"A Menina Pintou o Rosto do Chefe da Máfia Enquanto Ele Dormia" Capítulo 3 — O Coelho Sem Uma Orelha
“Fechem todas as saídas!”
A voz de Dante atravessou a mansão enquanto as luzes de emergência acendiam em vermelho. Rafael acionou o protocolo interno. Portas de aço desceram sobre os acessos laterais, os portões permaneceram bloqueados e oito seguranças começaram a vasculhar os jardins.
Marina segurava o coelho de Luna contra o peito.
“Ela estava aqui. Eu virei por um segundo para fechar a torneira.”
“Alguém entrou?” Dante perguntou.
“Não vi. Quando tudo apagou, ouvi a cadeira cair.”
César apareceu no corredor com uma lanterna.
“A empregada armou isso. Deve ter mandado a filha se esconder para aumentar o preço.”
Marina avançou, mas Dante entrou entre os dois.
“Diga isso outra vez e será você quem vai precisar de proteção.”
César ficou em silêncio.
Dante tomou o coelho das mãos de Marina e examinou o brinquedo. A orelha direita estava rasgada havia muito tempo. No pelo gasto da barriga, havia uma mancha fresca de tinta verde.
No chão da copa, perto da porta, outra pequena marca verde aparecia no mármore.
“Ela estava com o estojo?”
Marina assentiu.
“Luna leva as tintas para todo lugar.”
Dante seguiu a marca. No corredor de serviço, encontrou um ponto azul na parede, depois um risco amarelo perto do elevador. Não eram desenhos aleatórios. A menina deixara um caminho.
“Ela está nos mostrando por onde passou.”
Marina ajoelhou-se junto a uma marca vermelha.
“Ela faz isso quando brincamos de caça ao tesouro. Uma cor em cada esquina para saber voltar.”
Os dois seguiram os rastros até o subsolo. Rafael veio atrás, arma em mãos. O corredor terminava diante da antiga lavanderia, desativada depois de uma reforma.
Na maçaneta havia tinta laranja.
Dante abriu a porta.
O cômodo estava vazio.
Marina chamou:
“Luna?”
Um soluço abafado veio de trás de um armário. Dante o empurrou e encontrou uma porta estreita embutida na parede. Estava trancada por fora.
Rafael arrebentou o cadeado.
Luna permanecia sentada no chão do depósito, encolhida, o estojo de tinta preso contra o peito. Ao ver a mãe, começou a chorar.
Marina a abraçou com tanta força que quase caiu de joelhos.
“Quem trouxe você aqui?”
Luna enterrou o rosto em seu pescoço.
“O homem cheiroso.”
“Qual homem?”
“Ele tampou minha boca. Falou que brincadeira de cobra acaba quando menina dorme.”
Dante sentiu algo frio instalar-se no peito.
“Você viu o rosto?”
Ela negou.
“Tinha luva. E cheirava igual ao quarto da tia Beatriz.”
Beatriz era esposa de César e usava um perfume francês raro, mas estava em Paris havia uma semana. César podia ter o cheiro impregnado nas roupas.
Marina percebeu a direção do pensamento dele.
“Não faça perguntas agora. Ela está assustada.”
Dante, acostumado a arrancar respostas de adultos sob pressão, conteve o impulso. Tirou o próprio paletó e o colocou sobre os ombros da menina.
“Você fez muito bem deixando as cores.”
Luna fungou.
“Você achou.”
“Achei.”
“Porque você não é burro.”
Rafael tossiu para esconder uma risada nervosa.
Dante ofereceu a mão. Luna olhou para os dedos tatuados, depois segurou apenas o mindinho dele.
No andar de cima, o eletricista confirmou que a energia fora cortada no quadro interno. A chave exigia código de administrador. Além de Dante e Rafael, apenas César tinha acesso.
César recebeu a acusação com indignação.
“Meu código foi clonado.”
“Então entregue o celular”, Rafael ordenou.
“Você não me dá ordens.”
“Na casa dele, dou.”
Dante não desviou os olhos do tio.
“Entregue.”
