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"Nos Braços do Homem que Eu Devia Temer." Capítulo 4

正文开头

Um homem de palavra

"Abre a porta", disse Clara.

Davi olhou para Vicente.

A porta se abriu imediatamente. O corredor estava iluminado, e dois garçons retiravam uma bandeja de outra sala. Clara poderia passar por eles e entrar no elevador.

Saber disso a fez permanecer.

Davi afastou uma cadeira da saída.

"Não vou prender você aqui."

Ela apertou a alça da bolsa.

"Você disse alguma coisa parecida antes de me levar para um consultório cercado de homens."

"Eu disse que não ia machucar você. E não machuquei."

"Apontar uma arma conta."

Ele passou a mão pela mandíbula. Vicente olhou para o chão.

Pela primeira vez, Davi pareceu não encontrar uma resposta pronta.

"Conta", concordou.

Clara ficou esperando uma justificativa. Não veio.

Aquela admissão simples tirou parte de sua raiva, o que a irritou ainda mais.

"Eu poderia ter chamado a polícia."

"Poderia."

"Ainda posso."

Ele sustentou seu olhar.

"Pode."

Clara desviou primeiro. Não porque se sentisse intimidada, disse a si mesma. Porque estava exausta. Porque seu noivo acabara de deixá-la sozinha diante da família inteira, e ela não tinha forças para mais uma disputa.

Davi puxou a cadeira, mas não se sentou.

"Comeu alguma coisa?"

"Você estava na mesa. Viu."

"Vi você servindo os outros."

Ela baixou os olhos para os pratos. Havia tocado na comida, certamente. Não lembrava o gosto.

Davi pediu ao garçom que trouxesse um café e alguma coisa quente. Olhou para Clara antes de concluir.

"Se você quiser."

O esforço para perguntar foi tão evidente que ela quase riu.

"Um café. Só."

Ele fez um sinal. Vicente deixou os dois e permaneceu do lado de fora, sem fechar a porta.

Clara tornou a sentar, mais perto da saída. Davi ocupou a cadeira em frente.

De perto, era impossível acreditar que ela não o reconhecera antes. A mesma cicatriz curta na sobrancelha. A mesma voz. O mesmo jeito de observar como se não desperdiçasse nada do que acontecia ao redor.

"A Beatriz sabe?", perguntou.

"Sabe o quê?"

"Que você anda por aí levando tiro."

"Não."

"Ela trabalha para você."

"Eu sei. Pago o salário."

Clara o encarou.

Ele ergueu uma mão.

"Não falo da minha vida com os funcionários."

"E por que veio ao almoço?"

"A Beatriz comentou que a família ia usar o salão. Eu já estava no hotel. Passei para cumprimentar."

A explicação parecia razoável. O sorriso dele, nem tanto.

"Você sabia que eu estaria aqui?"

"Soube quando entrei."

Não tentou fingir surpresa nem esconder que a reconhecera desde o início.

Clara se lembrou das vezes em que tocara o braço de Henrique, ajeitara a mesa, sorrira quando não tinha vontade. Sentiu um calor desagradável subir ao rosto.

"Achou engraçado?"

"Algumas partes."

"Que bom que alguém se divertiu."

O café chegou. Ela segurou a xícara com as duas mãos, esperando que o calor lhe devolvesse o controle dos dedos.

Davi acompanhou o movimento.

"O rapaz é sempre assim?"

正文1

"Que rapaz?"

"O que deixou você pagando o almoço."

"Você não conhece o Henrique."

"Vi o suficiente hoje."

Clara endireitou a coluna.

"Ele não gostou da discussão. Não significa que seja uma pessoa ruim."

"Não disse que era ruim. Disse que foi embora."

Era difícil argumentar com uma coisa que de fato havia acontecido.

Ela tomou o café. Forte, sem açúcar. Bom o bastante para irritá-la, porque não queria gostar de nada que viesse dele.

"Eu também sei ser desagradável", disse.

"Percebi."

Clara levantou os olhos.

Ele sorria. Não com o desprezo discreto de quem encontrara uma fraqueza. Parecia genuinamente satisfeito por ela estar discutindo.

"Você fica mais à vontade quando está brava", observou.

"E você provoca de propósito."

"Às vezes."

Ela soltou uma risada curta, sem querer. Davi a ouviu como se tivesse conseguido alguma coisa importante.

Isso a fez parar.

"Preciso ir."

Ele se levantou quando ela o fez.

"Meu motorista leva você."

"Eu chamo um carro."

"Está chovendo."

"Não sou feita de açúcar."

Davi olhou para a janela, depois para ela.

"Não parece mesmo."

Clara encontrou o telefone na bolsa. Henrique não mandara mensagem. Ela virou a tela antes que Davi pudesse ver o nome que procurava.

Ele não comentou.

"A conta", lembrou ela. "Me passa o valor."

"O almoço era meu."

"Não era."

"Virou."

Ela cruzou os braços.

"Eu não gosto de ficar devendo."

"Então vamos descontar da minha dívida."

Clara olhou para ele em silêncio.

Davi tinha os óculos numa das mãos. Sem a armação, seu rosto parecia mais honesto e menos seguro ao mesmo tempo. Não era uma combinação confortável.

"Você lembra", disse ela.

"Falei que lembrava."

A garganta dela apertou de um jeito inesperado.

Tantos adultos haviam prometido coisas a Clara. Devolveriam seus imóveis. Pagariam a faculdade. Iriam à apresentação de seu projeto final. Ligariam mais tarde.

Aquele homem prometera uma coisa numa madrugada terrível e, por algum motivo, guardara a promessa.

Ela desviou os olhos.

"Não gaste essa vida à toa."

Davi não sorriu.

"Vou tentar."

Vicente apareceu à porta antes que Clara pudesse sair. Trazia o telefone e uma expressão diferente da despreocupação anterior.

"Davi. Precisamos conversar."

Davi percebeu a mudança antes dela.

"Fala."

Vicente olhou para Clara.

"É da família dela."

O estômago de Clara se contraiu.

"O que aconteceu?"

"Seu tio saiu de carro depois do almoço?"

Mauro pedira o dela emprestado. Ela recusara. Lembrava-se da cara ofendida, da palavra egoísta dita alto o suficiente para que os outros escutassem.

"Uma van", respondeu. "Do marido da minha prima. Por quê?"

Vicente abaixou o telefone.

"Houve um acidente na estrada de São Bento. A van caiu numa represa. Estão tirando as pessoas."

Clara deixou a bolsa cair sobre a cadeira.

"Quem estava dentro?"

Ele não soube responder.

O barulho do salão desapareceu. Ela pensou em Mauro, na esposa dele, nos filhos, na família de Aline, em todas as pessoas que haviam saído daquele almoço falando ao mesmo tempo.

De repente, precisava de ar.

Davi se aproximou sem tocá-la.

"Clara. Vamos saber."

Ela o encarou, procurando uma resposta que ele ainda não tinha.

Davi se virou para Vicente.

"Pega o carro."

Depois recolheu a bolsa do chão e a entregou a ela.

"Dessa vez", disse, abrindo caminho, "você não vai sozinha."

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