"Nos Braços do Homem que Eu Devia Temer." Capítulo 7
Debaixo do mesmo guarda-chuva
Davi a encontrou sentada num degrau, perto de uma farmácia fechada.
Clara não percebeu o carro parar. Estava ocupada demais tentando destravar a tela do celular com os dedos molhados. O aparelho não reconhecia sua impressão digital. Ela havia esquecido a senha por alguns segundos, uma coisa tão absurda que finalmente começou a chorar.
Um sapato preto entrou em seu campo de visão.
Depois outro.
A chuva deixou de cair sobre sua cabeça.
"Clara."
Ela ergueu os olhos.
Davi segurava um guarda-chuva, com o sobretudo aberto e a gravata afrouxada. Não parecia surpreso. Essa foi a primeira coisa que a incomodou.
A segunda foi o alívio.
Seu rosto estava tão perto que ela não conseguiu fingir que estava bem.
"O que você está fazendo aqui?"
Ele olhou para suas mãos, depois para a blusa molhada.
"Vamos entrar no carro."
"Eu perguntei..."
"Eu ouvi. Respondo lá dentro."
Clara tentou levantar. Os joelhos não ajudaram. Davi se agachou, colocou o guarda-chuva de lado e abriu o sobretudo ao redor dela.
O calor a atingiu de uma vez.
Ela ficou com raiva dos próprios olhos por se encherem de lágrimas outra vez.
"Não precisa me carregar."
"Ótimo. Então fica em pé."
Clara tentou.
Ele a segurou antes que escorregasse.
Não fez comentário. Apenas passou um braço por trás de suas costas e o outro sob seus joelhos.
Era humilhante o quanto parecia fácil.
Vicente abriu a porta traseira do carro. Clara entrou ainda agarrada à gola do sobretudo. Davi se sentou ao lado, fechou a porta e mandou aumentar o aquecimento.
"Para onde?", perguntou Vicente.
Davi disse o nome de um hotel.
Clara virou o rosto.
"Não."
"Você quer ficar na rua?"
"Quero voltar para Santa Aurora."
"Agora são quase onze horas. Você está molhada, tremendo e sem carro. Primeiro a gente cuida disso."
Ela odiava quando alguém tinha razão da maneira errada.
Davi pegou uma toalha dobrada no banco da frente e a entregou.
Clara pressionou o tecido contra o cabelo. Só então conseguiu olhar direito para ele.
"Como você sabia onde eu estava?"
Vicente ficou imóvel ao volante.
Davi não desviou.
"Pedi para um homem meu ficar atento quando você viesse para cá."
"Você mandou me seguir?"
"Depois do que aconteceu com a Aline, e com seu tio desaparecendo daquele jeito, fiquei preocupado."
"Você nem me conhece."
"Conheço o suficiente para saber que sai tentando resolver problema dos outros e esquece de olhar para o próprio lado."
"Isso não dá a você o direito..."
"Não dá", interrompeu ele. "Você tem razão."
Clara abriu a boca e tornou a fechá-la.
Não esperava que concordasse. Preparara uma discussão inteira enquanto ele respondia.
Davi continuou:
"Eu não devia ter feito sem falar com você. Fiz. Hoje, o homem ligou dizendo que você saiu do prédio sem casaco. Eu estava na cidade. Vim procurar."
Ela segurou a toalha contra o peito.
"E sabia por que eu fui ao apartamento?"
"Sabia que sua tia procurou a família dele. Imaginei que ia sobrar para você."
A dor voltou com uma nitidez insuportável.
Então era visível. O desastre não acontecera numa sala fechada. Outros já conseguiam antecipar que Clara seria a pessoa descartada para que todos os demais pudessem continuar vivendo.
"Você podia ter me avisado."
Davi apoiou os antebraços nos joelhos.
"Podia."
"Mas ficou esperando."
Ele olhou para ela.
Não tentou negar.
Clara virou o rosto para a janela. A cidade passava em manchas amarelas. O vestido verde que escolhera para o almoço, semanas antes, parecia pertencer a outra mulher.
"Todo mundo quer alguma coisa", murmurou.
Davi permaneceu em silêncio até o carro entrar na garagem.
No elevador, não tentou tocá-la. No quarto, pediu que Vicente buscasse uma farmácia e roupas secas. Mostrou a Clara o banheiro e colocou a chave do quarto sobre a mesa, onde ela pudesse ver.
"A porta tranca por dentro. Você toma um banho. Eu espero aqui."
"Você não vai embora?"
"Vou quando tiver certeza de que não vai desmaiar outra vez."
Ela sentiu vontade de dizer que ele não era médico. Mas a lembrança do consultório ainda era recente, e seu corpo continuava tremendo.
Entrou no banheiro.
Havia uma banheira, duas toalhas grandes e um roupão. Clara passou tanto tempo debaixo da água morna que perdeu a noção dos minutos.
Quando saiu, encontrou uma mesa posta.
Davi tirara o sobretudo e dobrara as mangas. Havia sopa de cogumelos, carne, legumes, pão e uma sobremesa que ela não soube identificar.
A aparência de um jantar romântico, depois do que acabara de acontecer, foi demais.
"Você acha que isso é uma oportunidade?"
Davi ergueu o rosto.
"Acho que você não comeu."
"Não muda o que eu perguntei."
Ele largou o garfo que estava ajeitando.
"Eu queria encontrar você em outra situação. Queria que tivesse aceitado sair comigo sem eu precisar procurar numa calçada. Mas, hoje, quero que coma."
A resposta direta a deixou sem defesa por um momento.
Clara apertou o cinto do roupão.
"Eu nunca disse que sairia com você."
"Percebi."
Ela se sentou, porque o cheiro da comida tornava impossível sustentar qualquer dignidade baseada em jejum.
Davi serviu a sopa e afastou a taça de vinho antes que ela a alcançasse.
Clara levantou os olhos.
"Eu sou adulta."
"E está gelada e com a cabeça doendo. Bebe água primeiro. Se ainda quiser vinho depois, eu abro a garrafa."
Ela aceitou o copo como se estivesse fazendo uma concessão enorme.
Comeu duas colheradas. Depois mais três.
Davi se sentou do outro lado, sem pressa, e começou a comer também.
A normalidade daquele gesto quase a fez chorar.
Não era uma conversa séria. Não era uma promessa. Era alguém que lhe oferecera comida e não ficara observando quanto custaria retribuir.
"Você não perguntou", disse ela.
"O quê?"
"O que aconteceu."
Davi cortou um pedaço de carne.
"Quando quiser falar, você fala."
Clara baixou o rosto para a sopa.
Comeu em silêncio até o calor voltar às pontas dos dedos.
Mais tarde, quando Vicente trouxe uma sacola com roupas e um kit de higiene, ela já estava sentada na cama. Davi deixou tudo sobre a poltrona e se aproximou apenas para colocar um copo de água no criado-mudo.
Clara segurou seu punho.
Ele parou imediatamente.
"Por quê?", perguntou ela.
A mão dele era quente. Tinha uma cicatriz recente perto do polegar.
"Por que está fazendo isso?"
Davi olhou para os dedos dela fechados em sua pele.
"Porque eu queria que fosse comigo que você contasse."
Clara o soltou devagar.
Não era uma resposta segura.
Naquela noite, porém, foi a única que não pareceu vazia.
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