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"Meu Pai Me Vendeu por R$ 50 ao Chefe Surdo da Máfia." Capítulo 2

正文开头

O lugar à mesa

Comi devagar, esperando a náusea passar. Só depois percebi a fome que estava sentindo.

O prato tinha arroz, feijão e frango assado. Nada que eu não conhecesse. Talvez por isso a primeira garfada quase me fizesse chorar. Eu tinha passado o dia inteiro imaginando o que aquele homem exigiria de mim, e a primeira coisa que chegara ao meu quarto era uma refeição.

Depois do banho, dobrei o vestido e procurei um lugar onde guardar meus sapatos gastos. O armário estava vazio. Não havia roupas escolhidas por outra pessoa, nem uma gaveta que eu não pudesse abrir.

Dormi com a chave debaixo do travesseiro.

Na manhã seguinte, acordei antes das seis. Fiquei esperando o barulho da televisão de Rafael e o pedido de café do meu pai. O silêncio durou tanto que levantei.

Encontrei a sala de jantar vazia, com uma xícara usada sobre a mesa. Peguei um pano na cozinha e voltei para limpar as marcas de café.

Estava esfregando uma pequena mancha quando senti uma presença atrás de mim.

Vicente parou perto da porta. Sem paletó, com as mangas da camisa dobradas, parecia ainda maior.

Larguei o pano.

"Desculpa. Eu já termino."

Ele não se moveu. Seus olhos foram do meu rosto para o pano. Só então lembrei que estava falando com a cabeça baixa.

Repeti a frase olhando para ele.

Vicente se aproximou, pegou uma cadeira e a afastou da mesa. Indicou que eu me sentasse.

Obedeci depressa demais.

Ele percebeu. Ficou parado por um instante antes de alcançar o celular.

"Você não precisa limpar."

"Eu sei trabalhar. Não vou ficar aqui sem fazer nada."

Ele leu o que digitei no meu próprio aparelho. Depois olhou para minhas mãos. As articulações estavam vermelhas, a pele perto de uma unha tinha rachado.

"Você é minha esposa. Não é minha empregada."

Apertei o telefone.

Não soube responder. Em casa, todo mundo precisava de mim quando faltava dinheiro, comida ou roupa limpa. Nunca tinha pensado no que sobraria se ninguém precisasse do meu trabalho.

Dona Lídia apareceu com uma cafeteira.

"Seu Vicente costuma tomar café às sete. Posso trazer o da senhora no quarto."

Antes que eu respondesse, ele tocou de leve a mesa para chamar minha atenção e digitou:

"Pode ficar. Se quiser."

Olhei a cadeira na outra ponta, tão longe que eu mal conseguiria ler a tela dele. Puxei a que estava ao seu lado.

Vicente acompanhou o movimento sem disfarçar a surpresa.

"Aqui fica mais fácil", expliquei, mostrando meu telefone.

Ele sentou.

Descobri naquela manhã que preferia café sem açúcar e tinha o hábito de tirar a casca do mamão com uma precisão exagerada. Descobriu que eu bebia café doce demais e só comia depois de perguntar se a outra pessoa queria mais alguma coisa.

Na terceira vez, empurrou a cesta de pão para perto de mim.

"Eu alcanço. Coma antes que esfrie."

正文1

Uma risada me escapou. Pequena, involuntária.

Ele ergueu os olhos imediatamente.

"O que foi?", escreveu.

"Nada. Meu pai nunca alcança nada. Nem quando está na frente dele."

O sorriso que começava no rosto de Vicente desapareceu. Arrependi-me de ter falado.

Ele deslizou a manteiga na minha direção e mudou de assunto.

Nos dias seguintes, passei a descer para o café. No começo, levava o celular como quem carrega uma desculpa. Depois, comecei a pensar durante a noite em coisas que queria lhe perguntar.

Na terceira manhã, ele me encontrou olhando um vídeo de Libras.

Escondi a tela por reflexo.

Vicente esperou.

Virei o celular de volta, constrangida.

"Não queria ter que fazer você digitar tudo."

Ele leu e encostou as costas na cadeira. Pela primeira vez, pareceu não saber como responder.

"Posso te ensinar algumas coisas", escreveu por fim.

