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"Nos Braços do Homem que Eu Devia Temer." Capítulo 5

正文开头

O que fica com as mulheres

Na margem da represa, Clara descobriu que o tio havia conseguido sair da van.

A mulher dele e os dois filhos, não.

Havia outros passageiros. Familiares de Sérgio, marido de Aline, a prima mais velha. Os bombeiros trabalhavam sob a chuva fina, e ninguém sabia dizer com certeza quantas pessoas ainda estavam dentro do veículo.

Mauro desaparecera depois de procurar ajuda numa propriedade próxima.

Clara passou aquela tarde atendendo ligações com as mãos tão frias que mal conseguia deslizar a tela. Beatriz chegou de carona com um vizinho. Lúcia não veio.

"Ela está tentando conseguir dinheiro", disse Beatriz.

Clara não perguntou onde.

As duas ficaram juntas debaixo de uma cobertura improvisada. Davi falou com os responsáveis pela busca, conseguiu água e um lugar para que se sentassem. Não prometeu que tudo ficaria bem.

Talvez por isso ela tenha conseguido permanecer perto dele.

Quando a noite caiu, Vicente levou as duas para casa. Davi ficou na represa.

Nos dias seguintes, a tragédia deixou de ser um acidente e passou a ser uma lista de coisas que alguém precisava fazer.

Reconhecer documentos. Avisar parentes. Providenciar transporte. Buscar roupas. Encontrar o tio. Descobrir por que a van estava com mais pessoas do que deveria e por que ninguém sabia quem havia pago a última revisão.

Clara e Beatriz fizeram o que conseguiam.

A família de Sérgio queria respostas. Queria Mauro. Queria dinheiro para os enterros e alguém em quem despejar uma dor que não tinha lugar suficiente para caber.

Aline estava na casa dos sogros.

Quando Clara conseguiu vê-la, três dias depois, encontrou a prima com o braço roxo e o lábio partido.

Sérgio disse que ela havia caído.

Clara olhou para Aline. Aline baixou a cabeça.

O policial que acompanhava as duas primas pediu para falar com ela em particular. No fim daquela visita, Aline foi levada para atendimento médico.

Clara saiu da casa com vontade de vomitar.

Beatriz chorava sem parar.

"Você acha que ela volta para lá?"

"Não se eu conseguir impedir."

A frase saiu antes que Clara se lembrasse de quantas coisas não conseguia impedir.

Encontraram Lúcia num salão de jogos que funcionava atrás de uma lanchonete. A televisão estava alta, e quatro mulheres ocupavam uma mesa perto da janela.

"Tia, precisamos conversar."

Lúcia examinou as cartas.

"Agora não."

"A Aline foi para o hospital."

A mão de Lúcia parou.

"Ela está grávida?"

Clara sentiu alguma coisa se partir por dentro.

"Ela apanhou."

"Vocês também compram qualquer história. Casal briga. Não se mete."

Beatriz soltou um soluço.

"Mãe. Você precisa ir."

Lúcia olhou em volta, incomodada com a atenção das outras mulheres.

"Eu vou quando terminar."

Clara permaneceu olhando para ela durante alguns segundos. Depois pegou a mão de Beatriz e saiu.

Não havia argumento que fizesse uma mãe querer ouvir o que não queria saber.

Davi ajudou com o que faltava nos funerais. Clara soube por uma funcionária da funerária. Quando perguntou a ele, recebeu uma resposta curta pelo telefone de Vicente.

正文1

"Alguém precisava resolver."

Ela não soube agradecer sem parecer que estava pedindo mais.

Então disse apenas:

"Eu vou devolver."

Do outro lado, houve um silêncio.

"Clara, come alguma coisa e dorme. Depois a gente conversa sobre dinheiro."

Ela desligou com raiva, porque todos pareciam acreditar que bastava mandá-la descansar para que existisse um lugar onde pudesse fazer isso.

Mas comeu. E, naquela noite, dormiu sentada no sofá da recepção do hospital.

Quando acordou, havia um paletó cobrindo seus ombros.

Vicente estava junto à máquina de café.

"É dele?", perguntou Clara, tocando o tecido.

Vicente assentiu.

"Ele teve de sair."

Ela dobrou o paletó com cuidado. Encontrou um botão diferente por dentro da manga e uma costura que ainda conservava o cheiro de roupa nova.

Aline recebeu alta alguns dias depois.

As três primas se reuniram no apartamento de Lúcia, antes que o marido dela voltasse. Rogério gostava de ocupar a sala com a televisão ligada e reclamar de qualquer barulho que não fosse o dele.

Clara preparou macarrão. Beatriz pôs os pratos. Aline comeu devagar, como se precisasse pedir autorização ao próprio estômago.

Depois levantou a manga.

Havia pequenas marcas redondas em seu braço.

Clara pousou o garfo.

"Há quanto tempo?"

Aline passou o dedo numa delas.

"Não sei mais."

Beatriz começou a chorar outra vez.

"Você não vai voltar", disse Clara.

Aline ergueu o rosto.

"Minha mãe vai mandar. O Sérgio vai vir buscar."

"Você é adulta. Pode ir embora."

"Para onde?"

A pergunta não era simples. Clara sabia. Tinha feito a mesma a si própria quando saíra da faculdade com livros demais e dinheiro de menos.

"Você conhece alguém fora daqui?"

Aline demorou.

"Uma amiga em Campinas. Trabalha num restaurante. Disse que talvez conseguisse uma vaga para mim."

"Então liga."

"E se não der certo?"

Clara olhou para as marcas.

"Aqui também não está dando."

Aline ficou quieta por tanto tempo que ela pensou ter falado demais.

Então a prima procurou o telefone.

A amiga atendeu. Houve uma conversa baixa, perguntas sobre horários, um pedido de favor dito com a voz quase sumindo. Quando desligou, Aline estava chorando.

Mas sorria.

A vaga não era garantida. Havia um sofá por alguns dias. Um começo pequeno, longe dali.

As três contaram o dinheiro disponível sobre a mesa. Clara separou parte do primeiro salário. Beatriz retirou notas dobradas de dentro da bolsa. Aline tinha um valor escondido na capa do celular.

Foi suficiente para a passagem e alguma comida.

Na rodoviária, Aline abraçou Beatriz primeiro. Depois se agarrou a Clara com tanta força que ela sentiu as costelas.

"Se a minha mãe perguntar..."

"Eu falo com ela."

"Não deixa ela descobrir o endereço."

"Não vou deixar."

Clara assistiu ao ônibus sair com uma sensação terrível de responsabilidade. Não tinha como prometer que Aline ficaria bem. Podia apenas prometer que não a entregaria de volta.

Voltaram para casa de madrugada.

O celular tinha uma mensagem de Henrique, enviada dois dias antes.

Precisamos conversar quando essa confusão passar.

Clara ficou olhando para as palavras.

Não havia uma pergunta sobre a família. Nenhum oferecimento concreto. Talvez ele não soubesse o que dizer. Talvez ela também devesse entender o lado dele.

Virou o telefone e foi dormir.

Na manhã seguinte, encontrou uma mensagem de Davi no mesmo aparelho.

O número era desconhecido. O texto, não.

A moça do hospital já comeu hoje?

Clara sentou na cama.

Não respondeu imediatamente. Depois digitou:

Ainda não.

A resposta chegou quase na mesma hora.

Então começa por isso.

Ela sorriu antes de conseguir se impedir.

Foi até a cozinha e colocou água para ferver.

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