"Meu Pai Me Vendeu por R$ 50 ao Chefe Surdo da Máfia." Capítulo 3
O que ele não podia ouvir
Esperei Vicente sair do escritório e me coloquei diante dele no corredor.
Ele parou ao ver minha expressão. Mostrei o telefone, onde tinha escrito a pergunta três vezes antes de conseguir deixá-la simples.
"Por que tinha sangue no seu travesseiro?"
Vicente leu. Olhou para a porta do escritório, ainda aberta, e entrou novamente. Fez um gesto para que eu o acompanhasse.
Fiquei perto da mesa enquanto ele fechava a porta.
"Um problema no ouvido direito. Já aconteceu antes."
"Você precisa ir ao médico."
"Estou cuidando disso."
Olhei para o rosto dele. Havia uma sombra sob seus olhos que eu não tinha percebido no primeiro dia.
"Então não está funcionando."
Ele soltou o ar pelo nariz, quase um sorriso. Não parecia acostumado a ser contrariado daquele jeito.
"Você sempre discute assim?"
"Só quando me respondem como se eu fosse criança."
Assim que mostrei a frase, quis apagá-la.
Vicente ficou sério. Puxou a cadeira diante da mesa, mas não se sentou enquanto eu continuava em pé.
"Tem razão", escreveu. "Não posso explicar tudo agora. Mas não vou fingir que você não viu."
Era pouco. Ainda assim, era mais do que eu costumava receber quando fazia uma pergunta inconveniente.
"Está doendo neste momento?"
Ele hesitou antes de assentir.
"Quer que eu fique?"
Dessa vez, demorou olhando para mim, não para a tela.
Assentiu outra vez.
Sentei na cadeira, tirei o livro que tinha encontrado na biblioteca de dentro da bolsa e tentei ler. Vicente voltou ao computador. Às vezes, erguia os olhos para conferir se eu continuava ali.
Fiquei até a dor nas costas me fazer mudar de posição. Ele notou, levantou e colocou uma almofada atrás de mim.
"Agora você está atrapalhando minha concentração", digitei.
Vicente olhou o livro aberto na mesma página havia quase meia hora.
Não escreveu nada. Só ergueu uma sobrancelha.
Comecei a rir antes de conseguir me defender.
No sétimo dia, percebi que esperava por ele no café. No oitavo, consegui perguntar se tinha dormido bem usando apenas os sinais que conhecia.
A resposta veio rápida demais. Pedi que repetisse. Ele diminuiu o ritmo, e ainda assim precisei do telefone para compreender o restante.
"Melhor quando você não me obriga a descansar no escritório."
"Hoje pode reclamar. Ontem você quase dormiu em cima do teclado."
Ele inclinou a cabeça, aceitando a derrota, e pegou um pão da cesta.
Naquela tarde, choveu forte. Eu estava na biblioteca quando as luzes piscaram, e Vicente apareceu alguns minutos depois com uma lanterna.
Apontou para o interruptor, depois mostrou o celular.
"Se faltar energia, fique aqui. Eu venho buscar você."
Meu pai nunca vinha buscar ninguém. Quando a luz acabava em casa, gritava do sofá para eu descobrir onde tinha deixado as velas.
Não disse isso a Vicente. Perguntei se ele queria sentar.
Ele ficou na outra ponta do sofá. Peguei uma manta e a estendi sobre minhas pernas. Depois de algum tempo, ofereci metade.
Vicente olhou para o espaço entre nós.
Puxei a manta mais para o lado dele.
Ele se aproximou o suficiente para nossos joelhos se tocarem sob o tecido. Voltei ao livro, mas perdi a linha três vezes.
Quando estendeu a mão para uma revista, vi seus dedos tremerem.
Segurei a revista antes que caísse. Ele apertou os lábios e levou a outra mão à orelha.
Coloquei o livro de lado.
Vicente tentou alcançar o telefone, mas toquei seu antebraço, dentro do seu campo de visão. Fiz a pergunta que já conseguia formular em Libras: se estava tudo bem.
Ele começou a assentir. Parou quando viu meu rosto.
Digitou:
"Preciso de um minuto."
Fiquei com ele. A chuva batia nos vidros, e uma gota escorreu pela janela diante de nós. Quando sua mão finalmente parou de tremer, Vicente encontrou a minha sobre a manta.
Não apertou. Deixou os dedos perto dos meus.
Fui eu quem diminuiu a distância.
Na véspera da nossa décima primeira noite, ele me encontrou no jardim com o telefone encostado ao ouvido.
Rafael tinha ligado pedindo dinheiro.
"Você está nadando nisso agora", disse. "Não custa ajudar."
"Não vou pedir dinheiro para ele."
"Então pede uma joia. Vende. Você sempre foi boa em dar um jeito."
Olhei para Vicente, parado alguns passos à frente. Ele não podia ouvir meu irmão, mas via meu rosto.
"Não me liga para isso de novo."
Desliguei.
Vicente esperou que eu me aproximasse. Mostrei a ele a mensagem que Rafael mandou logo depois, me chamando de ingrata.
