"Nos Braços do Homem que Eu Devia Temer." Capítulo 9
A porta vermelha
O corredor do apartamento de Lúcia cheirava a tinta.
Clara percebeu antes de ver as palavras na parede.
PAGUEM O QUE DEVEM.
O vermelho ainda brilhava perto da maçaneta. Ela tocou a porta, recolheu a mão e encontrou os dedos manchados.
Ficou parada, com a bolsa pendurada no ombro e a roupa do trabalho amassada sob o sobretudo de Davi.
Não tinha chave.
Nunca tivera uma chave só sua. Lúcia dizia que já havia cópias demais circulando. Rogério sempre estava em casa. Bastava bater.
Clara bateu.
Uma televisão continuou falando do outro lado.
"Rogério? Sou eu."
O volume aumentou.
Ela fechou os olhos.
Não precisava daquilo. Naquela segunda-feira, depois de tudo, merecia pelo menos entrar, lavar o rosto e deitar numa cama que não fosse de hotel.
Telefonou para Beatriz.
A prima chegou vinte minutos depois, com o uniforme do hotel e uma sacola contendo um pão e um iogurte.
"Você já comeu?", perguntou.
Clara assentiu.
Era mentira. Mas não queria que Beatriz dividisse o pouco que trouxera.
A prima enfiou a chave na fechadura. Girou uma vez. A porta não se moveu.
Girou de novo.
"Tem uma trava por dentro."
Clara mostrou a mão manchada.
"Acho que a família do Sérgio veio cobrar o Mauro."
Beatriz olhou a parede e perdeu a cor.
Bateu com mais força.
"Rogério. Abre."
O som da televisão diminuiu. Passos se aproximaram.
Por um instante, Clara acreditou que a porta finalmente abriria.
"Sua mãe não está", disse o homem lá de dentro.
"A gente sabe. Abre."
"Não vou ficar recebendo gente."
Beatriz ficou imóvel.
Clara conhecia aquela imobilidade. Era mais antiga que o uniforme, que a maquiagem discreta, que a vida adulta da prima. Um corpo tentando ocupar menos espaço para não atrair o que viesse depois.
Pegou sua mão.
"Vamos comer alguma coisa. Depois resolvemos."
Beatriz não se mexeu.
O telefone dela tocou. Lúcia.
A conversa durou pouco. Sim, estavam do lado de fora. Não, ele não queria abrir. Sim, a tinta estava na porta inteira.
Beatriz começou a chorar.
"Mãe, eu estou cansada."
Clara olhou para o vão da escada. Para a lâmpada que piscava. Para a vizinha que abriu uma fresta e tornou a fechar.
Havia tantos anos naquela cena que quase não conseguia distinguir o presente.
Quando era pequena, Beatriz a empurrava para fora do quarto e mandava que procurasse Lúcia. Dizia que ficaria tudo bem. Clara corria de chinelo pelos corredores, procurando uma adulta que sempre estava terminando uma partida.
Lembrava o medo. Não lembrava de ter conseguido explicar direito.
"Bia", chamou, apertando a mão dela. "Vamos embora."
A prima desligou e procurou outro contato.
"Um minuto. Eu vou resolver."
Não chamou um chaveiro.
Chamou Davi.
Ele chegou com Vicente e dois homens carregando uma caixa de ferramentas. Não perguntou por que Clara não havia ligado diretamente. Apenas examinou o cadeado acrescentado à grade externa e a trava adaptada ao batente.
Depois tocou a campainha.
"Abre a porta."
Silêncio.
"Rogério", disse Beatriz, baixinho. "É meu chefe."
"Não estou nem aí para chefe. A casa é minha também."
Davi olhou para Vicente.
Um dos homens abriu a caixa e retirou uma ferramenta de corte.
Clara deu um passo à frente.
"Espera. Vai quebrar tudo?"
Davi apontou a peça de metal acrescentada à grade.
"Isso sai. A porta fica."
"E depois?"
"Depois vocês entram."
"Eu quis dizer..."
Ele a observou até ela desistir de terminar.
O corredor era estreito. Quando o aparelho começou a funcionar, Davi a colocou atrás de si, usando o corpo para protegê-la das faíscas.
Clara recuou até encostar no degrau da escada.
"Um pouco mais para cima", pediu ele.
Ela obedeceu. Naquele degrau, podia olhar diretamente para seu rosto sem erguer tanto a cabeça.
Davi percebeu.
"Melhor."
"Para quem?"
Ele sorriu de leve.
Clara segurava uma ponta do cachecol vermelho que recebera no ensaio do coral dos funcionários. Era uma peça simples, parte do figurino de uma apresentação beneficente da cidade.
Davi tocou o tecido.
"Isso esquenta?"
"Um pouco."
Ele puxou a ponta, examinando a trama.
"Bonito."
"Foi de graça."
"Continua bonito."
Clara quase respondeu que ele podia comprar um melhor. Parou quando viu o cuidado inesperado com que segurava aquela ponta barata.
"Eu preciso dele para a apresentação."
Davi olhou para ela.
"Você achou que eu ia roubar seu cachecol?"
"Você parece alguém capaz de fazer isso."
"Então vigia."
A ferramenta parou.
Vicente retirou a peça cortada e abriu a grade. A porta interna não estava trancada. Rogério recuou pelo corredor ao encontrar Davi no batente.
Não parecia tão grande agora.
"Isso é invasão", resmungou.
"Elas moram aqui", respondeu Davi. "Vão buscar as coisas. Você fica longe."
Não ergueu a voz. Não precisou.
Clara entrou atrás de Beatriz.
Seu mundo cabia debaixo da cama da prima: duas bolsas, uma mala pequena e sacos com livros. Os livros eram a parte mais pesada. Não conseguia deixá-los.
Vicente apareceu à porta do quarto.
"Posso pegar esses?"
Clara assentiu.
Ele ergueu dois sacos e franziu a testa.
"Pedra?"
"Arquitetura. Às vezes parece."
Vicente riu. Levou tudo sem reclamar.
Na sala, Lúcia acabara de chegar e discutia com Rogério sobre a grade. Viu as malas e mudou de assunto tão depressa que Clara ficou tonta.
"Vocês vão para onde?"
Beatriz segurou a sacola contra o corpo.
"A empresa tem alojamento. O senhor Davi deixou a gente ficar."
Lúcia olhou imediatamente para ele.
Depois para a filha.
Seu rosto ganhou uma expressão que Clara não soube interpretar.
"Muito gentil do senhor. A Beatriz merece. É uma menina tão boa."
Davi não respondeu. Estava olhando para Clara, que tentava fechar o zíper de uma bolsa cheia demais.
Ajoelhou ao lado dela, segurou as duas bordas e esperou.
"Agora puxa."
Ela puxou. O zíper fechou.
"Pronto", disse ele.
Uma palavra pequena.
Clara precisou de alguns segundos para conseguir agradecê-la.
Antes de sair, voltou ao quarto para conferir o espaço sob a cama. Encontrou uma lapiseira junto ao rodapé, quase escondida pela poeira. Tinha comprado aquela peça no primeiro semestre da faculdade e remendado o encaixe com fita adesiva mais de uma vez.
Guardou-a no bolso.
Davi esperava no corredor, carregando a última caixa.
Não perguntou por que demorara. Apenas recuou para que ela passasse primeiro.
Clara apagou a luz.
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