"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 11
O amigo que chegou tarde
Rafael olhou para o filho.
"Você está prestando atenção no livro?"
"Estou prestando em tudo."
Lara riu e pegou a história das mãos dele.
"Eu termino. Você precisa ir?"
O homem olhou para o relógio, agora sobre a mesa.
Precisava. Já havia reorganizado duas coisas importantes para permanecer naquela sala.
"Amanhã eu venho buscar os meninos."
"Amanhã Gabriel vai passar cedo."
"Eu ouvi."
A resposta curta confirmou o que Leo tinha visto. Lara sentiu uma satisfação pequena e imediatamente tentou ignorá-la.
Não tinha razão para gostar que ele estivesse incomodado.
Ainda assim, quando Rafael se abaixou para se despedir dos filhos, ela precisou olhar para o livro para não sorrir.
Na manhã seguinte, Gabriel chegou com duas caixas de materiais e pão quente. Conhecia o código do interfone, sabia em que prateleira Lara guardava os copos e perguntou se a torneira continuava fazendo barulho.
Rafael apareceu enquanto os meninos examinavam os presentes.
Leo tinha recebido um pequeno kit de engrenagens. Theo, peças para um circuito simples.
"Bom dia", disse Gabriel.
"Bom dia."
Os homens apertaram as mãos com uma educação que não aqueceu nada.
Lara percebeu e se ocupou com o café.
Gabriel abriu uma das caixas.
"A amostra do tecido veio junto. Aquela que você não conseguiu encontrar aqui."
Ela passou os dedos pelo material.
"É a cor certa. Obrigada."
"Eu lembro do vestido em Paris. Você passou três dias reclamando que nenhuma loja tinha o tom exato."
Lara sorriu.
"Porque nenhuma tinha."
"Até a última."
"A última porque eu achei. Você queria desistir na terceira."
Gabriel ergueu as mãos, rendido.
Rafael ficou perto da mesa. Não gostava de chegar a uma conversa cujo começo pertencia a anos em que ele não estivera presente.
Theo observou o pai, depois Gabriel. Leo se aproximou de Rafael com a caixa de engrenagens.
"Você pode montar comigo depois?"
"Posso."
"Hoje?"
"Hoje."
O menino assentiu, satisfeito. Gabriel conhecia bem aquela técnica de reservar um lugar para cada adulto.
Lara ofereceu café aos dois. Rafael aceitou. Gabriel também.
Durante alguns minutos, falaram dos materiais, da escola e do passeio anterior. A normalidade exigia um esforço que só os adultos pareciam perceber.
Theo guardou o circuito, colocou a mochila e perguntou se já podiam sair.
Lara agradeceu a Gabriel outra vez.
"Você quer almoçar comigo esta semana? Eu ainda te devo aquele jantar da mudança."
"Não deve nada."
"Então aceita porque eu quero conversar sem alguém perguntando pelo lanche a cada dois minutos."
Leo levantou os olhos.
"Eu não pergunto a cada dois minutos."
"Você se segura por três?"
Ele sorriu, descoberto.
Gabriel concordou em combinar um horário. O telefone dele tocou antes que pudesse dizer qual.
Ao ver o nome da mãe, a expressão mudou discretamente.
"Só um instante."
Foi até a janela. Lara recolheu a caixa vazia, fingindo não ouvir.
"Eu lembro, mãe. Não estou esquecendo."
Outra pausa.
"Não. Eu fui entregar umas coisas."
Rafael ouviu apenas o suficiente para notar a diferença entre a facilidade de Gabriel com Lara e a cautela que usava ao falar dela em outro lugar.
Quando voltou, o amigo estava sorrindo novamente.
"Esta semana ficou um pouco complicada. Posso te avisar?"
Lara assentiu sem dificuldade aparente.
"Claro. Quando der."
Mas Rafael viu que ela guardou a pergunta junto com a caixa, deixando de insistir.
No carro, Leo explicou o funcionamento das engrenagens. Theo corrigiu duas palavras, e Lara pediu que deixassem o pai dirigir.
Os meninos ficaram quietos durante exatamente o tempo necessário para olhar um ônibus pela janela.
Rafael esperou até que entrassem na escola para perguntar:
"Vocês se conheceram em Paris?"
Lara olhou para ele.
"Gabriel e eu? Sim. Numa apresentação de moda."
"Ele ajudou quando os meninos eram pequenos?"
"Ajudou. Trouxe compras, me acompanhou em algumas consultas. Não todas. Tinha a própria vida."
Rafael ficou olhando para a porta da sala.
Lara reconheceu a expressão e se aproximou.
"Você não sabia que eles existiam."
Ele virou o rosto.
"Eu sei."
"Não pode se cobrar por uma coisa que eu também não soube como contar."
O homem a encarou por um instante. Ela só percebeu o tamanho do que dissera depois.
Não falara para se defender. Falara para aliviar alguma coisa nele.
Rafael pareceu perceber a mesma mudança.
"E agora?"
"Agora você está aqui."
Lara baixou os olhos e começou a caminhar. O sorriso dele a acompanhou até o estacionamento.