O maxilar dele endureceu. Por um instante, reconheci o homem das fotografias que faziam as pessoas baixarem a voz.
"Não precisa fazer nada", escrevi depressa.
Ele olhou para mim.
"O que você quer que eu faça?"
Fiquei segurando o telefone. A pergunta era tão simples que me deixou sem resposta.
"Fica comigo um pouco."
Vicente guardou o aparelho e me ofereceu a mão.
Caminhamos até o banco perto das árvores. Quando sentei, ele ficou ao meu lado. O vento levantava meu cabelo, e precisei prendê-lo atrás da orelha para continuar olhando para ele.
Pegou o celular outra vez.
"Se quiser ir embora, eu ajudo. Não precisa voltar para a casa deles."
Senti os olhos arderem.
"Você está me mandando embora?"
Ele negou imediatamente.
"Quero que saiba que pode."
Olhei para as nossas mãos ainda unidas sobre o banco.
"Hoje eu quero ficar."
Vicente leu a frase. Passou o polegar devagar sobre meus dedos, e eu me aproximei até meu ombro encostar no braço dele.
Não precisei inventar outra pergunta para permanecer ali.
Na noite seguinte, desci para jantar com o cabelo solto e um vestido azul que tinha trazido na mala. Vicente se levantou quando entrei. Seus olhos demoraram no meu rosto antes de ele afastar a cadeira ao lado da sua.
Dona Lídia serviu a comida. Perguntou duas vezes se eu precisava de alguma coisa, e nas duas respondi que não.
Quando ela saiu, toquei de leve a mão de Vicente para chamar sua atenção.
"Aprendi uma coisa nova", escrevi.
Ele apoiou os talheres e esperou.
Fiz o sinal que tinha praticado no vídeo. Queria perguntar se ele confiava em mim. Vicente franziu a testa, então peguei o telefone para explicar antes que o mal-entendido piorasse.
Ao ler, ele sorriu. Repetiu o sinal corretamente, devagar, e esperou minha segunda tentativa.
Dessa vez, assentiu.
Meu rosto esquentou. Eu ia contar que tinha ensaiado diante do espelho quando o copo escorregou dos dedos dele.
O vidro estourou no chão.
Vicente se curvou, segurando o lado direito da cabeça. A cadeira bateu atrás dele. Corri para perto, mas parei de chamá-lo ao perceber que estava falando para suas costas.
Me ajoelhei à sua frente.
Havia sangue escorrendo junto à orelha.
Peguei um guardanapo e pressionei com cuidado a pele abaixo do ferimento. Ele segurou meu braço para se equilibrar. Seus dedos tremiam mais do que na biblioteca.
Olhei para a porta.
"Dona Lídia!"
Vicente viu minha boca. Agarrou minha mão e negou com a cabeça, com tanta força que parei.
Ele apontou para o celular. Entreguei o aparelho, mas seus dedos erraram a tela. O telefone caiu na toalha.
Acendi a lanterna do meu e aproximei a luz apenas o suficiente para olhar.
No sangue, junto à entrada do ouvido, havia uma ponta preta. Não parecia pele nem gaze. Quando ele se moveu, alguma coisa fina raspou na superfície, como uma pequena peça solta.
Vicente acompanhou meu olhar. Sua mão se fechou sobre meu pulso.
Pegou o próprio telefone com dificuldade e conseguiu escrever uma palavra.
"Perigo."
O corredor continuava vazio. No aparador, vi o pequeno estojo de curativos que Lídia tinha deixado quando cortei o dedo na manhã anterior.
Arrastei-o para perto. A ponta preta já estava quase para fora, presa entre sangue e uma tira estreita de material transparente.
Mostrei a pinça a Vicente. Ele olhou para a porta, depois para mim.
Fiz, devagar, o sinal que acabara de aprender. Pedi que confiasse em mim.
Ele soltou meu pulso.
Peguei somente a extremidade exposta. Vicente apertou a borda da mesa, e a pequena peça cedeu, caindo na tigela vazia ao lado do prato.
O objeto se curvou contra a porcelana.
Fios finíssimos se retraíram entre segmentos escuros. Uma luz vermelha piscou.
O alarme disparou no corredor.
Vicente ergueu a cabeça quando viu meu susto. A porta da sala se abriu antes que eu conseguisse lhe mostrar o que estava acontecendo.
Dona Lídia entrou com três seguranças.
"Afaste-se da mesa, dona Clara."
A voz dela tinha perdido toda a doçura.
Peguei a tigela e me levantei. Vicente se colocou diante de mim, ainda com sangue no pescoço.
"Chame um médico", pedi. "Ele está sangrando."
"Entregue isso."
Um dos homens fechou a porta. Outro tirou a arma do coldre.
Vicente recuou meio passo, encostando o braço em mim. Eu sentia a respiração dele mudar.
"O que é isso?", perguntei.
Lídia enfiou a mão sob o casaco e apontou uma pistola para o peito do meu marido.
"Saia da frente, senhor Moretti. Seu sogro já está vindo."