"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 2
O visitante que não precisava de horário
"Bom dia. Eu vim falar com o meu pai."
A recepcionista da Valença olhou por cima do balcão.
O menino mal alcançava a borda. Vestia uma camiseta clara, tênis com cadarços azuis e uma mochila que parecia grande demais para ele.
"Seu pai trabalha aqui?"
"Trabalha bastante. Isso pode ser um problema."
Ela sorriu.
"Como ele se chama?"
"Rafael."
O sorriso diminuiu um pouco.
"Rafael de qual departamento?"
Leo apontou para o nome em letras metálicas na parede.
"Desse."
A recepcionista se levantou. Um segurança já se aproximava, mas o menino continuava tranquilo.
"Você veio com um adulto?"
"Com o Gabriel. Ele está na loja do outro lado. A gente veio comprar uma peça."
"Ele sabe que você está aqui?"
Leo hesitou.
A recepcionista pegou o telefone.
"Então primeiro nós vamos avisar. Qual é o número?"
Ele recitou sem dificuldade. Quando Gabriel atendeu, a voz assustada atravessou o fone antes mesmo que a mulher terminasse de explicar.
Leo se sentou numa poltrona, balançando as pernas. Conseguira chegar ao prédio. Não precisava conseguir tudo sozinho.
Lucas apareceu alguns minutos depois, reconheceu o visitante do aeroporto e parou.
"Você de novo."
"Eu também lembro de você. Não deixou o papai falar com a mamãe."
"Acho que não foi exatamente isso."
"Então hoje você pode ajudar."
O assistente olhou para a recepcionista, recebeu a confirmação de que o responsável vinha buscá-lo e telefonou para o andar executivo.
Rafael interrompeu a leitura de um contrato.
"Qual dos dois?"
"O que conversa bastante."
"Traga para cá. E avise o responsável onde ele estará."
Quando a porta do escritório se abriu, Leo parou só para observar a sala.
Era grande. A mesa tinha poucos objetos. Não havia desenhos, almofadas engraçadas nem a bagunça organizada que cercava o trabalho da mãe.
"Você mora aqui?"
Rafael fechou a pasta.
"Não."
"Parece."
"Por quê?"
"Você está sempre aqui nas fotos."
O homem apoiou as mãos na mesa.
"Você pesquisou fotos minhas?"
Leo puxou uma cadeira. Tentou subir, falhou na primeira vez e lançou um olhar indignado para o móvel. Rafael se levantou e o colocou no assento.
O menino ajeitou a camiseta com dignidade.
"Obrigado."
"Responda à pergunta."
"Eu queria saber se você era mau."
A franqueza o deixou sem uma resposta pronta.
"E o que descobriu?"
"Você parece bravo. Mas ontem não me deixou sozinho."
Rafael sentou novamente.
"Isso bastou?"
"Não. Por isso voltei."
Lucas, junto à porta, tossiu para disfarçar uma risada.
Rafael lançou um olhar para ele. Leo reconheceu a expressão e imitou, franzindo a testa.
O assistente precisou sair.
"Sua mãe sabe dessa visita?"
"Ela está trabalhando."
"Isso não foi o que perguntei."
O menino examinou um peso de papel.
"Ela sabe que eu saí com o Gabriel."
Rafael reconheceu a evasiva. Estava prestes a responder quando Lucas voltou com o celular.
Gabriel queria falar com ele.
A conversa foi curta e pouco cordial. Rafael informou que a criança estava segura; Gabriel disse que entraria no prédio assim que terminasse de resolver a compra e que Lara seria avisada.
Ao ouvir o nome da mãe, Leo perdeu um pouco da tranquilidade.
"Não precisa assustar ela."
"Então você também não deveria sair sem avisar."
"Eu estava olhando o prédio."
"E entrou."
"A porta estava aberta."
Rafael passou a língua pelos dentes para conter o sorriso.
"Da próxima vez, você pede."
O menino ergueu os olhos.
"Vai ter próxima vez?"
Por alguma razão, aquela esperança simples pesou mais que a pergunta anterior.
"Se sua mãe permitir."
Leo relaxou no assento.
Enquanto aguardavam Gabriel, Rafael tentou concluir a leitura da proposta de aquisição de um terreno. O menino ficou olhando os documentos, depois a tela do computador.
"Isso é uma casa?"
"Ainda não. Um projeto."
"Mamãe desenha roupa. Você desenha casa?"
"Eu compro o lugar onde outras pessoas vão construir."
"Esse lugar aí?"
Rafael assentiu.
Leo inclinou o rosto.
"A foto é diferente."
"Diferente de quê?"
"Da do mapa. Eu olhei esse endereço ontem. Fica perto daqui."
O homem examinou a fotografia aérea.
"Você olhou esse endereço?"
Leo apontou para um nome impresso no canto da proposta. Era uma das empresas associadas ao empreendimento, citada nas notícias que os meninos haviam encontrado ao pesquisar a Valença.
"O Sol perguntou por que tinha tanta notícia dizendo a mesma coisa. A gente abriu o mapa. Não tinha esse lago."
Rafael virou a tela. Comparou duas imagens.
Na proposta, a margem estava limpa. Na fotografia pública, apareciam estruturas que a apresentação não mencionava.
"Pode ser uma imagem antiga", disse ele.