Na segunda-feira, iniciou o trabalho no núcleo da Maison Vallon. A assistente Joana lhe mostrou o ateliê, os manequins e a sala pequena reservada para a coleção.
Lara passou a manhã ajustando um molde e conversando com as costureiras. Sentia falta daquela troca imediata, da possibilidade de tocar o tecido antes de decidir uma linha no papel.
A primeira prova revelou um problema no ombro. A roupa parecia correta no manequim, mas repuxava quando a modelo levantava o braço.
Uma costureira sugeriu aumentar a abertura. Lara pediu que esperassem e observou o movimento outra vez.
"Se abrirmos aqui, a parte de trás vai perder a linha. Eu prefiro redistribuir isso."
Pegou um alfinete, marcou uma mudança pequena e chamou a costureira para perto. Não queria apenas mandar corrigir; queria que visse por que.
Na segunda prova, o tecido acompanhou o corpo sem deformar o desenho.
Joana ficou olhando.
"Era só aquele pedacinho?"
"Era onde o tecido pedia espaço."
A modelo levantou os braços e sorriu, aliviada. Lara sorriu também. Tinha passado dias tentando organizar a vida dos filhos e a chegada de Rafael; ali, por alguns minutos, reconheceu uma parte de si que não precisava responder por ninguém além do próprio trabalho.
Ao voltar à mesa, encontrou um bilhete dobrado dentro da bolsa. Theo escrevera seu nome, e Leo acrescentara um coração enorme, torto de um lado.
Lara fotografou e enviou a Rafael antes de pensar muito.
Ele respondeu perguntando se os meninos haviam deixado espaço para ela trabalhar ou ocupavam a bancada inteira.
Ela escreveu que ocupavam tudo, mesmo quando não estavam presentes.
A resposta dele veio alguns segundos depois: Estou descobrindo como isso funciona.
Lara releu a frase, guardou o bilhete na gaveta e abriu os desenhos da coleção.
Quando Joana voltou com uma pergunta, encontrou a designer concentrada, mas sorrindo de novo.
"Esse tecido também melhorou?", provocou.
Lara ergueu os olhos.
"Pode deixar as amostras aqui, Joana."
A assistente obedeceu, satisfeita por ter conseguido a pequena risada que acompanhou a ordem.
Perto do almoço, chegou uma refeição com seu nome.
Gabriel havia pedido num restaurante de que ela gostava.
Joana olhou para a embalagem com um sorriso curioso.
"O seu namorado conhece seu gosto."
"Ele é um amigo."
"Um amigo bem atento."
Lara abriu o celular e mandou uma mensagem agradecendo, mas pediu que ele não transformasse aquilo num hábito. Conseguia almoçar no ateliê, e não queria criar um entendimento que não haviam conversado.
Gabriel respondeu que só queria que ela comesse direito.
Depois acrescentou que precisava ser lembrado de vez em quando.
Lara leu a frase duas vezes.
Não respondeu com uma brincadeira. Escreveu que gostaria de vê-lo e conversar, quando ele pudesse.
Do outro lado da cidade, Gabriel deixou o telefone sobre a mesa.
A mãe aguardava com o nome de uma mulher da família de um parceiro comercial e um convite para jantar.
"Você não pode continuar adiando tudo", disse ela.
Ele se recostou.
"Eu não estou adiando tudo."
"Então venha na quinta."
Gabriel pensou em Lara, no café da manhã e na presença de Rafael junto à porta.
Queria dizer com clareza quem desejava escolher. Em vez disso, perguntou quem mais estaria no jantar.
Naquela noite, Rafael voltou ao apartamento com Lucas para entregar um documento que Lara pedira sobre o contrato da Vértice. Não era uma cobrança, apenas a proposta por escrito, para que pudesse examinar sem pressa.
Os meninos o puxaram para montar as engrenagens. Lucas recebeu um copo de água e ficou esperando perto da cozinha.
Lara folheou o documento.
"Você trouxe mesmo."
"Eu disse que traria."
"Achei que era só uma maneira de insistir."
"Pode ser uma maneira de insistir com informações completas."
Ela soltou uma risada.
Rafael olhou para ela por mais tempo que o necessário. Lucas abaixou os olhos para o telefone, oferecendo aos dois uma privacidade que não existia na sala.
Depois que pai e assistente saíram, Lara encontrou um pequeno desenho sobre a proposta.
Leo havia feito quatro bonecos diante de um prédio. Theo corrigira as letras do nome.
Ela não precisou perguntar quem eram.
Na manhã seguinte, Rafael dirigiu até a empresa após deixá-los. Mauro, seu motorista, estava resolvendo uma entrega para Lucas, e ele não quis esperar.
O telefone da Maison Vallon ficou ocupado durante a primeira metade da tarde. Lara trabalhava num ajuste difícil e esqueceu o almoço por alguns minutos.
Quando um número desconhecido apareceu no celular, atendeu sem levantar os olhos do molde.
"Lara Azevedo?"
"Sim."
"Estou ligando do hospital. Rafael Valença sofreu um acidente de carro. Ele pediu que entrássemos em contato com a senhora."
A tesoura escapou dos dedos dela e bateu no chão.
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