"O Chefe da Máfia Quase Demitiu a Empregada… Até Sua Filha Dizer: “Papai Matou a Mamãe”" Capítulo 3 — A Mulher Que Entrou Pela Porta dos Fundos
Marina acordou antes do sol.
Durante alguns segundos, não reconheceu o quarto pequeno e impecável destinado às funcionárias da mansão Montenegro. Depois se lembrou da voz de Ricardo, do corredor escuro e da frase que ele dissera ao telefone.
A menina voltou a falar. Precisamos agir.
Ela anotou as palavras num caderno que mantinha escondido no fundo da mala. Não era uma prova, mas talvez fosse o primeiro sinal de que suas suspeitas tinham fundamento.
Havia entrado naquela casa por uma razão que ninguém, além de Dona Rosa, conhecia.
Ainda assim, a lembrança de Maitê rindo no chão da cozinha era real. E a maneira como Luísa se agarrara a seu avental também.
Marina fechou o caderno e vestiu o uniforme.
Na sala de café da manhã, encontrou Dante observando as filhas diante de três pratos quase intocados. O homem usava camisa preta e parecia não ter dormido.
“Bom dia”, disse Marina.
Ele respondeu com um movimento breve de cabeça.
Maitê ergueu os olhos. Valentina empurrou para Marina uma cadeira vazia. Luísa continuou olhando para o prato.
Marina não se sentou imediatamente.
“Senhor Montenegro, posso?”
Dante assentiu.
Ela puxou a cadeira e pegou uma torrada.
“Ontem eu sonhei que um elefante entrou numa padaria”, contou. “Ele pediu seis pães de queijo e reclamou que não tinha lugar para estacionar.”
Valentina soltou um sopro pelo nariz.
Marina fingiu não perceber.
“Eu disse que ele precisava deixar a tromba do lado de fora.”
Maitê sorriu discretamente.
Dante observou a cena sem entender como a jovem encontrava palavras tão simples para alcançar um lugar onde ele nunca conseguia entrar.
Depois do café, Marina propôs que as meninas pintassem pequenas casas de papelão. Luísa escolheu tinta preta para o telhado. Valentina encheu o jardim de flores. Maitê desenhou uma janela amarela.
“Quem mora aqui?”, perguntou Marina, apontando para a casa de Maitê.
A menina abraçou a folha. Não respondeu.
“Não precisa me contar.”
Luísa olhou para ela por um instante. Era a primeira vez naquela manhã que levantava a cabeça.
Enquanto isso, Dante recebia de Ricardo um dossiê sobre Marina Oliveira.
“Trabalhou numa escola infantil em Santo Amaro”, informou o segurança. “Depois passou por empregos temporários. Há quase quatro anos de registros incompletos.”
“Família?”
“Uma mãe falecida. Nenhum parente próximo declarado.”
Dante examinou a fotografia do documento.
“Quero que verifiquem as referências sem intimidar ninguém.”
Ricardo arqueou as sobrancelhas.
“Está ficando sentimental por causa de uma empregada?”
“Estou ficando cuidadoso por causa das minhas filhas.”
O homem guardou a pasta, mas a expressão endureceu.
Naquela tarde, Verônica Albuquerque chegou sem avisar. Era sócia de Dante em um empreendimento imobiliário e frequentava a casa desde antes da morte de Beatriz. Sua presença sempre vinha acompanhada de perfume caro e opiniões não solicitadas.
Encontrou Marina ajoelhada diante de Maitê, amarrando o cadarço de seu tênis.
“Então essa é a nova funcionária”, comentou, examinando-a dos pés à cabeça.
Marina levantou-se.
“Boa tarde.”
“Espero que entenda seu lugar. As meninas Montenegro precisam de profissionais, não de alguém tentando brincar de mãe.”
Dante, que acabara de entrar, ouviu a última frase.
“Verônica.”
“Estou apenas preocupada. Essa moça está aqui há cinco dias e já conquistou uma intimidade impressionante.”
Marina apertou as mãos diante do avental.
“Não pretendo ocupar o lugar de ninguém.”
“Ótimo. Porque você jamais poderia.”
Luísa, que brincava perto da janela, caminhou até Marina e se colocou diante dela.
A menina não falou. Apenas ergueu o queixo, enfrentando Verônica.
