"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 12
A colher que ele aceitou sem protestar
"Ele está consciente?"
Lara fez a pergunta antes de lembrar como se respirava.
"Está, sim. Foi atendido e está em observação."
A funcionária informou o endereço e o quarto. Lara repetiu tudo, uma vez, para ter certeza.
Depois desligou e pegou a bolsa.
Joana a encontrou junto à porta.
"Aconteceu alguma coisa?"
"Um acidente. Eu preciso ir."
O rosto da assistente mudou. Pegou a pasta aberta das mãos dela e disse que guardaria os materiais.
Lara agradeceu sem saber se a palavra saíra inteira.
No carro por aplicativo, tentou telefonar para Rafael. Lucas atendeu o aparelho dele e confirmou que estava acordado.
"O braço esquerdo machucou. O médico ainda está terminando as orientações."
Ela olhou para a rua, onde cada semáforo parecia demorar mais que o anterior.
"Os meninos..."
"Vou buscá-los. A escola já foi avisada."
Lara apertou o telefone.
"Obrigada."
Só então percebeu que, pela primeira vez, alguém tinha lembrado de um problema antes que ela precisasse resolvê-lo.
No hospital, caminhou tão depressa que chegou ao quarto sem fôlego.
Rafael estava na cama, com o antebraço imobilizado e um curativo pequeno junto à sobrancelha. Virou a cabeça quando ouviu seu nome.
"Lara."
Ela parou ao lado da cama.
O homem parecia pálido. Ainda assim, era ele: consciente, olhando para ela, inteiro o suficiente para tentar um sorriso.
Lara sentiu vontade de chorar e de brigar, sem saber qual deveria vir primeiro.
"Você disse que estava tudo bem."
"Eu não falei com você ainda."
"Lucas disse."
"Então ele informou corretamente."
Ela olhou para o braço.
Rafael acompanhou.
"Isso vai melhorar."
"Quando?"
"Não hoje."
A honestidade simples devolveu um pouco de ar ao peito dela.
Lara puxou a cadeira e sentou. Só depois percebeu que segurava a bolsa com força demais.
Rafael estendeu a mão direita sobre o lençol.
Ela olhou para os dedos dele.
Não pegou imediatamente. Tocou apenas a ponta da mão, verificando o calor como se precisasse de outra confirmação.
Ele não se moveu.
"Eu estou aqui", disse.
Lara soltou a bolsa e deixou a mão ali por um instante.
O médico entrou pouco depois. Explicou a fratura, a imobilização e os exames realizados após o impacto. O tornozelo tinha uma contusão leve; a prioridade seria observar e organizar os cuidados para a recuperação.
"Ele pode ir para casa?", perguntou Lara.
"Depois da observação, se tudo continuar bem. Vamos reavaliar amanhã cedo."
Ela assentiu e fez outras perguntas. Rafael a ouviu pedir que repetissem uma orientação, confirmar o retorno e conferir a prescrição.
Não parecia a mulher que dizia não precisar dele. Parecia alguém para quem importava muito que ele permanecesse ali.
Quando ficaram sozinhos, Lara examinou o telefone dele sobre a mesa.
"Pediram meu número porque eu fui a última ligação?"
Rafael olhou para a janela.
"Era fácil encontrar."
Ela inclinou a cabeça.
"A moça disse que você pediu para ligar."
Ele voltou os olhos para ela.
"Então não adianta inventar uma explicação melhor."
Lara tentou manter a expressão séria.
"Você podia ter ligado para seus pais."
"Podia."
"Ou para Lucas."
"Ele já estava vindo."
"Mas quis me assustar."
O sorriso dele desapareceu.
"Não quis assustar você. Quis que viesse."
Lara olhou para o curativo, depois para a mão ainda perto da sua. A irritação não conseguiu sobreviver inteira àquela resposta.
Os meninos chegaram com Lucas no fim da tarde. Theo entrou primeiro e parou ao ver o braço do pai. Leo correu até a cama, mas freou antes de abraçá-lo.
"Onde pode?"
Rafael abriu o braço direito.
"Aqui."
O menor encostou com cuidado. Theo ficou junto à beirada e perguntou se doía.
"Agora menos."
"Foi culpa sua?", perguntou Leo.
"Não. Outro carro entrou sem parar."
Theo pareceu organizar a informação, procurando algo que pudesse impedir uma repetição.
Lara tocou suas costas.
"O pai de vocês foi atendido. Vai precisar descansar, mas está seguro."
Rafael perguntou sobre a escola. Leo mostrou um adesivo que recebera; Theo abriu a mochila para mostrar uma atividade.
Não estavam completamente tranquilos, mas a conversa os ajudou a reconhecer o pai sob os curativos.
Leo examinou o próprio adesivo e decidiu que havia um problema de distribuição.
"Você não ganhou nenhum."
Rafael olhou para o desenho brilhante na camiseta do filho.
"Eu não fui à escola."
"Mas ficou com o braço assim. Precisa de alguma coisa."
O menino soltou o adesivo com cuidado e o colocou na manga livre do pai. Apertou as bordas, concentrado em não tocar onde doía.
Theo observou a operação. Depois mostrou a atividade da mochila, um desenho pequeno de uma casa.
