"O Chefe da Máfia Quase Demitiu a Empregada… Até Sua Filha Dizer: “Papai Matou a Mamãe”" Capítulo 5 — O Segredo de Dona Rosa
A mensagem de Ricardo continuava acesa na tela quando Dante ergueu os olhos para Rosa.
Marina também tinha dúvidas sobre a própria coragem. Enquanto esperava a decisão de Dante, observou as marcas de farinha que ainda restavam na barra do uniforme. Lembrou-se da primeira vez que Maitê sorrira para ela, escondida atrás da mesa. Não fora uma vitória grandiosa. Fora um convite tímido para brincar. Agora, a simples possibilidade de perder aquele vínculo a deixava mais assustada do que a presença dos seguranças. Ela queria respostas sobre o pai, mas já não aceitaria consegui-las ao custo da paz das meninas.
Dante ainda se lembrava da manhã em que Beatriz insistira em levar pessoalmente as meninas à escola. Ele oferecera outro carro, mais dois homens e um motorista diferente. Ela rira, dizendo que as filhas precisavam de uma mãe presente, não de uma comitiva. Aquela lembrança sempre terminava no mesmo ponto: a culpa por não ter insistido.
Rosa percebeu para onde o pensamento dele caminhava.
“Beatriz não morreu porque quis ser mãe, Dante. Quem armou aquilo é responsável pelo que aconteceu.”
“Eu construí um mundo em que alguém achou possível atacá-la.”
“Então faça alguma coisa diferente agora. Não deixe que a culpa decida tudo de novo.”
Ele olhou para a porta fechada. Durante meses, as meninas tinham aprendido a distinguir seus passos apressados, sempre indo embora, do passo paciente de Rosa. Se quisesse protegê-las de verdade, teria de começar ficando quando elas precisassem dele, mesmo sem saber o que dizer.
“Você vai me contar tudo. Agora.”
A governanta levou a mão ao peito. Do outro lado do corredor, as meninas estavam na sala com Marina. O som baixo de uma cantiga atravessava a porta entreaberta. Dante fez questão de fechá-la antes de conduzir Rosa ao escritório.
“Não quero que elas ouçam mais uma discussão”, disse.
Era a primeira ordem daquela noite que não soava como ameaça.
Rosa sentou-se na ponta da poltrona. Durante vinte anos, organizara aquela casa, cuidara de Dante quando ele ainda era um rapaz e recebera Beatriz como se fosse filha. Nunca o vira tão perdido.
“Há três meses, uma moça me esperou na saída da missa, em Pinheiros”, começou. “Disse que tinha informações sobre a morte da Beatriz.”
“Marina.”
“Sim. Eu a mandei embora. O sobrenome Vasconcelos me assustou. Ela voltou duas vezes, sempre com os mesmos papéis.”
Rosa tirou do bolso um envelope dobrado. Dante não tocou nele.
“Por que guardou isso?”
“Porque uma das datas estava certa. No dia do ataque, Beatriz me telefonou antes de sair. Disse que talvez chegasse mais tarde porque o motorista tinha recebido uma mudança de percurso. Eu achei estranho. Ela sempre me avisava quando mudava os planos.”
Dante se lembrava de outra ligação: a última que recebera da esposa, interrompida antes de ele dizer que a amava. Havia passado catorze meses imaginando as palavras que poderiam ter impedido sua morte.
“Você sabia disso e ficou calada?”
“Eu disse à polícia na época. Mas, quando fui prestar o segundo depoimento, me mostraram um relatório afirmando que a mudança fora autorizada por você. Eu não tinha como provar o contrário.”
“Quem lhe mostrou o relatório?”
Rosa apertou as mãos.
“Ricardo.”
Dante caminhou até a janela. Lá fora, as luzes do jardim desenhavam caminhos impecáveis entre as árvores. A propriedade parecia segura. Era exatamente essa aparência que começava a lhe dar medo.
“E Marina? O que queria em troca?”
“Ela queria ver o homem que mandou destruir a família dela. Achava que você havia ordenado tudo. Eu disse que não deixaria uma vingança entrar na casa. Ela respondeu que precisava descobrir quem tinha usado o nome do pai dela para começar aquela guerra.”
“Você acreditou?”
“Não de imediato. Mas vi como ela olhava para as meninas. Não era o olhar de alguém que queria feri-las.”
