"A Menina Pintou o Rosto do Chefe da Máfia Enquanto Ele Dormia" Capítulo 4 — O Homem Com o Rosto de Dante
Dante assistiu à imagem seis vezes.
No reflexo do vidro, o homem parecia ter sua altura, seus cabelos escuros e o mesmo corte de barba. Usava camisa preta, relógio dourado e o anel de serpente que César exibia havia décadas.
Quando o vídeo congelava, a semelhança era suficiente para enganar qualquer funcionário.
“Alguém quer que acreditem que fui eu quem abriu o painel”, Dante concluiu.
Rafael ampliou o rosto até os pixels perderem forma.
“Ou quer provar que existe outro homem circulando com sua aparência.”
“Máscara.”
“Possivelmente. O sistema registrou sua biometria às três e quatro.”
Dante virou-se.
“Minha biometria?”
“Digital e reconhecimento facial. Por isso a central não emitiu alerta.”
Aquilo ultrapassava uma traição doméstica. Alguém tinha acesso aos dados de segurança, às rotas da empresa e ao rosto dele. O café dopado não buscava apenas fazê-lo dormir. Precisavam que permanecesse inconsciente enquanto outra pessoa assumia sua identidade dentro da mansão.
“Verifique todas as ordens enviadas em meu nome entre três e quatro.”
Rafael encontrou três: liberação de um caminhão no porto de Santos, transferência de oito milhões de reais e retirada de uma caixa do cofre secundário.
A transferência fora bloqueada por dupla autenticação. O caminhão, porém, já deixara o porto. A caixa desaparecera.
“O que havia nela?”
Dante demorou a responder.
“Documentos do meu pai.”
O pai de Dante morrera onze anos antes, em um acidente na Rodovia dos Imigrantes. O carro perdera os freios numa curva sob chuva. Dante sempre desconfiara, mas César encerrara a investigação alegando falta de provas.
Na caixa estavam o relatório mecânico original, uma lista de pagamentos e uma fita de áudio nunca identificada.
Ao amanhecer, Marina encontrou Dante na cozinha, ainda com vestígios de tinta no rosto. Ele preparava café sozinho e observava cada grão entrar na máquina.
“Agora desconfia até da cafeteira?”
“Ela tem acesso demais à minha rotina.”
Marina tentou não sorrir.
“Luna acordou perguntando se você virou bonito para sempre.”
“Diga que a tinta perdeu a guerra.”
Ela colocou o coelho sobre a bancada. A costura da barriga havia se aberto durante o sequestro. Um pequeno pedaço de plástico preto aparecia entre o enchimento.
“Isto não era do brinquedo.”
Dante calçou luvas e puxou o objeto. Era um cartão de memória.
Marina ficou pálida.
“Colocaram uma coisa dentro do coelho da minha filha?”
Rafael conectou o cartão a um computador isolado. O arquivo continha plantas da mansão, escalas dos seguranças e cópias dos documentos roubados do cofre. A data de criação era da noite anterior.
“Quem trancou Luna usou o brinquedo para tirar os arquivos daqui”, disse Rafael. “Pretendia buscá-la depois ou mandar alguém recolher o coelho.”
Marina deu um passo para trás.
“Usaram uma criança como transporte.”
Dante fechou a mão, contendo a raiva.
“Não conseguirão de novo.”
“Não prometa o que não controla.”
“Eu controlo esta casa.”
“Ontem alguém desligou suas luzes, roubou seu rosto e trancou minha filha no subsolo. Talvez seja hora de admitir que não controla.”
Rafael olhou para o chão. Ninguém falava assim com Dante Montenegro.
Dante aproximou-se, mas Marina não recuou.
“Tem razão”, ele disse.
A resposta a desarmou.
“Por isso preciso de alguém que enxergue esta casa sem confiar nas regras dela.”
Ele ofereceu um acordo: Marina e Luna ficariam por sete dias no apartamento seguro. Marina não trabalharia como empregada; ajudaria a reconstruir os movimentos da filha e identificar locais onde ela vira o homem do anel. Receberia o salário normal, sem bônus ou pagamento pelo depoimento.
“Não quero que pareça compra”, Dante explicou.
