"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 5
Na frente dos filhos dela, não
Priscila reconheceu Rafael um segundo tarde demais.
Seu sorriso ficou parado no rosto. Bruno soltou discretamente o braço dela e endireitou o paletó.
"Senhor Valença. Não tinha visto o senhor."
"Eu vi."
A resposta deixou Bruno sem saber como continuar.
Lara colocou uma mão no ombro de Leo. O menino já olhava para a tia com curiosidade desconfiada. Theo pousou o talher.
"Nós estamos jantando", disse ela. "Se não há nada importante, prefiro que continuem."
Priscila olhou novamente para os meninos.
"Você desaparece por cinco anos e volta assim. Nem procura a família."
"Não sabia que sentiam minha falta."
"Papai ficou muito magoado."
Lara sentiu a antiga dor, mas não deixou que comandasse a voz.
"Ele conseguiu publicar isso muito bem."
Bruno se aproximou um pouco.
"Não precisamos falar daquele assunto aqui."
"Foi sua esposa quem começou."
Rafael observava os dois. Não conhecia todos os detalhes, mas conhecia o momento em que Lara apertara o ombro do filho para se manter firme.
"Vocês ouviram o pedido dela."
Bruno assentiu depressa.
Priscila, porém, ainda queria recuperar alguma vantagem.
"Só não achei que você apresentaria os meninos tão rápido a alguém..."
"Eles são meus filhos", disse Rafael.
A frase caiu entre os quatro adultos.
Lara virou o rosto para ele. Não lhe pedira para anunciar nada, mas a certeza tranquila com que falou desarmou uma parte do medo.
Leo abriu um sorriso.
"Os dois", acrescentou, erguendo dois dedos.
Theo pegou o copo, muito satisfeito para demonstrar.
Priscila olhou de um rosto infantil ao outro. A semelhança que ignorara no primeiro instante se tornou impossível de evitar.
Bruno tocou seu braço.
"Vamos."
Dessa vez ela foi.
Lara esperou que se afastassem antes de soltar o ar.
Rafael não perguntou se estava bem quando era evidente que não estava. Aproximou o copo de água dela e chamou o garçom para retirar o prato que havia esfriado.
"Pode trazer outro, por favor?"
"Não precisa", disse Lara.
"Você quase não comeu."
Ela ia protestar, mas Leo encostou na sua manga.
"Você sempre fala isso para a gente."
Lara olhou para os três rostos atentos.
"Está bem. Vou comer."
Theo retomou o jantar primeiro, como se estivesse mostrando o caminho para os outros. Leo ofereceu mais uma batata. Rafael esperou que ela desse a primeira garfada antes de tocar no próprio prato.
A conversa não voltou imediatamente ao que era. Ainda assim, quando chegaram as sobremesas, Leo conseguiu fazê-la rir ao insistir que a cereja precisava de um prato só para ela.
Rafael os levou para casa. No elevador, os meninos mal conseguiam manter os olhos abertos.
Lara agradeceu junto à porta.
"Pelo jantar?", perguntou ele.
Ela olhou para os filhos.
"Por não deixar aquilo continuar."
Rafael assentiu. Não transformou o agradecimento em outra proposta.
"Posso ligar amanhã?"
"Depois das seis. Eles já vão ter jantado."
Leo abriu um olho.
"Pode antes."
"Depois das seis", repetiu a mãe.
Rafael concordou com ela.
Só quando a porta se fechou Lara percebeu que havia marcado, por vontade própria, o próximo contato.
Na manhã seguinte, Márcia apareceu.
O porteiro ligou antes, informando que uma mulher se dizia mãe de Lara. Ela corrigiu o parentesco e pediu que não a deixasse subir.
Precisava, porém, resolver a situação antes que os filhos a escutassem pelo interfone. Desceu com eles porque Gabriel chegaria para levá-los à compra de material, e não havia outro adulto no apartamento.
Márcia esperava junto à entrada, bolsa rígida no braço.
"Então é verdade."
Lara parou a uma distância segura.
"O que você quer?"
"Seu pai tem o direito de saber quando a filha volta ao país."
"Ele anunciou que não era mais meu pai. Deve ter esquecido de avisar você."
Márcia se aproximou. Os meninos ficaram junto às pernas da mãe.
"Não use aquela confusão como desculpa para sua falta de respeito. Priscila me contou quem estava com você ontem."
Lara sentiu o estômago endurecer.
"Não fale dos meus filhos."
"Eu estou falando de você. Sempre foi igual à sua mãe, escondendo ambição atrás dessa cara..."
"Não fale dela também."
A mudança na voz atraiu o porteiro. Márcia olhou para ele e tentou recuperar a aparência de uma conversa familiar.
"Está vendo? Eu venho por preocupação e sou recebida assim."
Theo se moveu até a frente da mãe.
"Pode ir embora."
Márcia baixou os olhos.
"Sua mãe não ensinou a falar com os mais velhos?"
"Ensinou. Por isso eu pedi."
Lara colocou a mão na nuca do filho e o puxou para perto. Não queria que ele precisasse ocupar aquele lugar.