O gesto deixou a visitante desconcertada.
Dante se aproximou.
“Minhas filhas não precisam ouvir você humilhar uma funcionária.”
Verônica abriu um sorriso tenso.
“Não quis humilhar ninguém.”
“Então não repita.”
Pela primeira vez, Marina viu Dante defender alguém sem ameaçar ou levantar a voz. Isso não apagava o que sabia sobre seu passado, mas tornava mais difícil enxergá-lo apenas como o monstro das histórias que ouvira.
À noite, depois que as meninas adormeceram, Marina foi ao jardim. Levava uma fotografia dobrada dentro do bolso.
Sentou-se perto de uma fonte desligada e abriu o papel gasto.
Na imagem, ela era adolescente. Estava entre a mãe e um homem de cabelos grisalhos, sorrindo diante de um bolo de aniversário. Naquele tempo, ainda acreditava que a família era um lugar seguro.
“Você mentiu para mim?”, perguntou uma voz atrás dela.
Marina se levantou num salto.
Dante estava a poucos passos, com as mãos nos bolsos.
“Sobre o quê?”
“Sobre sua vida. Sobre os anos que não aparecem na sua ficha.”
“Existem coisas que não são fáceis de explicar.”
“Eu não tenho o luxo de aceitar respostas vagas.”
Marina dobrou a fotografia.
“E eu não tenho obrigação de transformar todas as minhas perdas num relatório.”
Dante pareceu surpreso pela firmeza.
“Você sabe quem eu sou?”
“Sei o que dizem sobre o senhor.”
“E acredita?”
Marina demorou a responder.
“Algumas coisas, sim. Outras eu vim descobrir.”
A frase escapou antes que pudesse contê-la.
Antes daquela conversa, Marina havia passado quase uma hora organizando os desenhos das meninas. Notara que Luísa sempre pintava uma porta fechada. Quando lhe oferecera uma tinta mais clara, a criança recusara com a cabeça.
“Pode deixar a porta dessa cor”, dissera Marina. “É o seu desenho.”
Luísa parecera aliviada.
Valentina, por sua vez, desenhara três flores sem caule. Marina lhe perguntara se gostaria de acrescentar folhas. A menina apontara para o céu azul, como se as flores estivessem voando. Marina não corrigira a imagem.
Dante observara parte da atividade através da porta entreaberta. Lembrara de como Beatriz defendia as ideias absurdas das filhas, mesmo quando ele insistia em ensinar o jeito certo de fazer as coisas.
Naquela tarde, Maitê encontrara uma caixa de música esquecida no armário. A melodia a fizera congelar. Marina desligara o mecanismo imediatamente e esperara que a menina decidisse se queria guardá-lo ou ouvi-lo de novo.
A menina escolhera guardar.
Esses pequenos gestos haviam abalado a certeza de Dante de que só profissionais caros poderiam ajudar sua família. Mas também tornavam mais urgente descobrir quem era aquela mulher. Uma pessoa capaz de conquistar a confiança de suas filhas teria poder para feri-las de uma forma que nenhum inimigo armado conseguiria.
Dante estreitou os olhos.
“Veio descobrir?”
Marina deu um passo para trás. A fotografia escorregou de seus dedos e caiu sobre a pedra clara.
Marina teve vontade de correr, mas sabia que isso confirmaria todas as suspeitas. Permanecer ali parecia igualmente perigoso. O nome de seu pai carregava uma história de violência que ela própria ainda tentava compreender.
Pensou na promessa que fizera diante do túmulo da mãe: descobrir a verdade sem se transformar naquilo que odiava. A promessa agora parecia frágil diante do homem que controlava aquela casa.
Dante se abaixou para apanhá-la.
O sorriso da adolescente era quase irreconhecível. Mas o homem ao lado dela não.
Ele havia estudado aquele rosto durante meses, em fotografias de inteligência, relatórios policiais e notícias sobre a guerra entre organizações criminosas.
Augusto Vasconcelos.
O rival cuja estrutura Dante destruíra após a morte de Beatriz.
Dante ergueu lentamente os olhos.
“Por que você tem uma fotografia com esse homem?”
Marina ficou pálida.
E, pela primeira vez desde que entrara na mansão, não encontrou uma mentira que pudesse salvá-la.
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