“E depois dos sete dias?”
“Vocês escolhem.”
Marina aceitou com uma condição:
“Luna não será interrogada. Ela fala quando quiser, brincando. Se ficar assustada, tudo para.”
“Concordo.”
Na sala de brinquedos, Luna desenhou a mansão. Fez a escada, o sofá, a copa e um homem alto com uma cobra na mão. Ao lado dele, desenhou outro homem com o rosto todo preto.
“Quem é esse?” Marina perguntou.
“É o homem que tira a cara.”
Dante se agachou.
“Você viu ele tirar?”
Luna assentiu.
“Na sala pequena. Ele puxou sua cara e embaixo tinha outra.”
“Como era a outra?”
Luna escolheu o lápis marrom, desenhou um bigode fino e uma cicatriz na testa.
Rafael fotografou o desenho e comparou com o cadastro de funcionários. Nenhum correspondia.
Marina observou um detalhe no canto da folha: três círculos vermelhos perto de uma janela.
“O que são?”
“Luzinhas.”
“Onde você viu?”
“No quarto que tem cheiro de remédio.”
Dante conhecia apenas um cômodo assim: a antiga suíte de sua mãe, fechada desde a morte dela. César guardava a única chave, alegando que Dante não deveria mexer nas lembranças.
Foram até o segundo andar. César apareceu antes que alcançassem a porta.
“Esse quarto permanece fechado.”
“Não mais”, Dante respondeu.
“Sua mãe pediu.”
“Minha mãe está morta.”
“E você vai profanar a memória dela por causa de desenhos?”
Dante estendeu a mão.
“A chave.”
César recusou.
Rafael arrombou a fechadura.
O quarto parecia intocado: frascos de perfume, livros e uma manta dobrada sobre a poltrona. O cheiro medicinal ainda pairava no ar.
Luna apontou para uma tomada atrás da cama.
Três luzes vermelhas piscavam dentro dela.
Rafael removeu a placa e revelou um transmissor ligado a quatro microcâmeras.
Uma delas ainda gravava.
No monitor conectado, Dante viu imagens de sua mãe nas últimas semanas de vida. Viu César entrando todas as noites com um copo d’água. Viu a mulher recusar. Viu o tio segurar seu queixo e obrigá-la a beber.
Marina percebeu ainda outro objeto sob a cama: um gravador portátil, antigo, ligado por fio ao transmissor. Ao pressionar o botão, ouviu Lígia cantar uma cantiga e depois interromper-se para ditar datas, placas e nomes de empresas. Ela transformara o sistema usado para espioná-la num arquivo contra César.
Rafael copiou tudo. Entre os nomes aparecia Paulo Nogueira, o antigo supervisor de Marina, embora ninguém ainda entendesse a ligação. Também havia referência a uma oficina na Mooca e às iniciais J.R. Marina reconheceu as letras do pai, João Rocha, desaparecido quando ela tinha quinze anos.
O choque a obrigou a apoiar-se na cômoda.
“Minha família já estava ligada à sua antes de eu entrar aqui.”
Dante quis saber como. Marina contou apenas que João era mecânico e sumira depois de trabalhar numa noite para clientes poderosos. Sua mãe passara anos procurando. Sem corpo e sem testemunha, o caso fora arquivado.
“Você sabia disso quando aceitou a vaga?”
“Sabia que o nome Montenegro aparecia num recibo antigo. Não sabia por quê.”
Era uma resposta incompleta, e ambos perceberam. Contudo, o ruído da porta interrompeu qualquer cobrança. Luna segurou a mão de Marina. Rafael posicionou-se diante do transmissor. Dante fechou o arquivo da mãe e encarou o homem que havia comandado sua vida desde a morte do pai.
Dante enviou imediatamente uma cópia da gravação para fora da mansão. Marina fez o mesmo com o trecho que continha as iniciais do pai. Nenhum dos dois confiava mais que uma verdade guardada num único lugar pudesse sobreviver. Quando a maçaneta girou, Luna se colocou entre a mãe e a cama, protegendo o próprio estojo de tinta como se fosse prova.
Então ouviu a voz de César atrás dele:
“Você não deveria ter encontrado isso.”
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