"Meu Pai Me Vendeu por R$ 50 ao Chefe Surdo da Máfia." Capítulo 1
Cinquenta reais
A coisa preta que tirei do ouvido ensanguentado do meu marido se contorceu no fundo da tigela.
Uma luz vermelha piscou entre as pequenas peças de metal. No corredor, o alarme começou a tocar.
Vicente não ouviu. Viu minha expressão, porém, e segurou meu pulso antes que eu pudesse chamar alguém. Seus olhos foram da tigela para a porta.
Eu estava casada com aquele homem havia onze dias. Até então, acreditava que o pior que minha família poderia me fazer já tinha acontecido.
Onze dias antes, meu pai tinha me vendido por cinquenta reais.
A nota estava ao lado do açucareiro, em cima da mesa onde eu costumava separar o dinheiro do aluguel. Reconheci uma mancha azul perto da onça. Meu pai a alisou com o polegar, como se aquele pedaço de papel merecesse mais cuidado do que eu.
"Você vai se casar amanhã, Clara. Está tudo resolvido."
Eu ainda segurava a sacola do mercado. Eram quase dez da noite, meus braços doíam depois de duas faxinas, e o arroz estava acabando em casa.
"Resolvido por quem?"
"Não começa."
Meu irmão, Rafael, tirou os pés do sofá apenas para alcançar o controle remoto.
"Vicente Moretti", disse ele. "Você devia agradecer."
Deixei a sacola sobre a pia antes que os ovos caíssem.
Conhecia aquele nome. Todo mundo conhecia. Nas notícias, aparecia ao lado de fotografias de carros blindados e galpões interditados. Na rua, as pessoas baixavam a voz para dizer que ele mandava matar quem o contrariasse.
"O Moretti?"
Meu pai assentiu.
"Não."
Rafael soltou uma risada curta.
"Não é uma proposta de emprego, Clara."
Olhei para a nota.
"Ele pagou isso?"
Meu pai puxou a mão de cima do dinheiro.
"Foi o combinado."
"Cinquenta reais?"
Eu ganhava mais que aquilo limpando um banheiro. Tinha passado a tarde ajoelhada no piso de uma cozinha para trazer comida, e meu pai acabava de explicar, sem sequer se levantar, que a minha vida valia menos que uma diária.
"É só uma formalidade", respondeu.
"Então devolve."
Ele dobrou a nota.
"Você não entende a situação."
"Me explica."
Pela primeira vez, sustentou meu olhar. Esperei ouvir sobre uma dívida, uma ameaça, qualquer coisa que tornasse possível reconhecer ali o homem por quem eu ainda me preocupava.
"Tem gente que casa sem nada", disse. "Você vai ter uma vida boa."
Rafael levantou do sofá quando peguei o celular.
"Vai ligar para quem?"
"Isso não é da sua conta."
Ele segurou meu braço. Apertou o lugar que já estava dolorido de carregar baldes.
"Pensa direito antes de criar problema. Tem homem armado esperando lá embaixo."
Olhei para a janela. Um carro escuro estava parado do outro lado da rua, com os faróis apagados. Não consegui distinguir ninguém lá dentro.
Meu pai abriu outra cerveja.
"Amanhã você vai entender que estou fazendo um favor."
Naquela noite, dormi com uma cadeira encostada na porta do quarto. O celular ficou na minha mão até a bateria acabar. Eu tinha colegas de trabalho, uma vizinha que às vezes me emprestava sal, números de clientes que me chamavam quando precisavam de uma diarista. Não sabia a quem dizer que meu pai tinha decidido me entregar a um homem de quem a cidade inteira tinha medo.
Pensei em fugir antes do amanhecer. A janela dava para um vão estreito, três andares acima do chão. No corredor, Rafael arrastou uma cadeira e se acomodou diante da minha porta.
Fiquei ouvindo o vídeo que ele assistia até o céu clarear.