Dante abriu o envelope. Havia uma cópia de página contábil, uma anotação de horário e um número de conta incompleto. Ao lado de uma transferência, alguém escrevera à mão: rota confirmada, 7h43.
“Isso não prova quem enviou a ordem”, observou.
“Eu sei.”
“Pode ser uma falsificação.”
“Também sei.”
Rosa não tentou defender sua decisão. Aquilo o irritou ainda mais, porque ele precisava de alguém contra quem pudesse descarregar a própria culpa.
Uma batida discreta interrompeu a conversa. Marina apareceu na porta, sem entrar.
“Valentina adormeceu. Luísa quer saber se a senhora Rosa vai voltar.”
Dante fitou o rosto da jovem. Pensou na fotografia de Augusto Vasconcelos, no sangue derramado depois do funeral e em quantas histórias sobre aquela guerra ele nunca permitira que fossem contadas.
“Você me deve a verdade inteira”, disse.
“Eu sei.”
“Por que usou outro sobrenome?”
“Porque o senhor jamais teria me ouvido se eu tivesse dito quem sou.”
“E mentir era a solução?”
“Não. Foi a decisão que tomei quando já não enxergava outra porta.”
Marina entrou e colocou sobre a mesa uma pasta azul, gasta nas bordas.
“Meu pai não era inocente. Não vou fingir que era. Mas, depois que ele morreu, encontrei documentos mostrando pagamentos feitos a pessoas que não trabalhavam para ele. Uma dessas pessoas sabia onde Beatriz estaria naquela manhã.”
“Quem?”
“O nome foi apagado. Só restou um código e a data.”
Dante folheou as páginas. Eram cópias, não originais. O registro podia ser manipulado. Ainda assim, a coincidência com a alteração de rota merecia investigação.
“Por que trazer isso agora?”
“Porque hoje Luísa falou. E porque vi o jeito como ela ficou quando Ricardo apareceu.”
“Não use minhas filhas como prova.”
Marina sustentou o olhar dele.
“Eu não vou fazer isso. Elas precisam de proteção, não de interrogatório.”
O telefone vibrou outra vez. Ricardo insistia em falar. Dante digitou que resolveria o assunto pela manhã. Depois pediu a Rosa que chamasse Bruno, um dos poucos seguranças cuja escala não era organizada diretamente por Ricardo.
“Quero cópias preservadas desses documentos. Nada de apagar registros. Nada de confrontar ninguém.”
Bruno recebeu a ordem com surpresa. Dante acrescentou que a delegada Helena Duarte, responsável pela investigação original, seria procurada discretamente.
Marina soltou o ar que prendia havia minutos.
“Isso significa que acredita em mim?”
“Significa que vou verificar o que você trouxe. Não confunda as duas coisas.”
Ela assentiu. Antes de sair, porém, falou sem elevar a voz:
“Se eu quisesse destruir sua família, teria ido embora quando descobri o que aquelas meninas passaram. Fiquei porque elas precisavam de alguém que não tivesse medo do silêncio delas.”
Dante não respondeu.
Mais tarde, entrou no quarto das filhas. Luísa dormia com uma mão sobre a de Maitê. Valentina abraçava a ponta do cobertor. Ele se sentou ao lado da cama, sem tocá-las, e percebeu quanto tempo havia passado desde que simplesmente ficara ali.
No corredor, encontrou Marina recolhendo os pratos do lanche.
“Não precisa fazer isso agora”, disse.
“É meu trabalho.”
“Esta noite já foi longa.”
Ela parou, surpresa com a ausência de dureza. Dante seguiu sem explicar.
No subsolo, a porta do centro de segurança reconheceu sua impressão digital. Bruno aguardava diante de três monitores. Juntos, localizaram o arquivo de comunicações do dia do ataque. Parte dos dados estava marcada como corrompida; outra parte havia sido arquivada em um servidor de contingência.
Dante indicou o horário anotado na folha de Marina.
O sistema encontrou uma transmissão de sete segundos, emitida pela frequência reservada exclusivamente a ele.
Na tela surgiu a transcrição automática:
“Alterem a rota. Ordem do Montenegro.”
Dante sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
Naquela manhã, estivera a quilômetros dali. Não dera ordem alguma.
E alguém dentro de sua própria estrutura usara seu nome para levar Beatriz à morte.
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