localização atual: Novela Mágica Nos Braços do Homem que Eu Devia Temer. Capítulo 1
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"Nos Braços do Homem que Eu Devia Temer." Capítulo 1

正文开头

O homem na chuva

O homem estava deitado no meio da estrada, e Clara pisou no freio com tanta força que o cinto lhe cortou o peito.

O carro parou antes de alcançá-lo. Por muito pouco.

Durante alguns segundos, ela só ouviu a chuva no teto e a própria respiração. Depois os faróis iluminaram uma mão aberta sobre o asfalto. A água passava pelos dedos, levando alguma coisa vermelha.

Sangue.

Clara desligou o motor, procurou o celular e tornou a olhar para a estrada vazia. Havia acabado de passar por uma barreira policial. Um agente a mandara seguir pelo desvio por causa de um deslizamento. Outros homens subiam o morro com lanternas.

Talvez estivessem procurando aquele homem.

Talvez fosse justamente por isso que ela devesse permanecer dentro do carro.

A mão se mexeu.

Ela abriu a porta.

A chuva atravessou sua blusa antes que chegasse à frente do veículo. Ajoelhou no asfalto e afastou os cabelos que cobriam a testa dele. Era um homem grande, de camisa preta e calça social, encharcado dos ombros aos sapatos. A pele tinha uma palidez que não combinava com o rosto forte.

"Você está me ouvindo?"

Nenhuma resposta.

Ela limpou a água da boca dele com a manga. Aproximou o rosto para verificar a respiração e sentiu um sopro fraco contra a bochecha.

"Está vivo. Certo. Você está vivo."

Dizer em voz alta ajudou a organizar o que precisava fazer. O telefone estava no carro. Voltaria, chamaria socorro, daria a localização pelo mapa.

Quando tentou levantar, uma mão fechou em seu tornozelo.

Clara soltou um grito.

Os olhos dele se abriram apenas o suficiente para encontrá-la. Eram escuros, atentos de um jeito incompatível com o resto do corpo.

"Não vai."

"Vou chamar uma ambulância."

Ele tentou dizer outra coisa. A chuva entrou em sua boca, e a frase terminou numa tosse que pareceu rasgá-lo por dentro.

Clara voltou a se agachar.

"Eu não vou deixar você aqui. Mas preciso buscar o telefone."

Ele soltou seu tornozelo, pegou sua mão e a levou ao lado direito do abdômen.

O calor a assustou mais que a água gelada.

A camisa estava rasgada. Sob o tecido, havia uma ferida de onde o sangue continuava saindo. Clara não sabia distinguir um tiro de outro tipo de lesão. Sabia apenas que não havia tempo para ficar olhando.

Pressionou a mão contra o ferimento.

"Consegue levantar? Eu não consigo carregar você."

O homem tentou apoiar o cotovelo e perdeu as forças. Ela passou um braço por trás de suas costas.

"Devagar. Eu conto até três."

Ele ergueu os olhos para ela.

"Você é médica?"

"Arquiteta. Não ajuda muito agora, eu sei."

Por um instante, a boca dele se curvou. Um quase sorriso. Em seguida, o peso veio sobre ela, e Clara teve certeza de que ambos cairiam.

Mas ele encontrou apoio no capô e conseguiu ficar em pé.

O trajeto até a porta traseira pareceu maior que a estrada inteira. Ela abriu o carro, ajudou-o a entrar e puxou do banco da frente uma manta rosa que usava nas viagens a Belo Horizonte.

正文1

"Segura aqui. Forte."

Colocou a mão dele sobre a ferida e cobriu suas pernas.

Já no volante, aumentou o aquecimento. O painel marcava quase duas da manhã. Em Santa Aurora, o pronto atendimento municipal continuava funcionando. Ela conhecia a entrada de emergência.

"Vamos chegar em quinze minutos."

Nenhuma resposta.

Clara olhou pelo retrovisor.

Ele estava com a cabeça apoiada no encosto e os olhos fechados.

"Não dorme."