O vestido chegou de manhã numa capa plástica. Era branco, simples, e precisava de um ajuste no busto. Uma costureira veio junto, fez a bainha com alfinetes e perguntou se eu queria prender o cabelo.
"Assim está bom."
Ela olhou meus olhos inchados, depois desviou o rosto.
Às duas da tarde, desci com uma mala pequena. Meu pai não me abraçou. Rafael reclamou porque eu tinha levado o carregador que ele usava.
Entrei no carro esperando que algum deles me chamasse de volta.
O motorista fechou a porta.
A viagem terminou numa propriedade cercada de árvores, nos arredores de São Paulo. Depois dos portões, havia outro controle de entrada. Homens com armas na cintura observavam o carro passar.
Uma mulher de cabelos grisalhos me recebeu nos degraus.
"Sou dona Lídia. Vou cuidar do que a senhora precisar."
Senhora. Aos vinte e três anos, com sapatos emprestados apertando meus dedos, eu não sabia o que fazer com aquela palavra.
Vicente me esperava perto da escada.
Tinha trinta e oito anos, ombros largos e uma pequena cicatriz atravessando a sobrancelha esquerda. O paletó escuro caía perfeitamente sobre seu corpo. Quando se aproximou, precisei levantar o rosto.
Ele estendeu a mão para a mala.
Segurei a alça com mais força.
Vicente parou. Apontou para a mala, depois para si, deixando a pergunta suspensa. Só a pegou quando meus dedos se abriram.
"Boa tarde", falei, quase sem voz.
Ele observou minha boca, mas não respondeu. Tirou o celular do bolso e digitou.
"Você prefere água ou café?"
Eu sabia que era surdo. Saber não me preparou para o silêncio entre nós, nem para a estranha intimidade de receber uma pergunta numa tela que ele mantinha perto do peito.
"Água."
Ele olhou para dona Lídia e fez um gesto. Ela saiu.
A cerimônia aconteceu numa sala clara, diante de poucas pessoas que eu não conhecia. O homem responsável pelos documentos me fez perguntas. Vicente acompanhava a fala dele com atenção e conferia por escrito o que não compreendia.
Quando chegou a minha vez, olhei para a janela. Um segurança estava do lado de fora.
Disse sim com a garganta fechada.
Vicente colocou a aliança no meu dedo. A mão dele era quente. Eu tremia tanto que ele precisou esperar antes de soltar a minha.
Não houve beijo. Houve uma fotografia para os registros, e eu fiquei ao lado dele sem saber onde pôr as mãos.
Depois, subimos juntos. Dona Lídia abriu uma porta no corredor do andar superior e mostrou um quarto maior que o apartamento onde eu morava.
Minha mala parecia ridícula aos pés da cama.
Vicente esperou que a governanta se afastasse antes de me entregar o celular.
"Este quarto é seu. A porta tranca por dentro. Ninguém entra sem você permitir."
Li duas vezes.
"E o senhor?"
Ele não compreendeu. Eu tinha falado olhando para a tela.
Levantei o rosto e repeti, com vergonha da pergunta.
A mandíbula dele se contraiu. Digitou uma resposta, apagou e começou de novo.
"Eu também preciso da sua permissão."
Não consegui olhar para ele.
Vicente deixou a chave na cômoda e colocou o telefone ao lado, ainda com a tela acesa.
"Você está segura aqui."
Ele saiu antes que eu decidisse se acreditava.
Tranquei a porta. Esperei passos voltarem, uma ordem, uma cobrança pelo que meu pai tinha recebido. Durante quase uma hora, fiquei sentada na beirada da cama, ainda de vestido.
Quando bateram, meu corpo inteiro endureceu.
"Dona Clara?", chamou Lídia. "O jantar."
Abri só uma fresta. Havia uma bandeja num carrinho e um bilhete dobrado ao lado do prato.
"Você não comeu na cerimônia. Não precisa descer. — Vicente."
O cheiro de comida quente entrou no quarto.
Peguei o bilhete antes de tocar nos talheres.