Começamos com cumprimentos e agradecimentos. Ele fazia o sinal, esperava que eu tentasse e repetia quando eu me atrapalhava. Não descrevia longas sequências; escolhia uma de cada vez, prestando atenção às minhas mãos.

Na quinta tentativa de um cumprimento, fiz alguma coisa errada.

Vicente sorriu.

Fiquei olhando para a boca dele. A cicatriz na sobrancelha e o maxilar duro continuavam ali, mas aquele sorriso mudava o rosto inteiro.

"Foi tão ruim assim?"

Mostrei a pergunta digitada.

"Você está com pressa."

"Tenho um professor exigente."

Ele apoiou o telefone e estendeu a mão, parando antes de tocar na minha. Assenti.

Seus dedos ajustaram os meus com cuidado. Havia uma cicatriz fina no dorso da mão dele. Eu estava tão concentrada no calor da pele que esqueci o movimento seguinte.

Ele levantou os olhos.

Afastei a mão e peguei meu café frio.

À tarde, telefonei para meu pai. Não porque sentisse saudade, mas porque ainda esperava que ele demonstrasse vergonha.

"Está sendo bem tratada?", perguntou.

"Por que você não perguntou isso antes de me mandar embora?"

Houve um ruído do outro lado, como uma porta se fechando.

"Você está nervosa. Depois vai agradecer."

"Eu não vou agradecer."

"O Vicente já te mostrou a casa toda?"

Olhei para o jardim pela janela.

"Que diferença isso faz?"

"Estou tentando conversar com minha filha. Ele trabalha onde? Fica muito tempo sozinho?"

"Pergunta para ele. Vocês não fizeram um acordo?"

Desliguei com a mão tremendo. Pela primeira vez, não telefonei de volta para pedir desculpas.

Encontrei Vicente na varanda perto do anoitecer. Estava sem o celular na mão e observava as árvores. Quando entrei, não percebeu.

Fiquei sem saber como chamá-lo. Toquei seu ombro.

Ele se virou bruscamente e agarrou meu pulso.

Foi rápido. Assim que me reconheceu, abriu a mão e deu um passo para trás.

Eu já tinha encolhido os ombros.

Vicente viu. O rosto dele se fechou de um jeito que eu ainda não conhecia. Tirou o telefone e digitou depressa.

"Desculpe. Você me assustou. Eu não devia ter segurado assim."

Meu pulso não doía. Ainda assim, demorei a responder.

Ele não tentou se aproximar.

"Como eu chamo você?", escrevi.

A pergunta pareceu surpreendê-lo.

Vicente mostrou que eu podia entrar no seu campo de visão e acenar. Se precisasse tocar, um contato leve no braço, vindo pela frente, funcionaria melhor. Depois deixou que eu tentasse.

Quando olhou para mim, perguntei se estava tudo bem com um dos sinais que eu já conhecia.

Ele assentiu e devolveu a pergunta.

Eu queria dizer que não. Que meu pai tinha falado comigo como se nada tivesse acontecido. Que aquela casa me assustava menos a cada dia, e isso também me dava medo.

Escrevi apenas:

"Hoje não queria jantar sozinha."

Vicente leu. Guardou o celular e puxou a cadeira ao lado da dele.

Ficamos ali até dona Lídia vir nos chamar.

Naquela noite, percebi pela primeira vez o gesto que depois aprenderia a temer. Ele pressionou a região atrás da orelha direita, discretamente, enquanto a governanta servia a sopa.

Perguntei se sentia dor.

Vicente esperou Lídia sair antes de escrever:

"Às vezes. É antigo."

Não insisti. Ainda estava aprendendo quais perguntas podia fazer.

Na manhã seguinte, porém, a porta do quarto dele estava aberta quando passei pelo corredor. Uma funcionária recolhia os lençóis, e o travesseiro escorregou do monte de roupa.

Havia sangue seco na fronha.

A funcionária tentou dobrá-la depressa. Dona Lídia apareceu atrás de mim e a tirou de suas mãos.

"A senhora não precisa se preocupar com isso."

Olhei para ela.

"Ele se machucou?"

"O senhor Moretti tem os médicos dele."

Ela levou a roupa embora, mas eu já tinha visto o tamanho da mancha.

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