"Gêmeos à Vista: O Papai CEO Não Me Deixa em Paz" Capítulo 1
Dois meninos e um homem que ela não conhecia
O quarto 407 não era o quarto de Bruno.
Lara percebeu isso quando o homem junto à cama sorriu e trancou a porta. Tinha idade para ser seu pai, uma aliança no dedo e a segurança desagradável de quem já havia pago pelo que esperava receber.
"Seu noivo disse que você seria mais simpática."
Ela apertou o celular. Na tela, a última mensagem continuava ali: Estou te esperando. Vem bonita.
Tinha passado uma hora escolhendo aquele vestido.
"Abra a porta."
O homem riu. Quando tentou segurá-la, Lara alcançou o cinzeiro sobre a mesa. O golpe abriu uma passagem; ela não esperou para descobrir quanto tempo teria.
Correu para o corredor com a cabeça girando. O cheiro adocicado do quarto parecia preso à garganta. Os números das portas se embaralhavam. Encontrou uma entreaberta, empurrou e entrou.
417.
Uma voz masculina perguntou alguma coisa. Lara só conseguiu pedir que não a mandasse de volta. Depois, a lembrança daquela noite se partiu em fragmentos que ela nunca soube organizar direito.
Quando amanheceu, estava sozinha.
Vestiu-se com mãos trêmulas e saiu antes que alguém pudesse perguntar seu nome.
Na casa do pai, os empregados ainda não haviam chegado. Lara subiu a escada segurando os sapatos. A porta do quarto de Priscila estava entreaberta, e o riso da irmã a fez parar.
"Bruno disse que foi fácil. Ela acreditou na mensagem na hora."
Lara ficou imóvel.
"Você precisava ter visto a foto entrando no hotel", continuou Priscila. "Depois disso, ele rompe o noivado. Papai não vai querer uma vergonha dessas dentro de casa."
Márcia respondeu em voz baixa, mas Lara ouviu cada palavra.
"Sua mãe esperou muitos anos por isso. Até o jeito de olhar dessa menina me lembra Beatriz."
Beatriz. Sua mãe, morta quando ela tinha seis anos.
Durante vinte e dois anos, Lara havia aprendido a não incomodar. A agradecer o que recebia, a chamar de cuidado a vigilância da madrasta, a acreditar que o noivo a amava mesmo quando ele preferia conversar com sua irmã.
Do outro lado da porta, Priscila falava em casamento. O dela. Com Bruno.
Lara encostou a mão na parede para não cair.
Não entrou. Se começasse a gritar, acabaria cercada por pessoas que já tinham combinado qual seria a verdade.
Foi ao próprio quarto, pegou os documentos, uma pequena reserva e a fotografia da mãe. Fechou a mala sem dobrar direito as roupas.
À tarde, enquanto esperava uma conexão para Paris, viu uma publicação no celular: o empresário Sérgio Azevedo lamentava o comportamento da filha. Bruno Farias anunciava o fim do noivado.
Ela desligou o aparelho.
No outro lado de São Paulo, Rafael Valença recebeu um nome, uma fotografia e a informação de que a mulher do quarto 417 havia desaparecido.
Durante cinco anos, aquele nome continuou na sua memória.
Lara, porém, teve outras coisas para lembrar.
O preço do aluguel. As horas de trabalho. O primeiro exame em que apareceram dois corações.
O medo de não conseguir.
E, depois, dois meninos que seguraram seus dedos e tornaram impossível imaginar a vida sem eles.
Cinco anos mais tarde, no aeroporto de Guarulhos, Lara procurava esses mesmos meninos entre malas, placas e pessoas apressadas.
"Theo!"
O filho surgiu junto a uma coluna, com a mochila nos dois ombros. Tinha o cabelo arrumado e a expressão séria de quem pretendia explicar um problema por etapas.
Ela se ajoelhou e segurou o rosto dele.
"Você está bem? Onde está seu irmão?"
"Ele estava aqui."
O coração dela desceu até o estômago.
"Como assim estava?"
"Disse que ia olhar uma coisa. Eu falei para esperar."
Theo apertava a alça da mochila. Podia ser o mais ponderado dos dois, mas ainda era um menino de quatro anos, e seus olhos estavam começando a brilhar.
Lara o abraçou depressa.
"Você vai ficar segurando minha mão. Agora."
A ideia de voltar ao Brasil havia sido dela. A decisão de antecipar a viagem, não.
Os dois tinham convencido a amiga que cuidava deles em Paris de que as reservas já estavam autorizadas. Gabriel organizara a recepção no Brasil, acreditando que Lara chegaria no mesmo voo. Quando ela descobriu a manobra, estava no meio de uma entrega de vestidos.
Trocou a passagem e passou o voo inteiro imaginando maneiras de conversar com os filhos sem alternar entre chorar e gritar.
Agora só queria encontrar Leo.
"Ali", disse Theo.
Na cafeteria, um homem de terno escuro estava sentado numa poltrona com uma criança agarrada à perna.
"Papai."
Rafael olhou para baixo.
"Você está me confundindo com alguém."
"Não estou. Eu olhei bem."
O menino levantou o rosto. Tinha olhos claros, cílios absurdamente compridos e uma convicção que não combinava com o tamanho.
Rafael havia desembarcado pensando numa reunião. Dez minutos antes, a criança se prendia à sua calça e recusava todas as sugestões de procurar um funcionário.
