"Casamento às Pressas: A Esposa que Desarmou o CEO." Capítulo 4
Finja que eu não existo
"Ótimo", disse Marina. "Porque eu também não estava procurando um marido como você."
Rafael ficou imóvel.
Ela passou por ele, tirou uma manta do sofá e a colocou sobre o encosto.
"Você quer saber o que sua mãe prometeu? O tratamento da minha mãe. É por isso que estou aqui. Não para dormir com você, não para desfilar seu sobrenome e muito menos para substituir alguém que mentiu para você."
"Marina..."
"Não. Você falou. Agora me escuta. Eu não conhecia aquela mulher. Não sabia da gravidez. Não ajudei sua mãe a montar aquilo. Você tem motivos para estar com raiva, mas eu não sou um deles."
O silêncio veio pesado.
Marina apontou para o sofá.
"Eu fico aqui. Você fica com a cama. Durante o dia, finja que eu não existo. Vai ser fácil, pelo jeito."
Ele olhou para a manta, depois para ela.
"Você fala assim com todo mundo?"
"Só com quem acha que pode me ofender antes de me conhecer."
A boca de Rafael se apertou.
Marina esperou uma nova acusação. Não veio.
Ele pegou roupas no armário e entrou no banheiro, fechando a porta com força suficiente para fazer uma das taças vibrar na mesa.
Ela fechou os olhos.
Tinham passado poucas horas desde o altar. Parecia que já vivia naquele quarto havia um ano.
Marina puxou o sofá alguns centímetros, afastando-o da cama. Procurou um travesseiro e encontrou dois numa prateleira. Pegou apenas um.
Depois, enviou uma mensagem a Orlando perguntando pela bolsa.
Ele respondeu que a entregaria cedo. Pediu desculpas pela confusão.
Confusão era uma palavra pequena demais para aquele dia.
Marina deitou de lado, puxando a manta até os ombros. Não deixaria Rafael vê-la chorar. Se a vontade fosse mais forte, choraria virada para a janela.
Mas o cansaço chegou antes.
A última coisa que ouviu foi a água do chuveiro.
Quando acordou, havia uma marca da costura da almofada em sua bochecha e uma faixa de sol sobre seus pés.
A cama estava vazia.
Sobre a cadeira, sua bolsa.
Marina se sentou devagar e passou a mão no rosto. Dentro da bolsa estavam o carregador, o nécessaire, uma camiseta limpa e a pequena carteira onde guardava a fotografia dos pais.
Retirou a foto.
O pai tinha os olhos fechados no instante em que a imagem fora feita. Ela reclamara disso, e ele dissera que homem bonito não precisava estar olhando para a câmera.
Marina sorriu sem querer.
Depois, guardou a fotografia antes que a saudade se transformasse em outra coisa.
No andar de baixo, uma mesa estava posta diante das portas do jardim.
Helena se levantou ao vê-la.
"Bom dia, querida. Dormiu bem?"
Marina demorou a responder.
"Dormir, eu dormi."
Rafael ergueu os olhos do celular.
Ela ignorou o movimento e se sentou no lugar indicado por Helena.
"Quer café? Suco? Você costuma comer o quê?"
"Café está ótimo."
"Só café não. Você mal comeu ontem."
Helena colocou um pão de queijo em seu prato, acompanhando com uma expressão tão preocupada que Marina não soube como recusar.
Augusto baixou o jornal.
"Precisou avisar alguém sobre onde está?"
"Avisei o hospital."
"Se precisar de alguma coisa para sua mãe, fale conosco."
Marina assentiu.
Queria agradecer sem parecer que tudo o que acontecera estava resolvido. As duas coisas ainda não cabiam na mesma frase.
Tomás chegou correndo, de pijama, e segurou sua perna.
"Você ficou!"
Ela olhou para baixo.
"Fiquei."
"Mamãe falou que agora você é minha tia."
Marina colocou a mão entre a testa dele e a quina da mesa.
"Então a tia pede para você não bater a cabeça aqui."
Beatriz apareceu logo atrás, prendendo o cabelo.
"Desculpa. Ele acordou perguntando pela princesa nova."
"Não precisa pedir desculpa."
Tomás estendeu um carrinho vermelho.
"Pode segurar. Mas não pode perder."
