"Casamento às Pressas: A Esposa que Desarmou o CEO." Capítulo 2
O filho não era dele
Helena não olhou para Marina ao responder.
"Ela é Marina Duarte. E você deveria estar me perguntando por que eu tentei falar com você desde cedo."
"Não faça isso aqui."
Letícia se adiantou antes que Rafael terminasse a frase.
"Rafa, sua mãe sempre teve alguma coisa contra mim. Eu sabia que ela não estava feliz, mas isso..."
Sua voz falhou. Ela levou a mão ao rosto, cuidadosa para não estragar a maquiagem.
Marina conhecia a vergonha de chorar diante de estranhos. Instintivamente, quase deu outro passo para trás.
Se aquela mulher estivesse realmente sendo substituída sem motivo, ela iria embora.
Tratamento, acordo, sobrenome: nada justificaria permanecer ali.
"Letícia", disse Helena, "você teve oportunidade de contar a verdade ontem. Preferiu vir até o altar."
"Que verdade?"
Augusto se levantou.
"Vamos levar essa conversa para uma sala reservada."
Helena assentiu, mas Letícia recuou.
"Não. Eu não vou sair daqui como se tivesse feito alguma coisa errada."
O silêncio entre os convidados mudou de qualidade. Marina percebeu celulares sendo abaixados e outros escondidos atrás de pequenos arranjos de flores.
Ela apertou o próprio buquê contra o corpo.
Rafael notou um dos aparelhos.
"Guardem os telefones. Agora."
Ninguém discutiu.
Ele voltou para Letícia.
"O que minha mãe está tentando dizer?"
"Você vai acreditar nela antes de me ouvir?"
"Estou perguntando a você."
Letícia abriu a boca, mas Helena ergueu um envelope.
"Eu vi você com Otávio ontem. Quando perguntei por que estavam juntos na clínica, você disse que acompanhava uma amiga. Não havia amiga nenhuma."
Marina viu a mudança no rosto da outra noiva.
Foi rápida. Uma tensão na mandíbula, os dedos apertando o tecido do vestido.
Rafael olhou para o envelope.
"O que é isso?"
"O documento que você deixou na bolsa quando veio experimentar o vestido. E as mensagens que recebeu na mesma hora. Eu não fui procurar uma coisa que não existia. Você estava na minha sala, com o celular aceso sobre a mesa."
Helena entregou as folhas ao filho.
Marina não conseguia ler daquela distância. Viu apenas Rafael permanecer imóvel diante da primeira página e virar a seguinte muito devagar.
"Você está grávida?"
A pergunta pareceu esvaziar o salão.
Letícia avançou.
"Eu ia contar."
"Quando?"
"Depois. Hoje seria o nosso dia. Eu não queria..."
Ele ergueu os olhos.
"Nosso?"
Marina deveria desviar o olhar. Era íntimo demais, mesmo acontecendo diante de tanta gente. Mas havia algo na voz dele que a manteve ali: não apenas raiva, mas uma incredulidade seca, quase contida à força.
Letícia tocou sua mão.
"Um exame não prova o que sua mãe está pensando."
"Não", respondeu Rafael. "Mas você sabe muito bem por que esse filho não pode ser meu."
Letícia soltou os dedos dele.
Marina sentiu o próprio rosto esquentar por estar ouvindo aquilo.
Helena não acrescentou nada. Não precisava.
Rafael voltou à outra página.
"Otávio escreveu que, depois do casamento, vocês não precisariam mais se preocupar com dinheiro. Também perguntou se eu já tinha enviado os documentos do contrato. Que contrato, Letícia?"
"Ele estava brincando."
"Com o nosso casamento?"
"Não era desse jeito."
"Então explique do seu jeito."
A outra noiva olhou ao redor.
Era a primeira vez que parecia enxergar os convidados.
Uma senhora virou o rosto. O médico que Marina reconhecera cruzou os braços, apoiado junto à cadeira. A irmã de Rafael mantinha o menino no colo, distraindo-o com um carrinho.