"A conversa acabou."
Virou-se para levar os meninos de volta ao elevador. Márcia tentou segurá-la pelo braço.
Lara se afastou.
"Não toque em mim."
"Você não vai me dar as costas."
A mão da madrasta subiu num gesto que Lara reconheceu antes de se completar.
Outra mão segurou o pulso.
Rafael estava ao lado dela.
"Ela pediu para não ser tocada."
Márcia empalideceu. O porteiro já vinha na direção deles, e Lucas apareceu atrás do chefe com uma caixa de peças.
Rafael soltou o pulso assim que a mulher recuou.
"A senhora não foi convidada a entrar. E não vai ameaçá-la aqui."
"O senhor não sabe como ela trata a própria família."
"Estou vendo como a senhora trata a dela."
Lara olhou para o homem, surpresa com a precisão daquela resposta.
Leo se agachou atrás dela. Pegou o pequeno avião de teste que trouxera para mostrar a Gabriel e apertou o controle.
Uma hélice começou a girar. O brinquedo avançou baixo, carregando um reservatório de água usado nas experiências dos irmãos.
"Lua", chamou Theo, tarde demais.
O jato atingiu a saia de Márcia.
A mulher deu um grito e recuou. Lucas fechou os olhos por um instante. Rafael olhou para o menino, que segurava o controle com um rosto profundamente inocente.
"Foi um pouso ruim."
Lara tirou o aparelho da mão dele.
"Nós vamos conversar sobre esse pouso."
Não riu, embora a vontade quase doesse.
O porteiro conduziu Márcia para a saída. Ela ainda falava em Sérgio e ingratidão, mas a porta de vidro fechou antes de a frase terminar.
Lara se ajoelhou diante dos filhos.
"Vocês estão bem?"
Theo assentiu. Leo tocou o braço dela.
"Ela ia bater em você."
Lara o abraçou, depois chamou o irmão para o mesmo abraço.
"Eu sei. Mas vocês não precisam resolver tudo sozinhos."
Rafael esperou perto, dando espaço. Quando ela se levantou, perguntou:
"Quer subir?"
Lara olhou para a caixa nas mãos de Lucas.
"Você veio trazer isso?"
"A hélice certa. A de ontem não resistiu."
Leo apontou para o avião ainda nas mãos da mãe.
"Essa resistiu."
"Percebi", respondeu Rafael.
Lara soltou uma risada breve, finalmente. O alívio veio junto, tão forte que os joelhos pareceram amolecer.
"Quer tomar um café?"
O homem aceitou antes que ela terminasse de pensar se deveria ter convidado.
No apartamento, os meninos espalharam as peças no tapete. Lara pôs água no fogo e descobriu que estava tremendo quando tentou pegar as xícaras.
Rafael apareceu à entrada da cozinha.
"Posso ajudar?"
"Está tudo bem."
Uma colher caiu.
Ele se abaixou para pegar, colocou outra sobre o balcão e esperou.
Lara apoiou as mãos na pia.
"Eu detesto que eles vejam isso."
"Eu sei."
"Não quero que a primeira semana deles aqui seja sobre minha família."
Rafael olhou para o tapete, onde Theo explicava ao irmão por que o reservatório teria de ser retirado.
"Ainda podemos fazer com que seja sobre outra coisa."
Ela acompanhou o olhar.
"Um avião que não molhe as pessoas?"
"Parece um bom começo."
Lara respirou fundo. Preparou o café e levou a bandeja à sala.
Rafael sentou no tapete outra vez. Leo encostou nele; Theo separou as peças numa ordem cuidadosa.
Quando uma parte difícil precisou de força, o pai ajudou. Quando exigiu paciência, ouviu o menino explicar. Os dois tipos de trabalho importavam.
Lara ficou no sofá com a xícara entre as mãos.
Nunca imaginara que ver alguém construindo um brinquedo pudesse comovê-la tanto.
Mais tarde, os meninos foram buscar uma caixa no quarto. Rafael se levantou e ficou perto dela.
"Você achou que eu iria levar os dois?"
Lara encarou a xícara.
"Você tem dinheiro, uma família, uma casa. Eu conheço o que as pessoas dizem quando veem uma mulher sozinha com filhos."
"Lara."
Ela ergueu o rosto.
"Não procurei você durante cinco anos para tirar seus filhos de você."
A frase ficou entre os dois, íntima demais para a distância ainda existente.
"E o que você quer?"
Rafael olhou para a mesa de trabalho, para as duas mochilas junto à parede e para a mulher que havia feito aquele pequeno apartamento funcionar.
"Um lugar aqui. Se você me deixar construir."
Lara não respondeu imediatamente.
Da porta do quarto, Leo chamou o pai com impaciência, e Rafael se afastou para ajudar.
Ela ficou olhando a mão que acabara de segurar o pulso de Márcia agora encaixar uma asa minúscula.
Quando o telefone de Rafael tocou, era Teresa Valença.
"Seu assistente me disse que você estava ocupado com duas crianças", anunciou a mãe. "Espero que tenha uma explicação muito boa."
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