"Nos Braços do Homem que Eu Devia Temer." Capítulo 8
O lugar ao lado
O celular de Clara tocou quando ela já estava deitada.
Henrique.
O nome apareceu sobre uma fotografia antiga, tirada num almoço em que os dois ainda conseguiam sorrir sem calcular a reação um do outro.
Ela olhou para a tela até a ligação terminar.
Davi estava na poltrona perto da janela. Não perguntou quem era. Clara desejou que perguntasse, para poder se irritar com alguma coisa mais simples.
A segunda ligação começou antes que o silêncio se acomodasse.
Ela virou o aparelho para baixo.
"Pode atender", disse ele.
"Eu sei."
Davi assentiu e voltou a olhar a rua.
Clara fechou os olhos. Tinha preparado tantas palavras no caminho para Belo Horizonte. Agora, nenhuma parecia servir. O que perguntaria? Se Henrique sabia? Se concordava? Se a moça de suas meias era apenas uma amiga?
Precisava ouvir uma explicação. Não conseguia suportar a possibilidade de ouvir uma desculpa.
A ligação terminou.
"Ele está fora do país", disse, sem saber por que estava explicando.
Davi não se mexeu.
"A mãe dele estava resolvendo tudo por ele."
"É o que ela disse." Clara esfregou os olhos. "Eu nem sei mais o que ele sabe. E não quero descobrir pelo telefone de um quarto emprestado."
Davi se levantou.
"Você quer que eu saia?"
Ela abriu os olhos.
O quarto pareceu grande de repente.
"Você pode ficar na sala."
"Posso."
Havia uma porta de correr entre o dormitório e a pequena sala da suíte. Ele recolheu o telefone e o paletó, caminhando sem pressa.
Clara sentiu vergonha do próprio medo antes mesmo de reconhecê-lo.
"Davi."
Ele parou.
"Não precisa fechar."
Os olhos dele foram da porta para ela. Não havia riso.
"Está bem."
Ela adormeceu ouvindo o ruído baixo de uma televisão.
Acordou horas depois com o corpo dolorido e a garganta seca. Por um momento, não sabia onde estava. Sentou-se depressa, sentiu o mundo girar e chamou o primeiro nome que encontrou.
"Davi?"
Ele apareceu quase imediatamente.
A camisa estava amarrotada. Havia uma marca vermelha na lateral do rosto, provavelmente da almofada do sofá.
"O que foi?"
"Água."
Ele trouxe o copo e a ajudou a segurar quando percebeu os dedos trêmulos.
Depois encostou as costas da mão em sua testa.
"Você está quente."
"É o cobertor."
Davi olhou para o cobertor afastado na altura da cintura.
"Claro. Um cobertor muito competente."
Clara soltou uma risada que virou tosse.
Uma médica do atendimento do hotel veio examiná-la pouco depois. Fez perguntas, explicou os cuidados necessários e deixou orientações para que procurassem um serviço de saúde se aparecessem determinados sinais.
Davi ouviu tudo de braços cruzados, sério demais.
Clara respondeu sozinha. Ficou grata por ele não tentar falar em seu lugar.
Quando a médica foi embora, já amanhecia.
"Você pode dormir", disse Clara. "Eu não vou morrer."
Davi puxou a poltrona para perto da cama.
"Ainda bem. Ia ser uma trabalheira."
Ela olhou para ele.
O sorriso veio primeiro nos olhos.
"Você é insuportável."
"E você dá muito serviço."
Clara não conseguiu responder. Estava ocupada tentando não sorrir também.
Passou o sábado entre o sono e pequenas tarefas que lhe pareciam enormes: levantar, tomar banho, comer uma torrada, mandar uma mensagem para Beatriz avisando que não voltaria naquele dia.
A prima perguntou onde estava.
Clara respondeu que num hotel, porque adoecera.
Não disse quem pagava. Não sabia como explicar aquilo sem abrir uma conversa para a qual ainda não tinha forças.
Henrique enviou mensagens. Havia uma reunião, uma diferença de fuso, dificuldades para telefonar. Precisavam conversar com calma.
Clara silenciou o contato.
No fim da tarde, Davi voltou com uma sacola da farmácia e um café para si. Sua expressão se alterou quando encontrou a bandeja do almoço quase intacta.
"Não gostou?"
"Não tive fome."
Ele examinou os pratos e ligou para a cozinha.
"Sopa", pediu. "Uma coisa simples. Sem inventar moda."
Clara observou o rosto dele enquanto falava. Tinha um pequeno corte perto da orelha que ela não notara antes.
"Você se machucou de novo?"
Ele tocou o lugar.
"Barbeador."
"Você briga até com o barbeador?"
Davi olhou para ela e riu de verdade.
Era uma risada grave, curta, que mudava seu rosto inteiro.
Clara teve vontade de ouvi-la outra vez.
A vontade a assustou.
Domingo à noite, a febre havia baixado. Na segunda pela manhã, Vicente buscou os dois para voltarem a Santa Aurora.
Davi colocou o sobretudo sobre os ombros dela antes de saírem do elevador.
"Vou precisar devolver isso também?", perguntou Clara.
Ele percebeu a referência.
A expressão perdeu o humor.
"Não."
A resposta veio tão firme que ela ficou em silêncio.
Na estrada, dormiu encostada na porta. Quando acordou, havia uma manta sobre suas pernas. Rosa, como a outra. Talvez a mesma que Davi comprara depois da primeira noite. Ela não lembrava de tê-la trazido.
Davi estava ao seu lado, examinando alguns papéis.
"Já chegamos?"
"Mais vinte minutos."
"Me deixa no trabalho."
Ele afastou os documentos.
"Você acabou de passar o fim de semana doente."
"Estou melhor."
"Quanto pagam para você lá?"
Clara falou o valor.
Davi franziu a testa, como se estivesse tentando localizar uma parte que não ouvira.
"Por mês?"
"Não. Por hora. Estou ficando milionária e esqueci de avisar."
Vicente soltou uma risada pelo nariz e imediatamente fingiu tossir.
Davi o olhou pelo retrovisor antes de voltar para ela.
"Se precisar ficar uns dias em casa, eu resolvo esse dinheiro."
"Não é esse o problema."
"Qual é?"
Clara puxou a manta até os joelhos.
"Eu comecei agora. Gosto de ter meu salário. Gosto de chegar num lugar e saber o que esperam de mim. Não quero perder isso."
Ele a observou por alguns segundos.
"Então pelo menos almoça direito."
"Você vai passar o dia ligando para conferir?"
"Se precisar."
Ela virou o rosto para esconder o sorriso.
Perto da cidade, o telefone de Davi começou a tocar. Uma conversa sobre entrega de material. Outra sobre um pagamento atrasado. Ele respondeu às duas com poucas palavras e uma impaciência que Clara não tinha visto durante todo o fim de semana.
Ao desligar, encontrou o olhar dela.
"O que foi?"
"Ainda estou tentando descobrir o que você faz."
"Negócios."
"Muito esclarecedor."
Davi apoiou o braço no encosto, sem tocá-la.
"Quando você quiser saber de verdade, pergunta."
Clara ajeitou a manta e olhou pela janela.
Queria saber. Esse começava a ser o problema.
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