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"Meu Pai Me Vendeu por R$ 50 ao Chefe Surdo da Máfia." Capítulo 5

正文开头

O homem que eu sustentava

Peguei a fotografia e aproximei do rosto.

Havia um relógio no pulso dele. Meu pai sempre reclamava que não usava relógio porque não podia comprar nem uma pilha. Na imagem, um homem segurava a porta do carro para que ele entrasse.

Mostrei a Vicente.

"De onde veio isso?"

Ele abriu uma conversa arquivada no computador. As fotografias tinham sido enviadas por um antigo funcionário da área financeira do grupo Moretti, acompanhado por um advogado.

"Esse homem começou a entregar documentos depois que procurou proteção", escreveu. "Foi assim que descobri o nome por trás das ordens."

Olhei novamente para a pasta. Nas folhas seguintes, o nome Daniel Azevedo aparecia ligado a empresas que eu nunca tinha ouvido mencionar.

Não entendia os termos. Entendia os números.

"Isso é dinheiro dele?"

Vicente assentiu, depois corrigiu a resposta por escrito.

"É dinheiro que ele controla. Parte passou pelas empresas da minha família."

Havia valores que eu não conseguia imaginar reunidos num mesmo lugar. Tentei compará-los ao aluguel, às parcelas da geladeira, ao preço do tratamento dentário que eu adiava havia dois anos.

Desisti.

"Eu trabalhei doente para comprar comida."

Não percebi que tinha dito em voz alta até Vicente tocar meu joelho e apontar para meu telefone.

Digitei a frase. Acrescentei que meu pai ficava na cama, dizendo que não conseguia levantar. Que às vezes eu levava café até ele antes de sair para o primeiro ônibus.

Vicente leu tudo. Não respondeu com uma desculpa pelo homem que tinha me criado.

Puxou a cadeira para perto e esperou.

"Ele precisava do meu dinheiro?"

A resposta veio curta.

"Não."

Minha garganta se fechou. Eu ainda procurava alguma emergência antiga, uma dívida escondida, um motivo que explicasse pelo menos uma das noites em que não jantei.

"Então por quê?"

Vicente levou um tempo para escrever.

"Não posso dizer o que ele pensava. Os documentos mostram que podia sustentar vocês. O resto você conhece melhor do que eu."

Fiquei olhando a tela até as letras perderem o contorno.

Conhecia, sim.

Se eu chegava cansada, ele precisava de ajuda. Se reclamava, era ingrata. Se tentava guardar dinheiro, acontecia algum problema em casa. Sempre havia uma urgência maior do que o curso que eu queria fazer, a consulta que precisava marcar ou a possibilidade de alugar um quarto só para mim.

Eu tinha chamado aquilo de azar durante anos.

Vicente me ofereceu um copo de água. Bebi sem perceber o gosto.

O computador mostrou outra mensagem de Helena. A equipe estava a caminho. Ela orientava que permanecêssemos abrigados e mantivéssemos contato.

Olhei o relógio na parede. Tinham se passado poucos minutos desde a fuga, mas eu sentia como se já estivesse há horas naquela sala.

"E você?", escrevi. "O que fez parte disso?"

Vicente ficou imóvel.

Não desviei os olhos. Precisava perguntar antes de permitir que ele me mostrasse mais fotografias.

"Eu sei o que falam de você. Você vai dizer que tudo era mentira?"

正文1

Ele aproximou o telefone e começou a digitar. Dessa vez, não apagou nenhuma frase.

"Não. Assumi negócios que sabia que eram ilegais. Dei ordens das quais vou ter que responder. Não vou colocar tudo na conta do seu pai."

O alívio que eu queria sentir não veio. Em seu lugar, surgiu alguma coisa mais difícil: a possibilidade de estar diante de uma resposta verdadeira.

"E as mortes?"

Vicente olhou para a pasta antes de voltar a escrever.

"Há crimes atribuídos a mim que ele mandou cometer usando meu nome. Estamos reunindo provas disso. Também há decisões minhas que não desaparecem porque ele fez coisa pior."

Deixei o telefone no colo.

Ele não tentou pegar minha mão.

Durante onze dias, eu tinha aprendido pequenas coisas sobre aquele homem. O jeito de esperar minha leitura. O café sem açúcar. A calma ao corrigir meus sinais. Agora havia uma parte da vida dele que não cabia no lugar onde eu começava a guardá-lo.

Eu não precisava decidir tudo naquela sala.

Mas precisava saber se ele me deixaria perguntar.

"Não mente para me fazer ficar."

Vicente leu. Assentiu uma vez.

Voltei à pasta.

Uma anotação aparecia repetida nas cópias de mensagens: o Contador. Ao lado, alguém tinha acrescentado o nome do meu pai.

Vicente explicou por escrito que aquela era a identificação usada dentro da rede. Pessoas que recebiam pagamentos ou ordens nem sempre sabiam quem ele era. Lídia fazia parte do grupo que sabia.

"Ela escolhia quem entrava aqui?"

"Organizava a equipe doméstica e parte dos prestadores. Eu descobri que também recebia relatórios sobre meus deslocamentos. Não sabia que esses três homens estavam com ela."

Lembrei da fronha arrancada das mãos da funcionária. Da pressa em dizer que os médicos dele cuidavam de tudo.

"Você deixou que ela continuasse perto de você."

"Se eu afastasse todo mundo de uma vez, saberiam que eu tinha descoberto. Estávamos preparando uma retirada segura."

"Estávamos quem?"

Ele apontou a conversa com Helena, depois a pasta.

"Pessoas que podem testemunhar. Pessoas que ainda estavam ao alcance dele."

Eu também estava.

Peguei a caixa de metal. Não abri. O tamanho pequeno me causava mais repulsa agora que entendia para que servia.

Vicente mostrou um documento médico antigo. A perda auditiva tinha começado na infância, depois de um acidente. Anos mais tarde, uma intervenção no ouvido direito fora apresentada como tentativa de tratar uma complicação.

"O aparelho foi colocado depois", escreveu. "Eu acreditava que havia material médico ali. Comecei a desconfiar quando as crises pioraram e conversas privadas chegavam aos meus inimigos."

Não fez parecer que a peça tinha causado toda a surdez. Não prometeu que agora ouviria minha voz.

Ainda assim, minha mão encontrou a dele.

"Quando sairmos daqui, você vai para um hospital. Um que ela não escolha."

Vicente olhou para nossos dedos.

"Sim."

Uma fotografia deslizou da pasta quando a puxei de volta.

Rafael aparecia diante de um restaurante, apertando a mão de um homem de cabeça raspada. Na foto seguinte, carregava uma maleta até o mesmo carro em que meu pai tinha entrado.

Não perguntei se ele sabia.

Reconheci o tênis novo que Rafael jurara ter ganhado de um amigo. Reconheci o casaco pelo qual discutira comigo porque eu não podia pagar a conta atrasada depois de comprá-lo.

Na cópia de uma mensagem, meu irmão perguntava se o dinheiro devia ser entregue no escritório ou na casa da serra.

A resposta vinha do contato identificado como Daniel.

"No escritório. Sua irmã chega às oito."

Passei o dedo sobre aquela linha.

Os dois calculavam seus compromissos pelo horário em que eu voltava para servi-los.

Vicente colocou a mão perto da minha. Esperei um instante antes de segurá-la.

Então vi, debaixo das fotografias, uma pasta menor com uma etiqueta diferente.

Elisa Azevedo.

O nome da minha mãe.

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