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"Nos Braços do Homem que Eu Devia Temer." Capítulo 2

正文开头

A dívida

A porta verde dava para um consultório pequeno, com duas cadeiras de plástico, um ventilador desligado e um crucifixo acima da mesa.

Um senhor de cabelos brancos apareceu no corredor, vestindo uma camisa aberta sobre a camiseta.

"Outra vez, Davi?"

O homem ferido tirou o braço dos ombros de Vicente.

"Saudade do senhor."

"Da minha conta também? Porque continua sem pagar a última."

"Manda para o Rafael."

O médico o conduziu para trás de uma cortina. Vicente permaneceu junto à porta, enquanto os outros homens olhavam a rua.

Clara abraçou o próprio corpo. Estava encharcada, tremendo, com sangue seco entre os dedos. A luz branca do consultório tornava tudo ainda menos real.

"Eu posso ir embora?"

Vicente olhou para a cortina.

"Um minuto."

"Isso não é uma resposta."

Do outro lado, alguma coisa metálica caiu numa bandeja.

"Augusto, pelo amor de Deus", resmungou Davi.

"Fica quieto."

"É fácil falar quando o buraco é nos outros."

O médico pediu uma toalha, depois uma embalagem que Vicente buscou numa gaveta. Clara acompanhou os movimentos, tentando entender que tipo de consultório mantinha tudo pronto para receber homens baleados de madrugada.

A cortina se mexeu.

"A moça ainda está aí?", perguntou Davi.

"Estou", respondeu ela, antes que Vicente pudesse falar. "E quero ir embora."

"Vem aqui."

"Você perdeu o direito de me dar ordens quando apontou uma arma para mim."

O consultório ficou quieto.

Vicente levantou as sobrancelhas.

Clara sentiu o medo voltar ao perceber o que tinha dito. Mas estava cansada demais para engolir as palavras.

A cortina abriu alguns centímetros.

Davi permanecia deitado na maca, com a camisa afastada e um curativo firme sobre a ferida. Sem o tecido escuro, o tamanho dele se tornava ainda mais evidente. Havia cicatrizes antigas no peito e no ombro. Nenhuma parecia pequena.

Ele estava pálido, mas seus olhos não haviam perdido a atenção.

"Augusto precisa ver você antes."

"Eu não levei um tiro."

"Está tremendo."

"De raiva."

"Também."

O médico aproximou-se, encostou dois dedos no pulso dela e pediu que se sentasse.

Clara permaneceu em pé.

"Seu nome?", perguntou ele.

"Clara."

"Clara, você está muito fria. Vamos tirar essa roupa molhada, arrumar alguma coisa seca e ver essa pressão."

"Eu tenho roupa na mala."

"Vicente busca."

"Eu busco."

Davi tentou se sentar e recebeu uma repreensão do médico.

"Moça, a chave fica com você", disse ele. "Vicente leva a mala para dentro, você pega suas coisas e entra sozinha no banheiro. Ninguém vai incomodar."

Ela não gostou de precisar daquela garantia. Gostou menos ainda de aceitá-la.

Vicente buscou a pequena mala de roupas que Clara trouxera de Belo Horizonte. Deixou-a a seus pés e se afastou, mostrando as mãos vazias.

"Está tudo aí. Não mexi."

Clara abriu o zíper, encontrou uma calça de moletom e uma blusa de manga comprida. O alívio foi tão forte que quase começou a chorar outra vez.

Foi ao banheiro, trancou a porta e apoiou as duas mãos na pia.

正文1

Havia sangue sob suas unhas.

Lavou uma vez. Duas. Na terceira, percebeu que estava esfregando a pele até machucar.

Parou.

Precisava trocar de roupa, voltar ao carro e ir para casa. Na segunda-feira, começaria a trabalhar. Havia formulários na mala. Um exame admissional. Uma vida inteira de problemas que, poucas horas antes, pareciam grandes demais.

Agora ela só queria atravessar aquela porta.

Quando saiu, o médico lhe ofereceu uma cadeira e uma xícara de chá. Mediu sua temperatura e franziu a testa.