"Pode. Mas a data da sua também é antiga. Só esconderam com a letra."
O menino apontou o rodapé.
Rafael se aproximou da tela.
Não era uma conclusão suficiente para acusar ninguém. Era, porém, uma diferença que a equipe deveria ter explicado antes da reunião.
Ele chamou Lucas e pediu os anexos originais e uma verificação independente do endereço.
Leo balançou as pernas, satisfeito.
"Ajudei?"
"Talvez."
"Pode falar sim. Eu não vou cobrar."
"Generoso."
"Só aceito almoço."
Dessa vez Rafael sorriu de verdade.
Gabriel chegou logo depois, acompanhado de um segurança. A expressão dele mudou ao ver o menino confortável junto à mesa.
"Leo."
A criança desceu da cadeira.
"Eu estou aqui."
"Eu percebi. Nós combinamos que você ficaria na loja."
Leo abaixou o rosto. A brincadeira já não servia.
"Desculpa."
Gabriel se agachou.
"Você não pode simplesmente desaparecer. Sua mãe acabou de passar por isso no aeroporto."
"Eu sei."
Rafael observou a vergonha sincera na expressão pequena e interveio sem retirar a razão do outro adulto.
"Ele já sabe que precisa pedir. Posso almoçar com vocês?"
Gabriel o encarou.
"Lara vem buscá-lo."
"Ela pode nos encontrar no restaurante do prédio. Vou mandar o endereço."
O outro homem hesitou. Não tinha uma razão concreta para recusar sem transformar o episódio numa disputa diante da criança.
"Até ela chegar, eu fico."
Rafael assentiu.
No restaurante, Leo se sentou entre os dois homens e olhou o cardápio como quem avaliava uma negociação séria.
"Mamãe diz que não é para pedir uma coisa e não comer."
"Então escolha algo de que goste", respondeu Gabriel.
"Eu gosto de muita coisa."
O menino contou nos dedos. Quando chegou à sobremesa, Rafael fechou o cardápio.
"Primeiro o almoço."
Leo o examinou.
"Você falou igual a ela."
"Sua mãe parece sensata."
"Ela também fala isso."
O prato chegou, e o menino tentou cortar a carne com a faca infantil. A força não bastou. Gabriel estendeu a mão, mas Rafael já havia aproximado o prato.
Antes disso, Leo tinha derrubado o guardanapo duas vezes. Na segunda, ficou olhando para o chão, sem saber se podia descer da cadeira alta. Rafael o pegou, pediu outro ao garçom e colocou sobre as pernas pequenas.
"Aperta aqui para não escorregar."
"Você sabe fazer isso?"
"Estou aprendendo."
Leo experimentou segurar a ponta entre os joelhos. Depois alcançou o copo com as duas mãos, bebeu com cuidado e olhou para o homem, esperando a aprovação que não queria pedir.
Rafael percebeu tarde, mas percebeu.
"Assim está bom."
O menino endireitou as costas, orgulhoso. Aquele elogio simples pareceu importar mais que acertar o problema dos documentos.
"Deixe comigo."
Cortou em pedaços pequenos, afastou a faca e devolveu.
Leo ficou olhando para ele.
"O que foi?"
"Nada."
A voz saiu menor que antes.
O menino espetou um pedaço, mastigou e tentou sorrir sem parecer emocionado. Gabriel baixou os olhos para o próprio copo.
Rafael não sabia quantas vezes Lara havia feito aquilo sozinha. Pela primeira vez, sentiu o peso dos anos em tarefas que jamais tivera de aprender.
"Seu irmão gosta da mesma comida?"
"Ele fala que não quer sobremesa. Depois come a minha."
"Eu ouvi."
Lara estava na entrada com Theo pela mão.
Leo engoliu depressa.
"Oi, mamãe."
Ela olhou para Gabriel, que apontou discretamente a cadeira vazia. Estava tudo bem. O filho estava ali, alimentado, inteiro.
Ainda assim, Lara precisou contar até três.
"Depois nós vamos conversar. De novo."
"Eu pedi desculpa."
"Que bom. Agora vai ouvir por que isso não pode acontecer uma terceira vez."
Rafael se levantou para recebê-la. Theo examinou o prato do irmão, o homem e a mãe, nessa ordem.
Lucas surgiu antes que Lara se sentasse e entregou ao chefe um telefone com uma mensagem. A conferência preliminar havia encontrado inconsistências relevantes nos documentos do terreno.
Rafael leu e voltou os olhos para Leo.
"Você tinha razão em pedir que eu olhasse."
O menino abriu um sorriso enorme.
Lara franziu a testa.
"O que ele fez?"
"Chamou minha atenção para um problema."
"Ele costuma fazer isso. Geralmente o problema é ele."
Leo soltou uma risadinha.
Rafael afastou uma cadeira para ela.
De perto, Lara percebeu de novo a semelhança. O formato da boca. A linha da sobrancelha. A maneira como Theo observava o homem, sem baixar os olhos.
Rafael esperou até que os meninos se distraíssem com a chegada de outro prato.
"Precisamos conversar", disse baixo.
"Sobre meu filho invadir sua empresa? Eu sei."
"Sobre os dois."
Ela parou com a mão no encosto da cadeira.
Rafael sustentou o olhar.
"E sobre o Hotel Aurora. Cinco anos atrás."
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