"Nos Braços do Homem que Eu Devia Temer." Capítulo 3
O dono do hotel
Quatro semanas depois, Clara encontrou o homem da estrada num almoço em que deveria decidir a data de seu casamento com outro.
Não o reconheceu imediatamente.
Estava sentado ao lado de Beatriz, de camisa branca, paletó cinza e óculos discretos. O cabelo havia sido cortado. O rosto não tinha sangue nem a palidez assustadora daquela noite.
Beatriz apresentou-o com um sorriso tímido.
"Este é o senhor Davi Monteiro. O dono do Grande Hotel Aurora. Meu chefe."
Clara segurava uma jarra de água.
Serviu primeiro tia Lúcia, depois Henrique, e só então olhou novamente para o convidado. Ele a observava por cima da armação.
Alguma coisa em seu estômago se contraiu.
Mas tia Lúcia começou a reclamar dos pais de Henrique, ausentes, e Clara teve de voltar a prestar atenção à mesa.
O salão reservado do hotel estava cheio de parentes. Havia gente que ela não via desde a infância. Todos haviam encontrado tempo para o almoço, embora poucos tivessem encontrado tempo para perguntar se precisava de ajuda quando voltara para Santa Aurora.
Henrique estava ao seu lado. Elegante, limpo, cheiroso, com o relógio que seu pai lhe dera quando concluíra o mestrado.
Tinha oito anos a mais que Clara e uma maneira de ficar em silêncio que fazia os outros sentirem necessidade de se explicar.
Ela o amava. Havia momentos em que desejava não amar tanto.
"Minha mãe pede desculpas", disse ele. "Surgiu um compromisso. Meu pai também não conseguiu vir."
Lúcia afastou o prato.
"A menina vai entrar sozinha na igreja, então? Porque família desse lado ela tem."
Clara viu o maxilar de Henrique endurecer.
"Ainda não decidimos sobre igreja, tia."
"Como não decidiram? É casamento ou mudança de endereço?"
Alguns parentes riram.
Clara colocou a jarra sobre a mesa com cuidado.
Ela escolhera um vestido verde-escuro, simples, justo na cintura. Demorara quase uma hora para prender o cabelo de um jeito que parecesse natural. Queria que aquele almoço desse certo.
Seu trabalho na agência municipal de desenvolvimento começara bem, apesar da febre que a derrubara na primeira semana. Tinha salário, colegas gentis e uma mesa de verdade. Não era a carreira em arquitetura que imaginara, mas era um começo.
Precisava de um começo também com Henrique.
"Podemos fazer uma cerimônia pequena", sugeriu.
"Pequena para quem?", perguntou Lúcia. "Porque eu criei você. Quero participar."
Do outro lado da mesa, o tio Mauro mexeu no guardanapo.
Clara sabia que aquele gesto significava que ele estava calculando alguma coisa. Tinha aprendido a reconhecê-lo antes de saber multiplicar.
"Vamos falar disso com calma", disse ele. "Não precisamos transformar o almoço em uma discussão."
Era uma proposta sensata, vinda do homem que sempre precisava de calma quando o assunto era devolver o que não lhe pertencia.
Clara tomou um gole de água.
O convidado de Beatriz não havia dito nada. Estava recostado na cadeira, grande demais para parecer confortável, observando a mesa com um interesse que lhe deu vontade de ajustar o decote.
Ela percebeu que Henrique mal tocara na comida.
"Você não gostou?"
"Está ótimo."
Clara ofereceu-lhe a travessa. Ele recusou. Ela recolheu discretamente uma migalha da manga dele.
Quando levantou os olhos, encontrou Davi olhando para sua mão.
Dessa vez, ele sorriu.
O sorriso a incomodou sem que soubesse por quê.
"E a casa?", perguntou Lúcia. "A documentação já está no nome dela?"
Henrique pousou os talheres.
"O apartamento já está com tudo encaminhado. Clara acompanhou a reforma."