Agora a reunião estava atrasada, e ele ainda não conseguira tirar o menino dali.
"Onde está sua mãe?"
"Vindo."
"E seu pai?"
Leo inclinou a cabeça, como se a pergunta fosse desnecessária.
"Estou resolvendo isso."
A atendente virou o rosto para esconder um sorriso. Rafael percebeu e lançou um olhar que a fez voltar ao trabalho.
O menino, ao contrário, achou graça.
"Você faz essa cara sempre?"
"Que cara?"
Leo franziu a testa, apertou os lábios e imitou com uma perfeição desconfortável a expressão que Rafael usava em reuniões ruins.
Por um instante, ele viu uma fotografia da própria infância.
"Qual é seu nome?"
"Leo. Mas mamãe me chama de Lua."
"Lua?"
"Meu irmão é Sol. Quando ela está brava, a gente vira Leonardo e Theo."
"Leonardo?"
"Não é meu nome de verdade. Ela inventa mais nome quando precisa brigar."
Rafael soltou um som que quase foi uma risada.
Leo percebeu. Seus braços afrouxaram só o suficiente para ele se acomodar melhor junto à poltrona.
"Posso sentar? Minha perna é pequena."
O homem olhou ao redor, ainda procurando a família, e o ergueu até o assento ao lado. O menino imediatamente encostou o ombro no braço dele.
Era uma confiança sem cerimônia. Rafael não sabia o que fazer com aquilo.
"Lua!"
Outra criança apareceu à sua frente.
O mesmo rosto. A mesma boca. A mesma pequena pinta junto à sobrancelha.
Mas aquela expressão ele conhecia ainda melhor.
Theo pegou a mão do irmão.
"Eu disse para não sair."
"Eu achei ele."
"Mamãe ficou assustada."
A alegria de Leo diminuiu. Desceu da poltrona e deixou o irmão puxá-lo.
Rafael se levantou antes de pensar.
"Esperem."
Theo colocou o corpo entre ele e o irmão.
"Por quê?"
Rafael não chegou a responder. Uma mulher apareceu, tirou os óculos de sol e passou um braço em volta de cada menino.
"O senhor precisa de alguma coisa com meus filhos?"
Ele a reconheceu antes que ela terminasse.
O cabelo estava mais comprido. A postura, diferente. Já não era a jovem assustada da fotografia que Lucas lhe entregara anos antes.
Mas era ela.
"Lara Azevedo."
A mão dela se fechou sobre o ombro de Theo.
"Nós nos conhecemos?"
Rafael olhou para os meninos. A pergunta que crescia dentro dele era grande demais para uma cafeteria de aeroporto.
"Sou Rafael Valença. Seu filho estava sozinho. Achei melhor esperar até encontrar a família."
Ela examinou o rosto de Leo, depois o dele.
"Obrigada. Ele costuma conversar antes de pensar."
"Eu pensei", protestou Leo.
"Em casa nós vamos conversar sobre tudo o que você pensou."
O menino encostou no irmão.
Lucas chegou nesse momento, puxando uma mala. Parou ao reconhecer Lara, e Rafael o interrompeu com um movimento discreto da mão.
Ela percebeu a troca de olhares.
"De onde conhece meu nome?"
"De São Paulo. Faz tempo."
Não era uma resposta. Antes que ela pudesse insistir, o celular tocou. Gabriel esperava do lado de fora, preocupado com a demora.
Lara confirmou que estavam bem e guardou o aparelho.
"Obrigada por cuidar dele."
"Lara."
O jeito como ele disse seu nome a fez levantar os olhos de novo.
Rafael tinha uma pergunta na ponta da língua. Ela, porém, segurava dois meninos e uma mala, com o rosto exausto de quem não dormira.
"Tenham uma boa chegada."
Leo acenou.
"Tchau, papai."
"Leo!"
O menino se encolheu, mas continuou sorrindo até desaparecer na multidão.
Do lado de fora, Gabriel abraçou Lara. Ela deixou a testa descansar brevemente no ombro do amigo.
"Eu vou trancar os dois numa mala", murmurou.
"Você sentiu saudade demais para isso."
"Infelizmente."
Os meninos já estavam abraçados às pernas dela.
No carro, Lara sentou entre as duas cadeirinhas e beijou cada cabeça. A bronca teria de esperar até que seu coração voltasse a bater normalmente.
"Vocês nunca mais fazem isso. Não importa quanto queiram alguma coisa. Eu preciso saber onde estão."
Theo assentiu.
Leo segurou a mão dela.
"A gente queria voltar."
"Vocês nem conhecem o Brasil."
"Mas aqui tem..."
Theo olhou para o irmão.
Leo corrigiu depressa:
"Pão de queijo."
Lara fechou os olhos, cansada demais para discutir com aquela resposta.
Quando os abriu, viu os dois rostos refletidos no vidro. Lembrou do homem na cafeteria. Da surpresa dele. Do próprio nome dito com tanta certeza.
Atrás deles, no estacionamento, Rafael ainda olhava para a saída.
"Senhor?", chamou Lucas.
"Cinco anos."
O assistente esperou.
"Eu procurei essa mulher por cinco anos."
Rafael passou a mão pelo rosto e voltou a olhar na direção em que Lara havia partido.
"E ela voltou com dois meninos que se parecem comigo."
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