"Você já estava adoecendo antes disso?"

"Só cansada."

"Há quanto tempo está dirigindo?"

"Desde o começo da noite."

"E comeu?"

Clara pensou no pão de queijo comprado num posto. Tinha dado duas mordidas.

"Um pouco."

Davi fechou os olhos por um instante.

"Vicente, arruma alguma coisa para ela."

"Não preciso de comida. Preciso ir embora."

"Seu carro está sendo limpo."

Ela se levantou tão depressa que o chão se moveu.

"Quem autorizou?"

"O banco ficou cheio de sangue."

"Eu sei. Fui eu que levei você."

"E eu estou mandando limpar."

Clara voltou a se sentar antes que as pernas falhassem. A irritação dele parecia funcionar de um jeito absurdo: ordenava coisas que deveriam ajudar, como se a ajuda desse o direito de decidir tudo.

"Você pode perguntar", disse ela.

Davi virou o rosto.

"O quê?"

"Antes de fazer coisas com o que é meu. Você pode perguntar."

Ele passou a língua pelo lábio ressecado. Parecia prestes a responder alguma coisa desagradável. Em vez disso, olhou para Vicente.

"Ninguém mexe em mais nada."

Clara soltou o ar.

O médico lhe entregou uma garrafa de água e um comprimido para a febre, explicando o que estava oferecendo. Ela tomou e voltou a encostar a cabeça na parede.

"A família sabe que você está aqui?", perguntou Augusto.

Ela pensou em tia Lúcia jogando cartas, em Beatriz saindo do trabalho, em Henrique ligando porque talvez tivesse encontrado tempo entre duas reuniões.

"Ainda não."

"Quer telefonar?"

Clara procurou o aparelho. A bateria havia acabado.

Davi apontou um carregador sobre a mesa.

Ela conectou o celular. Enquanto esperava, observou a manta rosa dobrada numa cadeira. Estava manchada de sangue. Lembrava-se de comprá-la numa promoção, com o dinheiro que sobrara de um desenho técnico feito para uma colega.

Não deveria sentir vontade de chorar por uma manta.

Mas sentiu.

"Eu compro outra", disse Davi.

Clara olhou para ele.

"Você acha que tudo pode ser resolvido comprando outra coisa?"

Ele não respondeu imediatamente.

"Essa, pode."

A sinceridade grosseira a pegou desprevenida.

"Era boa", murmurou.

"Eu compro uma boa."

"Rosa."

"Está bem. Rosa."

O médico retornou com um prato pequeno. Pão, queijo e uma banana. Clara comeu porque ele ficou esperando, e porque a primeira mordida revelou uma fome que não sentia havia horas.

Davi permaneceu em silêncio.

Sem as provocações, parecia mais jovem. Não menos perigoso. Só cansado.

Clara quis perguntar de quem estava fugindo. Não perguntou. Havia perguntas que ligavam uma pessoa a uma história, e ela desejava sair daquela o mais depressa possível.

Quando tentou levantar novamente, o consultório perdeu o contorno.

Augusto disse seu nome.

Ela tentou responder que estava tudo bem.

A última coisa que ouviu foi uma cadeira sendo arrastada e a voz de Davi, de repente muito perto.

"Clara. Olha para mim."

Acordou com a claridade entrando por uma fresta da persiana.

Estava na maca, coberta por um lençol limpo. Vestia suas próprias roupas secas. O celular carregado repousava ao lado da bolsa.

Augusto estava à mesa, preenchendo um papel.

"Você desmaiou. A febre subiu. Melhorou depois, mas precisa descansar."

Clara se sentou devagar.

"E ele?"

"Foi embora."

Ela olhou para a cadeira vazia.

No lugar da manta manchada, havia uma nova, ainda com a etiqueta.

Rosa.

Augusto lhe entregou as chaves do carro.

"Ele mandou dizer que lembra."

Clara apertou o chaveiro na palma.

A dívida continuava existindo. Ela só esperava nunca precisar cobrá-la.

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