"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 23
Não era só por causa dos filhos
"O que aconteceu com Diego?"
A pergunta veio antes de qualquer cumprimento.
Lara se sentou, ainda segurando a xícara quente com a outra mão.
"Vocês se conhecem?"
"Sim."
Ela fechou os olhos brevemente.
"Ele veio propor um projeto. Depois começou a insistir em sair comigo. Hoje a noiva dele apareceu aqui."
Rafael ficou em silêncio.
Lara percebeu que não era falta de atenção.
"Me diga o que ela fez", pediu ele.
Ela contou o necessário. A água, as acusações, a conversa e as desculpas. Não tentou disfarçar a parte que a magoara.
"Eu não sabia que ele era seu amigo."
"Você não tinha por que saber."
"Não quero que transforme isso numa confusão no ateliê. Já teve uma."
Rafael soltou o ar devagar.
"Não vou discutir com ele aí."
Lara aceitou a resposta.
Do outro lado da ligação, Leo perguntou com quem o pai falava. Rafael informou que era a mãe, e o menino quis saber se ela já tinha terminado o trabalho.
A voz familiar suavizou um pouco o dia.
"Diga que vou estar em casa para o jantar", pediu Lara.
Rafael ouviu, esperou os filhos se afastarem com Lucas e voltou à conversa.
"E você? Está bem?"
Ela ficou olhando para a roupa emprestada.
"Fiquei chateada. Ainda estou. Mas eu consegui dizer o que precisava."
"Eu sei que conseguiu."
Não soou como uma maneira de dispensar o problema. Soou como confiança nela.
Lara respirou melhor.
Ao final da tarde, voltou para casa com Mauro. Os meninos chegaram pouco depois com Rafael e explicaram que a cadeira do escritório girava mais do que a deles.
Leo queria uma igual. Theo afirmou que não, porque ocuparia metade do quarto.
Rafael deixou as mochilas junto à porta e olhou para Lara.
Ela estava seca, de cabelo preso, mas havia um cansaço no rosto que não estivera ali pela manhã.
"Você ficou muito tempo com a roupa molhada?"
"Joana resolveu rápido."
Ele assentiu.
Leo puxou a manga da mãe.
"Quem molhou?"
Lara se abaixou.
"Uma pessoa fez uma coisa errada no trabalho. Nós conversamos, e ela pediu desculpas."
Theo olhou para o pai.
O menino percebeu a expressão dele antes de decidir que talvez não devesse perguntar mais naquele instante.
Bianca mandou uma mensagem durante a preparação do jantar. Tinha falado com Diego; a resposta viera numa sequência de acusações, seguida da declaração de que queria terminar o noivado.
Não sabia se ia para casa dos pais ou ficava dirigindo sem destino.
Lara leu, lembrou da mulher sentada diante dela com medo de escolher a frase errada e respondeu que poderia passar no apartamento, se quisesse.
Rafael observou a decisão.
"Você vai recebê-la?"
"Ela não fez o que fez por minha causa. E assumiu que errou. Não significa que eu tenha gostado."
Ele assentiu.
Não parecia a decisão que tomaria sozinho. Era, porém, uma das razões por que Lara o surpreendia.
Bianca chegou com os olhos vermelhos. Ficou junto à porta por alguns segundos, envergonhada demais para entrar com a facilidade de antes.
Lara lhe ofereceu uma cadeira.
Os meninos se apresentaram. Leo perguntou se ela queria água e, ao perceber o silêncio súbito dos adultos, olhou para Theo.
O irmão tomou o copo e colocou sobre a mesa sem comentar.
Bianca soltou uma pequena risada molhada de lágrimas.
"Quero. Obrigada."
Rafael ficou até que todos estivessem acomodados. Depois avisou Lara que precisava resolver uma conversa com Diego.
Ela olhou para ele.
"Sem trazer o assunto para os meninos."
"Não vou."
Ele se despediu dos filhos, tocou brevemente o ombro dela e saiu.
Bianca ficou olhando a porta fechada.
"É ele?"
Lara fingiu não entender por um instante.
Não conseguiu sustentar.
"É."
Leo sorriu. Theo continuou organizando os talheres como se não tivesse ouvido nada.
Mais tarde, num reservado onde costumavam encontrar os amigos, Diego se levantou quando Rafael entrou.
Gustavo Torres e João Menezes estavam perto da mesa.
"Eu ia ligar para você", começou Diego.
Rafael segurou sua camisa e acertou um golpe curto antes que terminasse a explicação. Gustavo se levantou imediatamente e colocou distância entre os dois.
"Chega. Falem."
Diego levou a mão à boca, indignado.
"Você ficou maluco?"
"Você foi atrás de Lara sem me perguntar uma coisa sequer."
A indignação perdeu força.
"Eu estava tentando ajudar."
"Ajudar quem? Ela recusou suas flores, seus convites e precisou explicar para sua noiva por que não tinha interesse em você."
Diego olhou para os outros amigos.
Não encontrou apoio.
"Eu vi vocês. Os meninos chamando você de pai, seu motorista levando ela... E depois lembrei das notícias. Achei que estava usando as crianças para entrar na sua vida."
