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"Nos Braços do Homem que Eu Devia Temer." Capítulo 6

正文开头

A chave sobre a mesa

A mãe de Henrique telefonou numa sexta-feira, quase dois meses depois do almoço no hotel.

"Clara, querida. Você consegue vir a Belo Horizonte hoje? Precisamos acertar algumas coisas."

Helena Vasconcelos raramente usava querida sem precisar de alguma coisa.

Ainda assim, Clara sentiu esperança.

Não falava com Henrique havia semanas. A família continuava desorganizada. Mauro reaparecera, negociava compensações que não tinha como pagar e discutia com Lúcia sobre a venda do apartamento onde todos moravam.

Clara trabalhava, ajudava Beatriz e evitava pensar no que estava acontecendo com o próprio noivado.

Talvez fosse possível resolver pelo menos uma coisa.

Saiu do expediente, trocou a roupa no banheiro e vestiu o casaco de lã que Henrique lhe dera no inverno anterior. Dirigiu até a capital no carro que ele também havia comprado para ela usar durante a reforma do apartamento.

Na estrada, pensou em como começaria a conversa.

Não queria pedir desculpas por ter reclamado o que era seu. Mas poderia dizer que lamentava a maneira como o almoço terminara. Poderia perguntar como ele estava. Poderia tentar de novo.

Chegou depois das nove.

O porteiro a conhecia. Sorriu, entregou uma encomenda destinada a Henrique e comentou que dona Helena já estava lá em cima.

Clara segurou o pacote contra o peito durante o trajeto de elevador.

A porta abriu antes que usasse a chave.

Uma moça de cabelos claros a recebeu de meias, com uma caneca na mão.

"Você é a Clara?"

"Sou."

"Entra. A tia Helena está na sala."

Clara olhou para os pés dela.

As meias eram de Clara.

Não tinha certeza absoluta. Havia comprado um pacote com três pares numa loja de departamento. Talvez qualquer mulher tivesse meias iguais.

Mas sabia que a caneca era sua. Escolhera a pequena lasca azul no esmalte porque fazia a peça artesanal parecer menos perfeita.

Deixou a encomenda no aparador.

Helena estava sentada no sofá bege, diante de uma pasta de documentos.

"Você demorou."

"Peguei trânsito na saída de Santa Aurora. O Henrique está vindo?"

A moça fechou a porta e entrou na sala com a naturalidade de quem já conhecia o lugar.

Clara percebeu que seu chinelo não estava no cesto da entrada.

A reforma ocupava cada canto do apartamento. Ela conhecia a altura das tomadas, os veios da pedra da cozinha, a parede que mandara refazer porque o revestimento ficara torto.

Tinha gasto tardes escolhendo os puxadores. Uma madrugada inteira desenhando outra solução para a iluminação da sala.

Agora permanecia no hall sem saber onde colocar a bolsa.

"Ele não está no Brasil", respondeu Helena.

Clara virou o rosto.

"Como assim?"

"Viajou a trabalho. Pensei que soubesse."

A moça tomou um gole da caneca.

"Vai demorar algumas semanas."

Clara sorriu por educação. Sentiu o rosto se mover sem reconhecer a expressão.

Foi à cozinha, porque ficar parada parecia pior. Encontrou água na chaleira e perguntou se queriam alguma coisa.

正文1

"Não precisa fazer serviço, Clara", disse Helena. "Senta aqui."

Ela sentou.

Só então a outra moça se apresentou.

"Marina. Nossas famílias são amigas."

"Prazer."

Helena cruzou as mãos sobre a pasta.

"Eu queria que essa conversa fosse agradável. Mas você sabe o que vem acontecendo."

Clara esperou.

"Sua tia apareceu no meu trabalho. Fez uma cena. Falou com funcionários, cobrou dinheiro, citou o nome do meu marido."

O estômago dela caiu.

"Eu não sabia."

"Acredito. Não estou dizendo que mandou."

O tom era calmo. Quase gentil. Isso tornava tudo mais difícil.

Helena explicou que precisava proteger a família. A posição do marido. O futuro de Henrique. Não poderia aceitar que problemas particulares se transformassem em constrangimento público.

Clara ouviu até o fim.

Sabia que Lúcia era capaz de fazer aquilo. Sabia que não seria a última vez se descobrisse alguma vantagem.

"Eu converso com ela."

"Não resolve."

Helena abriu a pasta.

"Henrique colocou bens à sua disposição porque acreditava no compromisso de vocês. Como esse compromisso não está seguindo adiante, precisamos reorganizar as coisas."

Clara olhou para o papel.

"Ele pediu isso?"

Helena demorou o bastante para que a resposta se tornasse uma coisa que Clara não esqueceria.

"Estou resolvendo pela nossa família."

Marina tocou o ombro dela.

"Tia, se quiser, eu espero no quarto."

No quarto.

Clara permaneceu olhando para os documentos.

Reconheceu o apartamento, os dados do veículo, a conta usada para as despesas da reforma. Não era uma escritura mágica que pudesse apagar seu nome num instante. Eram autorizações, compromissos e procedimentos que ainda precisariam ser concluídos.

Mas o sentido estava claro.

Estavam pedindo que saísse.

"O saldo da reforma pode ficar com você", disse Helena. "Pelo trabalho. Não queremos ser injustos."

Clara pensou no valor restante. Quase suficiente para quitar uma parte da dívida da faculdade.

Quase suficiente para comprar alguns meses sem desespero.

"Não quero."

Helena suspirou.

"Não precisa transformar isso em orgulho."

"Não estou transformando."

Clara assinou o que compreendia, fotografou as páginas para ter registro e pediu que qualquer outro documento fosse encaminhado por escrito. A voz saiu firme. As mãos, não.

Retirou as duas chaves do chaveiro.

A do apartamento. A do carro.

Colocou-as sobre a mesa.

"Minhas coisas estão no quarto."

"A gente pode mandar depois."

Clara quase disse que eram poucas. Roupas. Livros. Uma pasta. Nada que ocupasse espaço demais.

Não disse.

Foi até o corredor e encontrou Marina diante do espelho do quarto principal, prendendo um brinco.

"Esqueci minha bolsa aqui", explicou a moça.

Clara não perguntou por que ela precisava se explicar.

Pegou apenas o celular, a carteira e sua pasta de trabalho. O casaco ficou no cabide. A bolsa maior, no armário. Tudo o que Henrique comprara permaneceu onde estava.

Na porta, Helena ainda tentou falar.

"Você é uma menina inteligente. Vai entender com o tempo."

Clara assentiu.

Não porque concordasse. Porque a outra opção era começar a chorar ali.

Desceu pelo elevador com a roupa fina que usava por baixo do casaco. Na rua, a garoa parecia leve. Bastaram alguns minutos para molhar sua gola.

O aplicativo mostrava uma tarifa que ela não queria pagar.

Clara começou a andar.

Não sabia para onde.

Quando percebeu, já não procurava um carro. Só colocava um pé diante do outro, tentando se afastar de uma casa que tinha ajudado a construir e onde nunca chegara a morar.

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