uma interpretação nova."
Rafael abriu as mãos.
"Hoje não tenho energia para negociar."
Ela lhe trouxe uma manta. Os dedos se tocaram ao entregar, e os dois sorriram sem tentar esconder completamente.
Na manhã seguinte, Leo encontrou o pai deitado na sala.
Parou à porta e chamou Theo num sussurro urgente.
Os dois se aproximaram como se houvesse um presente inesperado sobre o sofá.
Rafael abriu um olho.
"Bom dia."
Leo abraçou seu pescoço. Theo encostou junto ao braço e perguntou se a viagem tinha terminado de verdade.
"Terminou."
"Então você fica para o café?"
"Posso ficar."
O menor se virou para o irmão, satisfeito.
Enquanto Lara dormia mais um pouco, os três entraram na cozinha. Leo queria uma surpresa. Theo encontrou os ingredientes e decidiu que o pai poderia fazer a parte mais simples.
Era uma avaliação otimista.
Rafael colocou o avental rosa que estava no armário, seguindo a explicação de que a mãe usava aquele para não sujar a roupa.
Leo amarrou atrás. Theo precisou corrigir o nó.
O resultado deixava os ombros largos quase inteiros de fora e tinha uma pequena flor junto ao bolso.
"Está bom", afirmou o menor.
O pai preferiu não perguntar quanto.
Theo abriu uma receita no telefone e leu as partes que conseguia. Leo queria escolher o tamanho do ovo como se isso fosse decidir o sucesso da manhã.
Rafael afirmou que bastava um pouco de atenção. Era o que costumava dizer quando alguém complicava uma tarefa na empresa.
Cinco minutos depois, estava olhando para uma clara que se agarrara à frigideira e para uma gema que já não ocupava o mesmo lugar.
"Pode virar", sugeriu Leo.
"Eu tentei."
Theo aproximou a tela.
"Na foto não está assim."
Rafael olhou para o filho.
"Essa parte eu notei."
Leo começou a rir e tentou transformar o som numa tosse. O pai ergueu uma sobrancelha, imitando a mãe com uma precisão que só tornou a risada maior.
Os três ficaram olhando para a frigideira. Rafael conferiu outra vez a receita aberta; Theo ajeitou o avental do pai, enquanto Davi procurava um prato limpo. Ainda queriam que Lara encontrasse uma surpresa bonita quando acordasse.
Lara acordou com um cheiro que não reconhecia como café.
Foi até a cozinha e encontrou os filhos lado a lado, muito quietos, enquanto Rafael olhava uma frigideira.
"O que aconteceu?"
Leo respondeu depressa:
"Uma surpresa."
Ela olhou para o avental e sorriu. Depois olhou para o prato.
Havia uma coisa escura e irregular onde esperava encontrar comida.
"Isso era o quê?"
Rafael segurou a frigideira com dignidade.
"Um ovo."
Theo abaixou a cabeça.
Leo tentou olhar de um ângulo diferente, procurando uma defesa para o pai.
Lara não conseguiu evitar a risada. Rafael ficou com a expressão de um homem que não via razão para uma tarefa tão pequena resistir tanto à sua capacidade.
"Você me deixou cuidar de contratos enormes", disse ele. "Não me deixou uma instrução sobre essa frigideira."
"Eu não sabia que você pretendia fazer uma negociação com o ovo."
Os meninos começaram a rir também.
Lara pegou outra frigideira e preparou o café com a ajuda dos três. Rafael recebeu tarefas que não envolviam fogo. Os filhos se encarregaram de informar que aquela divisão era temporária.
No fim, sentaram juntos à mesa.
O pai continuava de avental porque Leo pedira uma fotografia antes que o tirasse.
Lara guardou a imagem.
Leo quis olhar o resultado e apontou a flor do avental.
"Essa parte ficou boa."
Rafael olhou para o filho, resignado.
"Fico feliz por ter acertado alguma coisa."
Rafael percebeu.
"Isso não vai para a empresa."
"Não prometi nada."
Ele sorriu, admitindo que havia perdido mais uma disputa.
Depois do café, propôs um passeio até a Casa Torres, onde Gustavo organizava um leilão de joias. Lara não se interessou imediatamente, mas os meninos já sabiam que haveria uma peça especial para ver.
