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"Meu Pai Me Vendeu por R$ 50 ao Chefe Surdo da Máfia." Capítulo 4

正文开头

Atrás da parede

Vicente não tirou os olhos da pistola.

Eu ainda segurava a tigela quando ele levou a mão para trás, encontrou meu pulso e o puxou para baixo. Entendi o suficiente para me abaixar junto com ele.

A mesa tombou antes que Lídia terminasse de dar outra ordem.

O tiro atingiu a parede. A porcelana escapou dos meus dedos, mas caiu sobre a toalha arrastada, sem quebrar. Vicente me empurrou para trás da mesa e arrancou a pequena caixa de metal do estojo de curativos.

Pôs o aparelho dentro e fechou a tampa.

Lídia gritou para os homens nos cercarem.

Vicente já estava puxando minha mão. Corremos abaixados até a lareira, a poucos passos. Ele pressionou uma peça da moldura, e parte do revestimento se abriu para dentro.

Entrei primeiro. Ele veio logo atrás e fechou a passagem com o ombro.

Uma pancada sacudiu a porta às nossas costas.

Continuei andando porque a mão dele continuava segurando a minha.

O corredor era estreito, iluminado por pequenas lâmpadas próximas ao chão. Quando chegamos a uma curva, Vicente parou e encostou a testa na parede.

O sangue tinha alcançado a gola da camisa.

Eu queria perguntar se ele estava bem, mas a resposta estava ali, no modo como seus joelhos cederam por um instante.

Passei o braço dele pelos meus ombros. Não conseguiria carregá-lo. Poderia, pelo menos, ajudá-lo a não cair.

Ele olhou para mim e apontou para os degraus adiante.

Descemos devagar. Atrás de nós, as pancadas continuavam. Eu ouvia metal raspando em metal; Vicente só percebia minha urgência quando eu apertava seus dedos.

No fim da escada, havia uma porta pesada com teclado. Ele digitou uma sequência, esperou minha entrada e trancou por dentro.

A sala tinha uma mesa, monitores apagados, armários e um sofá estreito. Nenhuma janela.

Soltei sua mão apenas para procurar alguma coisa com que conter o sangue. Encontrei toalhas embaladas numa prateleira e mostrei uma a ele.

Vicente sentou no sofá. Deixou que eu limpasse a pele do pescoço, mantendo a toalha longe da entrada do ouvido.

Minhas mãos tremiam. Quando tentei abrir outra embalagem, não consegui encontrar a ponta do plástico.

Ele a pegou de mim, abriu e devolveu.

Aquele gesto me fez parar.

Estávamos escondidos num porão, havia gente armada nos procurando, e ele ainda estava tentando facilitar alguma coisa para mim.

Toquei seu braço para que olhasse meu telefone.

"Ela atirou em você."

Ele assentiu.

"Meu pai vem para cá. Preciso avisar que não entre."

Vicente segurou meu aparelho antes que eu abrisse os contatos. Não tentou arrancá-lo. Só manteve a mão sobre a tela e negou com a cabeça.

Lembrei da frase de Lídia.

Seu sogro já está vindo.

Não parecia um pedido de ajuda. Ela tinha falado como quem anunciava a chegada de alguém que daria ordens.

Meu estômago se contraiu.

"Ela trabalha para ele?"

Mostrei a pergunta.

Vicente fechou os olhos por um segundo. Depois pegou o próprio celular.

正文1

"Sim."

Balancei a cabeça.

"Não. Meu pai não tem dinheiro nem para pagar a conta de luz."

Ele leu a frase e demorou a responder. Atrás da porta, não havia mais barulho. Eu não sabia se tinham desistido ou se procuravam outro caminho.

"Seu pai pagava Lídia antes de você chegar. Há muitos anos."

Afastei o telefone como se a distância pudesse mudar as palavras.

"Você está dizendo que ele mandou colocar aquilo no seu ouvido?"

Vicente assentiu.

Senti uma tontura tão forte que precisei me apoiar na mesa.

Ele se levantou imediatamente. Fiz um gesto para que ficasse sentado, mas Vicente veio até mim e puxou uma cadeira.

Sentei porque meu corpo já não obedecia direito.

Ele agachou diante de mim. Ainda segurava a toalha perto do pescoço. Deixou o celular sobre meu joelho, com uma nova mensagem.

"Não estou pedindo que acredite sem ver. Vou mostrar o que tenho."

Olhei seu rosto, tentando encontrar o homem que tinha me ensinado a pedir café, que esperava minhas tentativas desajeitadas de comunicação. Ele não tinha desaparecido. Estava ferido diante de mim, com uma preocupação que eu conseguia reconhecer.

Mas também sabia coisas sobre a minha vida que eu não sabia.

"O que era aquele aparelho?"

Vicente colocou a caixa de metal sobre a mesa, mantendo-a fechada.

"Gravava o que diziam perto de mim. Transmitia para eles. Descobri há três meses."

"Há três meses?"

Ele percebeu a pergunta que vinha antes que eu terminasse de escrever.

"Eu não podia procurar qualquer médico. O primeiro que consultei contou à Lídia."

Puxou a manga da camisa e mostrou uma mensagem antiga. Não havia nome no contato, apenas um número.

A fotografia abaixo mostrava a entrada do prédio onde eu morava. Eu aparecia carregando duas sacolas, com a mochila de trabalho nas costas.

Reconheci a blusa. Tinha usado numa terça-feira, depois de uma faxina na Vila Mariana.

A mensagem dizia:

"Outra consulta fora do combinado e ela não chega em casa."

Reli a frase sem conseguir respirar direito.

"Por que eu?"

Vicente baixou o rosto. Digitou com mais firmeza do que no andar de cima.

"Você era a ameaça que ele usava para impedir que certas pessoas falassem. Quando descobri quem você era, começou a usar você contra mim também."

Certas pessoas.

Quis perguntar quem. A mão dele voltou à orelha, e a dor atravessou sua expressão antes que conseguisse escondê-la.

Levantei para pegar outra toalha.

"Você vai desmaiar antes de me explicar se continuar em pé."

Mostrei a tela e apontei o sofá.

Ele obedeceu. Dessa vez, não tentou sorrir.

Sentei ao lado dele, perto o suficiente para que conseguíssemos olhar o mesmo telefone. Vicente abriu uma conexão no computador da mesa e enviou uma mensagem curta. Quando me virei, mostrou o texto.

"Emergência. Estamos no abrigo. Casa comprometida. Precisamos de atendimento médico e retirada."

O destinatário era uma mulher identificada como procuradora Helena Duarte.

"Ela sabe onde estamos?"

"Conhece a propriedade. Não conhece esta entrada. A equipe precisa chegar sem avisar os homens lá de cima."

Uma resposta apareceu pedindo nossa localização dentro da casa e a quantidade de pessoas armadas que tínhamos visto.

Vicente respondeu. Só então minha respiração começou a ficar menos curta.

Não estávamos inteiramente sozinhos.

Ele abriu uma pasta guardada no armário. Na primeira página, havia o nome completo do meu pai.

Daniel Azevedo.

Uma fotografia mostrava um homem de terno, saindo de um prédio comercial. Reconheci a pequena cicatriz no queixo, o mesmo cabelo ralo, a mão que tinha dobrado a nota de cinquenta reais.

Olhei a data, impressa no canto.

Naquela tarde, meu pai tinha me ligado pedindo dinheiro para comprar remédio.

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