Marina pegou o brinquedo com a seriedade que ele parecia esperar.
"Uma responsabilidade enorme."
O menino assentiu, satisfeito.
Por cima de sua cabeça, Marina encontrou o olhar de Rafael.
Ele tinha a xícara na mão. Não parecia mais raivoso, mas continuava difícil de ler.
Ela voltou ao café.
"Eu vou sair daqui a pouco", disse a Helena. "Preciso passar na delegacia e depois no hospital."
"Orlando organiza um carro."
"Não precisa."
"Marina."
A voz de Helena não era dura, apenas firme.
"Você não precisa recusar tudo para provar alguma coisa."
A frase acertou um lugar delicado.
Marina baixou o carrinho sobre a mesa, com cuidado.
"Eu só não estou acostumada."
Helena tocou seu braço.
"Vai ter tempo para se acostumar."
O telefone de Rafael vibrou. Ele se levantou e saiu da sala antes que Marina descobrisse como responder à mãe dele.
Tomás reclamou porque queria o carrinho de volta.
Marina o entregou.
Na delegacia, o cenário era bem diferente da casa.
Uma máquina de café fazia um ruído contínuo, alguém discutia ao telefone, e a cadeira diante do investigador estava com o estofado rasgado numa lateral.
Marina segurou a alça da bolsa no colo.
"Conseguiram encontrar o carro?"
O investigador consultou a tela.
"Ainda estamos cruzando as informações da região. A câmera mais próxima não mostra o trecho completo."
"Mas alguém deve ter visto. Era uma avenida."
"Foi de madrugada, num ponto com pouco movimento. Estamos buscando testemunhas."
Ela assentiu, tentando conter a impaciência.
O pai estava morto. A mãe não acordava. Cada resposta que começava com "estamos" parecia mandar que ela esperasse mais um dia que não sabia como atravessar.
O investigador apoiou os braços na mesa.
"A senhora Lúcia pode ajudar quando tiver condições de falar."
"Ela não acordou ainda."
"Eu sei. Não estamos pedindo isso agora."
Marina olhou para o chão.
"Desculpa."
"Não precisa se desculpar."
Ele esperou um momento.
"Há sinais no local que não combinam perfeitamente com uma colisão simples. Não vou afirmar nada antes da perícia terminar, mas precisamos considerar que possa ter sido intencional."
Marina ergueu a cabeça.
"Intencional?"
"É uma possibilidade em investigação."
"Alguém teria feito aquilo de propósito?"
O investigador não respondeu com uma certeza que não possuía.
Ela agradeceu, saiu e ficou na calçada sem conseguir chamar o carro.
No hospital, o cheiro de antisséptico a fez voltar a respirar normalmente. Era horrível descobrir que um lugar podia se tornar familiar por causa de uma tragédia.
Marina lavou as mãos, cumprimentou a enfermeira e sentou ao lado da mãe.
Lúcia tinha o cabelo penteado para trás. Uma pequena mecha branca, perto da têmpora, parecia ter surgido de uma vez.
Marina pegou sua mão.
"Eu vim, mãe."
O anel novo encostou nos dedos imóveis.
Ela o girou para dentro da palma, sem saber por quê.
"A senhora ia reclamar desse vestido. Diria que eu precisava experimentar mais opções."
Seu sorriso se desfez.
Marina inclinou o rosto sobre a mão da mãe.
"Eu casei. De um jeito esquisito, mas casei. Você vai poder continuar o tratamento. Não precisa se preocupar com isso."
Uma máquina apitou num ritmo que ela já conhecia.
Marina apertou os dedos de Lúcia.
"Agora só falta acordar. Depois você briga comigo. Pode brigar bastante. Eu deixo."
A porta se abriu devagar.
Dr. Caio entrou, segurando uma prancheta.
Ela enxugou o rosto antes de olhar para ele.
"Aconteceu alguma coisa?"
"Vim ver como você está."
Marina pensou na pergunta durante um segundo.
Ninguém sabia responder por ela.
Nem o médico, nem Helena, nem o homem que colocara a aliança em seu dedo.
"Me disseram que talvez não tenha sido um acidente", respondeu.
Caio puxou outra cadeira.
Marina voltou os olhos para a mãe.
"Se alguém fez isso de propósito, ela pode saber quem foi."
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