Rafael o encarou.
"As crianças são meus filhos."
Diego piscou.
Gustavo olhou para ele como se a semelhança devesse ter encerrado o assunto muito antes.
"Seus filhos?"
"Os dois."
João encostou os cotovelos nos joelhos.
"E você não achou que precisava perguntar antes de montar um plano?"
Diego passou a mão pelo rosto.
"Eu achei..."
Rafael interrompeu.
"Você achou muita coisa. Não sabia nenhuma."
O outro ficou quieto.
Rafael passou a mão pelo próprio rosto e recuou outro passo. Não conseguia voltar à calma de costume. A lembrança de Lara molhada no trabalho não lhe dava esse espaço.
Rafael explicou apenas o que precisava para desmontar a história antiga. A mulher que os textos acusavam de passar a noite com um homem estivera no quarto dele. O noivado fora uma armadilha da qual Lara tivera de reconstruir a vida.
Ele não transformou as lembranças dela numa apresentação para os amigos.
"E mesmo que os meninos não fossem seus?", perguntou Gustavo. "Você podia ter dito que estava interessado nela."
Rafael olhou para o amigo, depois para Diego.
"Não é só interesse."
O silêncio na sala mudou.
Ele pareceu encontrar a palavra enquanto a dizia, sem o conforto de já tê-la ensaiado.
"Eu amo Lara."
Diego baixou os olhos.
Não havia piada adequada para uma descoberta daquela dimensão.
Rafael continuou:
"Ela não tentou me prender. Eu estou tentando conseguir um lugar na vida dela. E você resolveu testar uma mulher que já tinha deixado claro que não queria você."
João soltou um suspiro.
"Precisa pedir desculpas."
Diego assentiu.
"Eu vou."
"Ela decide se quer ouvir", disse Rafael.
O amigo aceitou, abatido. Quando tentou justificar a reação com os anos em que Rafael nunca demonstrara interesse por ninguém, Gustavo o interrompeu com um olhar.
Rafael se sentou afastado da mesa, tentando fazer a raiva diminuir o suficiente para continuar falando sem transformar tudo numa ameaça.
João perguntou se Lara sabia da intenção de Diego.
"Ainda não expliquei essa parte", respondeu.
Diego ergueu a cabeça.
"Eu explico."
"Você explica sem chamar isso de prova contra ela. Não houve prova. Houve uma mulher dizendo não enquanto você tentava não ouvir."
O amigo olhou para o chão.
Gustavo se aproximou da cadeira de Rafael e perguntou pelos meninos. O nome dos filhos mudou o modo como ele segurava o copo.
"Estão em casa. Jantando."
"E ela?"
Rafael demorou um instante.
"Disse que estava chateada. Não tentou fazer parecer menos importante."
Gustavo assentiu. Conhecia o amigo havia tempo suficiente para perceber que aquela confiança importava mais do que a declaração feita pouco antes.
Diego também ouviu. Pela primeira vez, começou a compreender que não havia chegado para impedir um golpe. Tinha entrado no meio de uma aproximação que os dois estavam construindo com dificuldade.
"Não melhora a explicação."
Diego ficou quieto de novo.
No apartamento, Bianca comia devagar, surpresa por conseguir sentir fome depois de chorar tanto.
Leo lhe ofereceu um pedaço de pão. Theo colocou a travessa mais perto.
Lara perguntara o que queria fazer, e Bianca respondera que não sabia. Era a resposta mais honesta que dera naquele dia.
"Eu gosto dele há tanto tempo", disse.
Leo franziu a testa.
"E ele fica deixando você triste?"
Bianca olhou para o menino.
"Às vezes."
Theo ergueu os olhos.
"Você pode escolher não casar."
Lara olhou para o filho, reconhecendo de onde ele tirara aquilo.
Leo assentiu.
"Mamãe escolheu."
Bianca começou a rir. A imagem dos dois pequenos conselheiros não tornava a decisão fácil, mas a fazia parecer possível.
Lara tocou sua mão.
"Você não precisa terminar hoje para provar nada. Mas pode decidir por você, em vez de esperar a próxima ameaça dele."
A mulher respirou fundo.
Depois do jantar, telefonou para a família. Não pediu que fingissem que o noivado continuava bem.
Lara a acompanhou até a porta, e Bianca voltou para casa sem prometer que nunca mais choraria por Diego.
Prometeu apenas que não correria atrás dele naquela noite.
Os meninos dormiram cedo. Lara organizou a cozinha, tomou banho e respondeu uma mensagem de Rafael confirmando que a conversa havia terminado.
Ele disse que contaria com calma no dia seguinte.
Lara colocou o telefone perto da cama.
Às três da manhã, acordou com a garganta seca e o corpo pesado.
Tentou pegar a água e derrubou um pouco sobre o lençol.
A cabeça doía. Estava quente demais.
Abriu a conversa de Rafael sem decidir se ligaria. Queria apenas saber se ainda estava acordado.
A tela embaçou diante dos olhos.
Seu dedo tocou o símbolo de chamada.
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