"Pode ficar aqui até você sair."
Rafael recebeu a folha.
"Você não quer levar para casa?"
"A gente tem a casa de verdade. Você fica com essa hoje."
Lara virou o rosto para procurar um lugar na mesa onde apoiar o desenho. Precisava de alguns segundos para que os filhos não percebessem seus olhos.
Rafael passou a mão pelo cabelo de Theo.
"Vou cuidar bem."
O menino se aproximou um pouco mais. Quando finalmente encostou a testa no braço livre do pai, a preocupação deixou de parecer uma inspeção e virou o abraço que tinha segurado desde a entrada.
Leo ficou perto também.
Rafael manteve os dois ali sem tentar começar outro assunto. Aquele silêncio tinha uma utilidade que nenhuma pergunta sobre a escola alcançaria.
Lara voltou com um copo de água e encontrou o menor quase dormindo junto ao pai.
"O susto cansou", disse baixo.
Rafael ergueu os olhos para ela.
"Vocês podem ficar sentados um pouco. Não precisam cuidar de mim o tempo inteiro."
Lara puxou a cadeira para perto. Dessa vez, não tentou esconder que era exatamente ali que queria ficar.
Lucas deixou os telefones de contato e confirmou que resolveria os compromissos da empresa. Ao sair, recebeu de Rafael um olhar de agradecimento que compreendeu muito bem.
Lara ficou até a hora de organizar o jantar.
"O que você consegue comer?"
Leo respondeu pelo pai, pedindo frango. Theo acrescentou batatas. Rafael sugeriu um prato com bastante pimenta.
Lara olhou para os três.
"Eu perguntei a um paciente. Encontrei um grupo de pedidos."
"A pergunta foi ampla", justificou Rafael.
Ela pegou a bolsa.
"Vou ver o que consigo comprar aqui perto."
Quando saiu, Leo se aproximou do pai.
"Você fez ela vir."
Rafael observou o rosto dele.
"Eu queria vê-la."
Theo pegou o telefone e escreveu para Antônio. Os avós souberam do acidente por Lucas; já tinham uma pequena viagem marcada e aguardavam a confirmação de que o filho não precisaria de cuidados mais intensivos.
Teresa não queria partir. Antônio tinha outra opinião depois de ouvir quem estava no quarto.
A mensagem de Theo foi curta: Mamãe ficou. Está comprando jantar.
O avô respondeu com uma pergunta sobre a dor do pai, depois lembrou o horário da viagem.
Theo guardou o aparelho quando Rafael o olhou.
"Com quem está falando?"
"Com alguém que perguntou se você está bem."
"Seu avô?"
O menino hesitou um segundo.
"Também."
Leo se inclinou contra a cama, tentando esconder o riso.
Lara voltou com comida suficiente para todos. Os meninos receberam frango e arroz. Rafael, uma refeição com legumes, carne macia e sopa.
Ele examinou os pedaços de cenoura.
Lara viu.
"Não comece."
"Eu não disse nada."
"Sua cara disse."
Leo recebeu a própria caixa e foi sentar na pequena mesa. Theo o acompanhou.
Rafael tentou ajustar o prato com a mão direita, mas o movimento puxou o braço machucado. Lara aproximou a bandeja.
"Eu corto."
"Talvez possa ajudar com a sopa também."
Ela olhou para a mão livre dele.
Rafael permaneceu sério por tempo suficiente para ser divertido.
"A bandeja está numa posição ruim."
Lara sentou na beira da cadeira, pegou a colher e escolheu um pedaço bem visível de cenoura.
"Abra a boca."
Ele obedeceu.
O sorriso que pretendia lançar aos filhos ficou preso quando sentiu o gosto.
Lara esperou que engolisse.
"Não gostou?"
Rafael olhou para a próxima colher, depois para o rosto dela.
"Gostei."
"Que bom. Tem bastante."
Leo quase engasgou de tanto rir. Theo ofereceu água ao irmão com uma expressão digna, embora seus olhos estivessem brilhando.
Rafael comeu a segunda colher sem reclamar.
Lara percebeu que sua mão já não tremia.
Limpou uma pequena gota no canto da boca dele com o guardanapo e só entendeu a intimidade do gesto quando levantou os olhos.
Rafael estava olhando para ela, não para os filhos.
"Você ficou muito assustada?"
Lara aproximou outra colher.
"Coma antes que esfrie."
Ele aceitou a fuga. Era uma resposta suficiente por aquela noite.
Mais tarde, os meninos começaram a bocejar. Lucas voltara para buscá-los, e Lara planejava levá-los para casa e retornar, caso fosse necessário.
Rafael negou.
"Vá dormir. Eu também vou."
"Você não precisa de alguém?"
"Agora tenho a equipe daqui. Amanhã resolvemos."
Theo olhou para a mãe.
Leo abriu um olho, imediatamente interessado.
"Amanhã ele pode ficar na nossa casa?"
Lara ficou com a mochila suspensa na mão.
Rafael olhou para ela com uma esperança pouco compatível com seu habitual autocontrole.
"Tem o quarto de hóspedes", lembrou Theo.
Os três aguardaram.
Lara percebeu que, apesar do braço quebrado, o pai já fazia parte da mesma equipe dos filhos.
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