"Podemos conversar sozinhos?", Letícia pediu.
Rafael entregou as folhas ao pai.
"Agora você quer conversar sozinha."
"Rafa, eu te amo."
Ele deu um passo para trás.
Não gritou. Não fez um discurso.
O afastamento pareceu assustá-la mais do que qualquer ameaça.
"Você vai embora", disse ele. "O carro leva você para onde quiser. Depois, os nossos advogados conversam."
Letícia segurou a lateral do vestido.
"Vai me mandar sair na frente de todo mundo?"
"Você trouxe todo mundo até aqui."
Um homem de terno aproximou-se discretamente. Rafael falou algo ao seu ouvido, e ele se virou para a equipe do salão.
Letícia tentou tocar Rafael outra vez.
Ele retirou o braço.
"Não."
Marina conheceu, naquele segundo, a diferença entre um homem irritado e um homem que já tinha decidido.
Orlando foi acompanhar Letícia. Ninguém a arrastou. Mesmo assim, a forma como os convidados abriam caminho parecia empurrá-la para a porta.
Ela passou por Marina tão perto que a seda de um vestido roçou na do outro.
"Boa sorte", murmurou.
Não soou como um desejo.
A porta se fechou.
Marina percebeu que vinha prendendo a respiração e soltou o ar de uma vez.
Helena chegou até ela.
"Eu sinto muito por você ter visto isso."
"A senhora sabia que eu veria."
Helena não tentou negar.
"Queria ter resolvido antes."
"E por que não me contou?"
"Porque achei que, se soubesse, você recusaria."
A sinceridade atingiu Marina com mais força do que uma desculpa.
Ela afrouxou os dedos no buquê.
"Eu teria merecido escolher sabendo de tudo."
"Sim", disse Helena, depois de um instante. "Teria."
Rafael se aproximou.
Marina não precisou levantar muito a cabeça para notar como ele era alto. Também não precisou de palavras para entender que a raiva não tinha desaparecido com Letícia.
"Vocês combinaram isso quando?"
"Hoje de manhã", respondeu Marina.
Ele a examinou, do véu aos sapatos.
"Em poucas horas. Impressionante."
Ela ouviu a acusação por baixo.
"Eu não sabia que você tinha outra noiva."
"Mas sabia quem eu era."
"Sim."
"E isso foi suficiente?"
Marina sentiu vontade de jogar o buquê nele.
Não o fez. Apertou as hastes com tanta força que uma ponta dura marcou sua palma.
"Não foi o seu rosto na revista que me trouxe aqui."
Helena tentou intervir, mas Rafael ergueu a mão.
Marina esperou.
Se ele queria que ela fosse embora, teria de dizer.
Não aceitaria continuar sendo movida de um lado para outro como um arranjo decorativo que chegara na hora errada.
Rafael olhou para a mãe.
"Quero falar com você depois. Sem plateia."
"Claro."
Ele voltou a Marina.
"Você entende que isso não é uma história de amor?"
A humilhação veio quente, mas sua resposta permaneceu firme.
"Entendo melhor do que você imagina."
"E ainda quer continuar?"
Ela lembrou a mão fria da mãe, a aliança do pai devolvida num envelope, a casa vazia que já não podia manter.
Lembrou também a promessa escrita no acordo.
"Quero que a minha decisão seja respeitada. Se a sua é não continuar, diga. Eu não vou obrigar você."
Rafael ficou em silêncio.
Ao redor, as pessoas pareciam ter parado de se mover.
Ele tirou o botão do paletó do lugar, tornou a fechá-lo e olhou uma última vez para a porta por onde Letícia saíra.
Quando voltou a encará-la, não havia ternura nenhuma.
Mas estendeu a mão.
"Então venha, Marina."
Ela olhou para os dedos dele, compridos, imóveis, esperando.
O homem não a queria.
Ainda assim, era aquela mão que lhe oferecia um caminho de volta à mãe.
Marina colocou a sua sobre a dele.
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