"O Chefe da Máfia Quase Demitiu a Empregada… Até Sua Filha Dizer: “Papai Matou a Mamãe”" Capítulo 2 — A Voz Que Ela Nunca Esqueceu
Ricardo Ferraz entrou na cozinha com a tranquilidade de quem sempre tivera permissão para atravessar qualquer porta daquela mansão.
“Que confusão é essa?”, perguntou.
Dante não respondeu de imediato. Estava ajoelhado diante de Luísa, tentando compreender por que a filha, que acabara de recuperar a voz, se encolhia atrás de uma funcionária recém-contratada.
“Luísa, olhe para mim.”
A menina manteve o rosto escondido no avental de Marina.
“Você ouviu a voz de quem, meu amor?”
Nenhuma resposta.
Ricardo deu um passo à frente.
“Talvez seja melhor eu chamar a doutora Camila.”
Valentina levou as mãos aos ouvidos.
Dante percebeu o gesto. Antes que pudesse perguntar alguma coisa, Marina falou:
“Por favor, não se aproximem todos ao mesmo tempo.”
Ricardo lançou a ela um olhar duro.
“Quem é você para dar ordens nesta casa?”
“Não estou dando ordens. Elas estão assustadas.”
Dante ergueu a mão, interrompendo a discussão.
“Ricardo, espere lá fora.”
O chefe de segurança hesitou. Era raro receber uma instrução daquelas diante de funcionários.
“Claro. Como quiser.”
Assim que ele saiu, Valentina baixou as mãos. Marina notou. Rosa também.
Dante levou as filhas à sala de brinquedos, mas elas não quiseram se afastar de Marina. Luísa permaneceu em silêncio, encarando a porta a cada ruído de passos.
Mais tarde, no escritório, Ricardo apresentou um relatório sobre a nova empregada. Documentos regulares. Endereço em Santo Amaro. Experiência em educação infantil e serviços domésticos. Nada que explicasse o comportamento de Luísa.
“Uma pessoa treinada pode manipular uma criança vulnerável”, observou Ricardo.
Dante apoiou as mãos na mesa.
“Você está dizendo que ela ensinou minha filha a me acusar?”
“Estou dizendo que precisamos considerar todas as possibilidades.”
“Então considere também que minha filha olhou para você e ficou apavorada.”
Ricardo sustentou o olhar do patrão.
“Ela ficou apavorada com a situação inteira. Não transforme uma reação traumática em prova.”
A resposta era razoável. Talvez razoável demais.
Dante dispensou o amigo e chamou Dona Rosa.
A governanta entrou sem pedir licença, como fazia desde que ele era adolescente.
“Você contratou Marina sem minha aprovação”, disse Dante.
“Contratei porque aquelas meninas estavam desaparecendo diante dos nossos olhos.”
“Eu pago médicos, terapeutas, professores.”
“E quem senta no chão com elas quando o senhor não está?”
Dante desviou o olhar.
Rosa continuou:
“Luísa passou meses tentando ser adulta. Valentina dorme com a luz acesa. Maitê esconde comida debaixo do travesseiro porque acha que alguém vai embora se ela pedir mais. A Marina percebeu tudo isso em poucos dias.”
“Você devia ter me contado.”
“Eu tentei. O senhor estava sempre numa reunião ou atrás de alguém para punir.”
Dante sentiu a acusação atingir um lugar que mantinha protegido.
“Ela pode ser perigosa.”
“Pode. Então investigue. Mas não arranque delas a primeira pessoa com quem se sentiram seguras.”
Ele ficou em silêncio.
Rosa respirou fundo.
“Você quer descobrir a verdade ou quer perder suas filhas também?”
Naquela noite, Dante permitiu que Marina permanecesse, sob supervisão e sem acesso às áreas de segurança. Informou a ela que a decisão era provisória.
“Não espero sua confiança”, respondeu Marina. “Só peço que não faça as meninas acreditarem que riram de alguma coisa errada.”
Dante não encontrou resposta.
Quando Marina deixou o escritório, encontrou Bruno junto à escada. O funcionário parecia constrangido.
“Não leve para o lado pessoal”, murmurou ele. “O patrão mudou muito depois do acidente.”
“Não foi um acidente”, corrigiu Marina.
Bruno ficou sério.
“Não. Não foi.”
