"Casamento às Pressas: A Esposa que Desarmou o CEO." Capítulo 3
Uma esposa que ele não queria
A mão de Rafael estava fria.
Marina esperara o contrário. Um homem daquele tamanho, com tanta raiva contida, deveria ter calor suficiente para queimar a própria palma.
Ele a conduziu até o altar sem apertar seus dedos.
Helena fez um sinal ao responsável pela cerimônia. Houve uma conversa baixa, uma pausa, páginas sendo separadas sobre uma pequena mesa.
"A será encaminhada corretamente", explicou a mãe de Rafael aos dois. "Hoje ninguém precisa assinar nada que não tenha lido. Podemos ficar apenas com a celebração e resolver o restante depois."
Marina assentiu.
Aquelas palavras deveriam tê-la tranquilizado. Em vez disso, lembraram que seu vestido estava pronto antes que sua vida estivesse.
O celebrante perguntou se queriam prosseguir.
Rafael respondeu primeiro.
"Sim."
Marina olhou para ele.
Não sabia o que o fizera aceitar. Orgulho, raiva, a insistência da família. A pergunta ficaria com ela por muito tempo, embora naquele instante precisasse responder à sua própria.
"Sim."
As palavras sobre companheirismo soaram estranhas.
Ela fixou os olhos nas flores do corredor, tentando não pensar em como sua mãe gostaria de vê-la ali. Lúcia teria corrigido uma dobra do véu, ajeitado o brinco e chorado antes mesmo de a música começar.
O pai reclamaria do preço do salão.
Depois, seguraria a mão dela até o último segundo.
Marina engoliu o nó da garganta.
Rafael percebeu o movimento. Seu olhar passou pelo rosto dela, mas voltou imediatamente ao celebrante.
Quando chegou o momento das alianças, Helena entregou a ele uma pequena caixa diferente da que estivera sobre a mesa.
Marina viu uma aliança simples, de acabamento delicado.
Gostou do desenho antes que pudesse evitar.
Uma parte absurdamente profissional de sua cabeça avaliou a espessura do aro e a polidez do metal.
Era mais fácil observar uma joia do que compreender aquele casamento.
Rafael pegou sua mão.
Ela estremeceu.
"Está apertada?", ele perguntou baixo, ao perceber que o anel encontrara resistência.
"Não. Minha mão só está..."
Tremendo.
Não terminou.
Ele ajustou a aliança com um movimento cuidadoso. Marina olhou para sua boca, surpresa pela pergunta, e desviou depressa.
Uma preocupação com o tamanho do anel não significava preocupação com ela.
Precisava lembrar disso.
Ao fim da cerimônia, houve um beijo breve na lateral de seu rosto. A barba de Rafael raspou sua pele, deixando uma sensação que permaneceu depois de ele se afastar.
Os convidados aplaudiram.
A mesma gente que assistira a uma noiva sair agora sorria para outra.
Marina descobriu que famílias ricas também tinham uma habilidade impressionante para fingir que nada fora do lugar acontecera.
Na recepção, uma mulher beijou suas duas faces e apresentou-se.
"Beatriz. Irmã do seu..."
Ela hesitou, olhando para Rafael a alguns passos dali.
"Irmã do Rafael", corrigiu, com um sorriso menos ensaiado. "Você conseguiu comer alguma coisa?"
Marina negou.
"Então vamos começar pelo que importa."
Beatriz a levou até uma mesa lateral e lhe entregou um prato com pequenos sanduíches.
"Coma antes que minha mãe mande você tirar mais fotografias."
Marina segurou o prato como se tivesse recebido um presente.
"Obrigada."
O menino de antes apareceu, agarrado à saia da mãe.
"Você vai morar com a vovó?"
"Tomás, deixa ela comer."
Marina se abaixou um pouco.
"Acho que sim."
"Então pode ver meus carrinhos. Mas o vermelho não pode quebrar."
"Vou tentar me comportar."
Ele pareceu satisfeito e correu de volta para uma cadeira.
Pela primeira vez naquele dia, Marina sorriu sem esforço.
Quando levantou o rosto, Rafael estava olhando.
O sorriso morreu um pouco antes que ela quisesse.
Ele se virou para um homem de terno, e Marina voltou ao sanduíche.
Depois vieram cumprimentos, fotografias e perguntas que ela respondeu sem revelar nada além do necessário. Onde se conheceram? Há quanto tempo estavam juntos? Por que ninguém soubera antes?
Helena respondia com uma facilidade que a incomodava.
"Foi tudo muito rápido."
Nisso, pelo menos, não havia mentira.
Ao entardecer, Marina finalmente entrou no carro.
Rafael não foi com ela.