"Tenta dirigir."

A voz saiu baixa, áspera.

Ela apertou o volante.

"É o que estou fazendo."

Os limpadores trabalhavam na velocidade máxima, sem conseguir vencer a água. Clara reduziu numa curva. O homem inspirou entre os dentes quando o carro passou por um buraco.

"Desculpa."

"Não foi você que abriu o buraco."

Era uma observação tão seca que quase a fez rir. Quase.

Ela continuou falando para ter certeza de que ele permanecia acordado. Perguntou o nome. Ele não respondeu. Perguntou se havia alguém para quem pudesse ligar. Também não respondeu.

"Você pode pelo menos dizer alguma coisa de vez em quando?"

Uma garrafa de água fez barulho no banco.

"Alguma coisa."

Clara o encarou pelo espelho.

"Engraçadinho."

Agora ele estava olhando para ela. Não sorriu. Mesmo assim, Clara teve a impressão de que se divertia com seu nervosismo.

As primeiras casas apareceram depois da curva do rio. A cidade dormia atrás das portas de ferro das lojas. Mais adiante, a placa luminosa da unidade de emergência recortava a chuva.

Clara soltou o ar.

"Chegamos."

Virou o volante para entrar no estacionamento.

Uma coisa dura encostou em suas costas.

Fina. Fria. Exatamente entre o banco e a cintura.

Ela ficou imóvel.

No retrovisor, encontrou o rosto dele muito perto de seu ombro.

"Continua."

Não precisava perguntar o que era. Talvez devesse. Talvez houvesse alguma explicação que não envolvesse uma arma apontada para ela.

Mas a expressão dele acabou com essa possibilidade.

"Você precisa de um hospital."

"Eu sei do que preciso. Continua."

Clara corrigiu a direção. O carro passou pela entrada iluminada e seguiu pela rua escura.

O medo chegou inteiro, atrasado, enchendo o espaço que a urgência de salvá-lo havia ocupado. Ela sentiu os olhos arderem e se odiou por isso.

"Eu parei para ajudar você."

"Eu percebi."

"Então tira isso das minhas costas."

Ele demorou um segundo. Depois se afastou.

O alívio não foi suficiente para fazê-la respirar direito.

"Na próxima esquina, à direita."

Clara obedeceu. Queria decorar o caminho, a voz, o rosto, tudo que pudesse dizer à polícia quando aquilo terminasse.

Ele percebeu o olhar pelo espelho.

"Vai fazer meu retrato?"

"Estou tentando descobrir se você tem alguma vergonha."

A boca dele tornou a se curvar.

"Hoje não foi meu melhor dia."

Uma lágrima caiu antes que ela pudesse impedir. Clara a limpou com raiva, mantendo o carro na rua estreita indicada por ele.

"Você me deve uma vida."

Dessa vez, o homem ficou sério.

Ela não desviou os olhos do retrovisor.

"A sua", acrescentou. "Espero que lembre."

Ele a observou por tempo suficiente para deixá-la desconfortável.

"Vou lembrar."

O telefone vibrou no console. Na tela, surgiu o nome de Henrique.

Clara estendeu a mão por reflexo.

"Agora não", disse o homem.

Ela recolheu os dedos.

O celular continuou vibrando enquanto atravessavam a ponte. Do outro lado do rio, ele apontou uma porta verde entre uma oficina fechada e uma padaria.

"Ali."

Antes que Clara estacionasse, dois carros saíram da escuridão e pararam atrás dela.

Quatro homens desceram.

Um deles abriu sua porta.

"Está tudo bem, moça."

Clara olhou para os braços cobertos de tatuagens, para o tamanho dele, para os outros esperando junto à calçada.

Nada estava bem.

No banco de trás, o homem ferido se inclinou para a frente.

"Ninguém encosta nela, Vicente."

A ordem foi baixa. O homem da porta recuou imediatamente.

Clara deveria ter ficado aliviada.

Em vez disso, compreendeu que tinha salvado alguém de quem aqueles homens também tinham medo.

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