Ela quis perguntar se ele estivera de serviço naquela manhã, mas conteve a curiosidade. Perguntas demais poderiam destruir a pouca confiança que havia conquistado.
No quarto, as meninas tinham guardado um biscoito em formato de coração para o pai. Luísa o deixara num prato, ao lado de uma fotografia de Beatriz. Marina não tocou em nenhum dos dois objetos.
Mais tarde, Dante encontrou o prato. O biscoito estava torto e queimado numa ponta. Ele o segurou entre os dedos, incapaz de comer.
Na fotografia, Beatriz sorria para a câmera. Pela primeira vez em meses, Dante conseguiu olhar para o rosto dela sem procurar imediatamente a lembrança da morte. Pensou nas filhas esperando uma resposta que ele ainda não sabia oferecer.
Guardou o biscoito numa pequena caixa da gaveta. Não queria que ninguém o visse chorar.
Depois do jantar, foi ao quarto de Beatriz. A governanta mantinha tudo quase intacto: os livros na cabeceira, um perfume sobre a penteadeira, uma fotografia das três meninas vestidas de joaninhas.
Dante sentou-se na beira da cama.
“Eu estava tentando proteger vocês”, disse ao quarto vazio.
Recordou a última ligação da esposa. Ela perguntara se ele chegaria cedo para o jantar. Ele respondera que não podia prometer. Horas depois, recebera a notícia da emboscada.
O que mais o atormentava não era apenas a ausência. Era a certeza de que Beatriz havia passado os últimos minutos tentando salvar as meninas enquanto ele estava longe.
No andar de baixo, Marina ajudava Maitê a guardar os brinquedos. Valentina permanecia próxima, observando cada movimento da porta.
“Você gosta de estrelas?”, perguntou Marina.
A menina assentiu.
“Minha mãe dizia que a gente pode sentir saudade e ainda encontrar coisas bonitas.”
Valentina segurou uma estrela de papel. Não sorriu, mas não a soltou.
Luísa, sentada perto da janela, desenhava círculos escuros em uma folha.
Marina não pediu que explicasse.
Quando Rosa chegou, encontrou as três crianças adormecidas no sofá, sob uma manta. Marina estava no chão, com as costas encostadas no móvel, sem coragem de se mexer e acordá-las.
“Você pode ir descansar”, sussurrou Rosa.
“Luísa teve um pesadelo quando fechou os olhos.”
“Ela sempre tem.”
Marina olhou para a menina.
“Ela tentou avisar alguma coisa hoje.”
Rosa apertou os lábios.
“Crianças lembram de coisas que adultos preferem esquecer.”
Marina percebeu que a governanta sabia mais do que dizia, mas não insistiu.
Perto da meia-noite, desceu para buscar água. O corredor de serviço estava quase escuro. Ao passar pela ala infantil, ouviu uma voz masculina.
Ricardo estava diante da porta do quarto das meninas, falando ao telefone.
“Não, ele ainda não sabe de nada”, disse.
Marina parou atrás de uma coluna.
Ricardo ouviu alguma coisa do outro lado da linha e respondeu com impaciência:
“A menina voltou a falar. Precisamos agir.”
Um arrepio percorreu a nuca de Marina.
Ela tentou recuar, mas o salto do sapato bateu levemente no rodapé.
Marina pensou em avisar Dante imediatamente. Mas como explicaria que estava escutando uma conversa escondida? Ele já desconfiava dela. Ricardo era seu amigo antigo, responsável por proteger a propriedade. Uma acusação sem provas talvez apenas apressasse sua demissão.
Lembrou-se de Luísa se encolhendo quando aquele homem entrou na cozinha. A lembrança decidiu por ela: precisava observar, registrar e procurar um momento seguro para contar o que ouvira.
Ricardo desligou.
“Quem está aí?”
Marina saiu da sombra segurando o copo vazio.
“Vim buscar água.”
O homem olhou para o copo e depois para seu rosto.
“Funcionários novos deveriam aprender rapidamente quais corredores não lhes pertencem.”
“Eu estava voltando para o meu quarto.”
“Então volte.”
Marina obedeceu, sentindo os olhos dele acompanhá-la.
Ao alcançar a escada, ouviu a porta do quarto das meninas se abrir.
E soube que, se Ricardo tivesse algo a esconder, as crianças estavam muito mais perto do perigo do que Dante imaginava.
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