"Vocês combinaram isso quando?"
Theo se concentrou no próprio copo.
Leo explicou que o pai recebera a programação enquanto viajavam pelas mensagens.
Lara olhou para Rafael.
"Você está usando meus filhos de assessoria."
"São exigentes."
Ela aceitou ir, mais curiosa do que gostaria de admitir.
Na sala reservada do leilão, Leo recebeu suco e uma pequena porção de frutas. Theo queria saber como funcionavam as placas.
Rafael explicou a dinâmica antes de permitir que tocassem na sua.
Lara viu Márcia e Priscila no salão inferior. As duas examinavam uma joia de pérolas com a animação de quem ainda precisava exibir que nada havia mudado.
Os meninos reconheceram as mulheres e ficaram mais quietos.
"Elas não vêm aqui", informou Rafael.
Lara assentiu, aliviada por poder observar sem enfrentar outro corredor.
Quando a peça entrou em disputa, Priscila ergueu a placa cedo. Leo olhou para o pai.
Rafael fez um lance moderado. Não pretendia pagar qualquer valor, mas pagaria se a peça ficasse com ele.
Priscila aumentou.
Theo olhou para a mãe, lembrando da conversa sobre desenhos e vitrines. Lara percebeu a satisfação dos filhos, embora não soubesse exatamente quanto tinham influenciado a primeira oferta.
Rafael fez mais um lance. Márcia falou com a filha, que insistiu, olhando para a sala reservada.
Theo acompanhava os valores com o rosto concentrado. Leo tentava não parecer encantado com o modo como a placa da tia subia a cada vez que encontrava uma oferta diferente.
Lara pegou a mão do menor.
"Você está se divertindo demais."
"Ela gosta da joia", explicou ele.
"Eu vi."
"Então vai ficar feliz."
Rafael olhou para o filho, reconhecendo o humor perigoso daquela resposta. Depois se inclinou para falar baixo com Lara.
"Eu paro aqui."
Ela assentiu, satisfeita por não precisar transformar a disputa num espetáculo interminável.
Priscila ergueu a placa outra vez, com o rosto decidido a mostrar que não perderia para a irmã nem quando a irmã não estivesse competindo.
O leiloeiro confirmou o valor e procurou outras ofertas. Não recebeu nenhuma.
Leo apertou os lábios para conter um sorriso. Theo olhou para a fruta no próprio prato, mas os olhos revelavam a mesma satisfação.
O pai pousou a placa.
Priscila venceu por novecentos mil reais.
O sorriso dela ficou menos confortável quando entendeu que não havia outra oferta para dividir a responsabilidade pela escolha.
Lara olhou para Rafael.
"Coincidência?"
"Ela quis comprar."
Leo se ocupou com uma uva, satisfeito demais para responder.
Mais tarde, uma empresária chamada Verônica Duarte arrematou um colar claro, apresentado como Amante Branco. Rafael acompanhou a disputa sem interesse aparente.
Estava esperando o lote seguinte.
Quando a caixa com o diamante negro se abriu, Lara entendeu por quê.
A pedra não precisava da luz para chamar atenção da mesma maneira que as outras. Tinha profundidade, um brilho escuro que fazia o desenho da joia parecer mais nítido.
Olho do Diabo, anunciou o leiloeiro.
Lara se inclinou sem perceber.
Rafael olhou para ela antes de erguer a placa.
A disputa avançou. Ela tentou dizer que o preço era absurdo, mas o homem manteve a serenidade enquanto os valores subiam.
Sete milhões e quinhentos mil reais.
O último lance foi dele.
Lara virou-se, sem conseguir encontrar uma pergunta que não começasse com indignação.
Leo e Theo ficaram em silêncio. Sabiam que aquela não era a hora de comemorar.
Mais tarde, já fora do leilão, Rafael abriu a caixa diante dela.
"É para você."
"Eu ouvi o preço."
"Eu também."
Lara tocou a borda da caixa, sem aceitar imediatamente.
"Por que essa?"
Rafael olhou para o rosto dela, depois para a joia.
Pela primeira vez naquela manhã, o homem que fizera um lance milionário pareceu precisar de cuidado para escolher as palavras.
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