"Encaminhado é diferente de pronto."
"Tia", interrompeu Clara.
"Estou perguntando por você. Você nunca pergunta nada."
Aquilo não era verdade. Clara perguntava. Só aprendera a fazê-lo quando as respostas não pudessem ser gritadas na frente dos outros.
Beatriz tocou seu braço sob a mesa, pedindo paciência. Clara apertou os dedos da prima. Crescera chamando-a de irmã. Nas lembranças mais antigas, Beatriz estava sempre entre ela e alguma coisa ruim.
Aquele contato lhe deu coragem.
Clara abriu a bolsa e retirou uma pasta fina.
"Já que estamos falando de documentação, também trouxe a da Rua das Rosas."
O ruído à mesa diminuiu.
Mauro largou o guardanapo.
A Rua das Rosas era uma fileira de sobrados antigos perto do rio, com lojas no térreo e apartamentos vazios em cima. Seus pais haviam comprado parte dos imóveis antes de desaparecerem num acidente, quando Clara tinha seis anos.
Desde então, os aluguéis passavam pelas mãos dos tios.
O dinheiro deveria mantê-la. Nos dois últimos anos de faculdade, ela sobrevivera fazendo desenhos e trabalhos para outros alunos. Ainda devia parcelas do acordo financeiro com a instituição.
"Não é hora disso", disse Mauro.
Clara manteve a pasta aberta.
"Quando fiz dezoito anos, vocês disseram que resolveriam quando eu terminasse a faculdade. Depois, que seria quando eu casasse. Estou terminando a regularização dos documentos e vou casar. Achei que poderíamos começar."
"Você fala como se alguém tivesse roubado alguma coisa."
"Estou falando de organizar."
A voz dela saiu mais firme do que esperava.
Explicou que poderia fazer um levantamento dos imóveis, avaliar pequenos reparos e melhorar a ocupação das lojas. Não queria deixar a família sem ajuda. Queria saber quanto entrava, quanto saía e o que era seu.
Lúcia empurrou a cadeira.
"Então agora vai cobrar a comida que comeu?"
Clara sentiu a pergunta como uma mão fechando em sua garganta.
Alguns parentes começaram a falar ao mesmo tempo. Criar criança custava dinheiro. Faculdade custava dinheiro. Gratidão não se aprendia na universidade.
Henrique pegou sua mão debaixo da mesa.
Por um instante, ela acreditou que ele a defenderia.
"Clara", disse ele, baixo. "Eu já falei que você não precisa desse dinheiro."
Ela olhou para o homem com quem planejava dividir a vida.
"Não é só dinheiro. Era a casa dos meus pais."
"Você está constrangendo todo mundo por causa de umas lojas caindo aos pedaços."
A frase atravessou o barulho.
Clara retirou a mão.
Henrique percebeu que tinha sido ouvido. Levantou-se, ajeitou o paletó e disse que conversariam quando ela estivesse mais tranquila.
Foi embora sem perguntar como ela voltaria para casa.
Os parentes começaram a sair pouco depois. Lúcia levou Beatriz para ajudar com um assunto que não explicou. Mauro desapareceu quando o garçom se aproximou com a conta.
Clara ficou sentada diante da pasta aberta.
Demorou alguns minutos para parar de tremer. Depois guardou os papéis e entregou o cartão de crédito ao garçom.
Ele voltou sem a máquina.
"O senhor Monteiro pediu que encerrássemos por conta da casa."
"Não precisa. Eu pago."
"Não precisa mesmo."
A voz veio do outro lado da mesa.
Clara ergueu o rosto.
Davi tirou os óculos devagar. Atrás dele, Vicente apareceu à porta, com as mangas arregaçadas e as mesmas tatuagens daquela madrugada.
A lembrança encaixou inteira.
O asfalto. O sangue. A arma nas costas.
Ela se levantou tão depressa que a cadeira bateu na parede.
Davi também se ergueu.
"Agora lembrou de mim, Clara?"
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