Orlando explicou que ele precisaria permanecer para resolver alguns assuntos. Marina não perguntou quais. Havia uma mulher que saíra chorando, convidados tentando comentar, uma família inteira remendando o dia.
Só não sabia por que ela também precisava fazer parte do remendo.
Durante o caminho, ligou para o hospital.
Uma enfermeira lhe contou que a mãe permanecia estável. Não acordara, mas as providências para a avaliação seguinte estavam confirmadas.
Marina apoiou a testa no vidro.
"Diz que eu vou amanhã?"
"Digo, sim."
Ela encerrou a ligação e apertou a aliança com o polegar.
Não se arrependeria de salvar a mãe.
Mesmo que se arrependesse de todo o resto.
A residência dos Montenegro ficava num condomínio fechado, afastada do trânsito que Marina conhecia. O jardim tinha caminhos iluminados, roseiras em canteiros elevados e um balanço sob uma árvore antiga.
Helena não exagerara sobre gostar de flores.
Uma funcionária a recebeu na porta e ofereceu ajuda com o vestido.
"Só preciso de um banho", Marina respondeu.
O quarto ficava no andar superior.
Era amplo, com uma cama que parecia grande demais para duas pessoas e um sofá junto às janelas. Havia flores sobre a mesa, taças ainda vazias e caixas fechadas numa bancada.
Marina tocou uma delas sem abrir.
Presentes destinados a outra mulher.
A compreensão tornou o quarto menos acolhedor.
Ela pediu que a funcionária a ajudasse com o fecho do vestido e, assim que ficou sozinha, soltou o cabelo. Os grampos fizeram pequenos ruídos ao cair sobre a penteadeira.
Seus sapatos tinham deixado marcas nos tornozelos.
Tirou-os com alívio e abriu o armário em busca da bolsa que trouxera do hospital.
Não a encontrou.
No lugar, havia peças novas em cabides, todas organizadas por cor.
Na gaveta inferior, camisolas.
Vermelhas, pretas, rendadas. Uma delas tinha tão pouco tecido que Marina a levantou pela alça e imediatamente a devolveu.
"Não, obrigada", murmurou para o armário.
A peça menos ousada era de cetim vinho, com alças reguláveis e uma barra que chegaria perto do joelho. Continuava distante da camiseta velha com que dormia, mas era o que havia.
Marina tomou banho, retirou a maquiagem e ajustou as alças até cobrir o máximo possível.
Ao sair, deu de encontro com alguém.
O impacto foi no peito de Rafael.
Ela segurou o batente para não cair. Ele segurou seu braço.
Por um segundo, a firmeza a ajudou.
No seguinte, o olhar dele desceu para a camisola.
"Eu não ouvi você chegar."
Rafael não respondeu.
Ainda usava a camisa da cerimônia, agora sem gravata. Um dos punhos estava aberto. De perto, Marina percebeu uma pequena marca junto ao maxilar, como se ele tivesse passado a mão ali muitas vezes.
"Minha bolsa não veio", explicou. "Eu peguei o que estava no armário."
Ele soltou uma risada sem humor.
"Claro."
Marina recuou.
"Claro o quê?"
"Você não precisa perder tempo montando uma cena. Minha mãe já conseguiu o que queria."
Ela olhou para a própria roupa, depois para ele.
"Você acha que eu vesti isso por sua causa?"
"Não foi por minha causa que aceitou um casamento com alguém que nunca tinha visto?"
A resposta se prendeu na garganta.
Rafael a soltou, mas continuou perto demais.
"Eu não sei o que minha mãe prometeu. Dinheiro, joias, uma posição dentro da família. Seja o que for, cobre dela. Não de mim."
Marina sentiu o rosto aquecer.
"Você não sabe nada sobre mim."
"Sei que entrou naquele salão vestida de noiva."
"Depois de perguntar por você a manhã inteira."
"E agora está aqui, usando as roupas que outra pessoa deixou."
Ela segurou a ponta da camisola, odiando perceber que suas mãos voltavam a tremer.
"Eu precisava tomar banho. Só isso."
Rafael inclinou a cabeça, descrente.
O homem que acabara de lhe colocar uma aliança parecia disposto a usar aquela aliança para torná-la menor.
"Não confunda o que aconteceu hoje com uma oportunidade de entrar na minha vida", ele disse. "Você não é minha escolha. E não pense que eu vou desejar você só porque decidiu dormir no meu quarto."
Marina ergueu os olhos.
Ele sustentou seu olhar.
"Esse lugar não faz de você alguém que eu queira. Você não é o que eu procuro numa esposa."
A dor veio primeiro.
Logo atrás, a raiva.
Marina soltou a barra da camisola e endireitou as costas.
Rafael ainda não sabia, mas tinha acabado de perder a última chance de vê-la baixar a cabeça naquela noite.
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