O telefone não revelou mensagens recentes. Havia sido restaurado naquela tarde. César alegou atualização do sistema, mas o registro mostrava apagamento manual às cinco e cinquenta e oito, dois minutos antes do blecaute.
Mesmo assim, faltava prova direta.
Marina decidiu ir embora assim que os portões fossem liberados.
“Minha filha quase foi levada por causa de uma guerra que não é nossa.”
“Se sair agora, será um alvo sem proteção”, Dante disse.
“Aqui dentro ela já foi um alvo.”
A frase o atingiu porque era verdadeira.
Dante afastou os seguranças para que conversassem sozinhos no corredor.
“Tenho um apartamento seguro no mesmo terreno, separado da casa principal. Você fica com a chave. Rafael coloca duas mulheres da equipe na porta. Ninguém entra sem sua autorização.”
“Por que faria isso?”
“Porque Luna viu alguém tentando me deixar inconsciente. Porque quem a trancou ainda está aqui. E porque falhei em protegê-la depois de dizer que faria isso.”
Marina estudou o rosto dele. A tinta começava a rachar, mas a flor amarela permanecia visível.
“Uma noite”, decidiu. “Amanhã eu saio.”
“Amanhã conversamos.”
“Isso não foi um convite para negociar.”
“Nem minha resposta.”
Ela quase se irritou, mas Luna apareceu entre os dois, ainda enrolada no paletó de Dante.
“Você pode ficar com a flor até amanhã?”
Dante olhou para Marina antes de responder.
“Posso.”
Naquela noite, Marina colocou Luna para dormir no apartamento protegido. A menina abraçou o coelho e, exausta, adormeceu depressa.
Dante permaneceu no escritório revisando imagens antigas. Às duas da manhã, Rafael encontrou algo nos arquivos de backup: durante os onze minutos apagados, uma câmera externa continuara gravando o reflexo da sala pequena no vidro do jardim de inverno.
A imagem era distorcida, mas mostrava um homem diante do painel, usando o anel de serpente.
Rafael ampliou o quadro.
O homem não era César.
Depois de Luna adormecer, Marina permaneceu sentada ao lado da cama. Dante apareceu à porta, mas não entrou. Perguntou se a menina precisava de médico. Marina disse que o pediatra já a examinara e que o maior dano era o medo.
“Ela vai lembrar?”
“Provavelmente. Crianças não esquecem só porque adultos preferem.”
Dante contou que, aos nove anos, ficara trancado por horas num armário durante um ataque à casa do pai. Todos lhe disseram que devia superar porque sobrevivera. Desde então, ele dormia com portas destrancadas e luz no corredor, embora tivesse construído uma mansão cheia de fechaduras.
Marina compreendeu por que ele encontrara o depósito tão depressa. Não comentou. Apenas abriu mais a porta do quarto de Luna.
“Sobreviver não encerra o medo”, disse. “Só dá tempo para aprender a nomeá-lo.”
Dante deixou sobre a mesa um telefone com contato direto para ele e para Rafael. Marina recusou o aparelho caro. Ele explicou que não era presente; fazia parte da segurança. Dessa vez, ela aceitou.
Antes de ir, Dante viu o desenho incompleto de Luna: dois homens pretos, um com uma flor e outro segurando uma cobra. A criança já registrara a duplicidade antes de conseguir explicá-la. Ele levou a folha para o escritório, onde Rafael esperava diante do arquivo recuperado.
No quadro refletido, a figura possuía seus ombros, sua postura e até o gesto de ajustar o punho da camisa. O anel não era o único detalhe preparado. Alguém estudara Dante durante meses.
O homem não era César.
Era alguém com o mesmo anel e o rosto de Dante.
Ao voltar para o apartamento, Luna pediu que a porta ficasse aberta. Dante colocou uma cadeira no corredor e permaneceu ali até a menina dormir. Marina percebeu que ele não tentava parecer gentil; apenas cumpria a promessa de não deixá-la sozinha no escuro. Quando se levantou, já era quase manhã.
Marina respirou profundamente.
“Obrigada”, Marina disse.
“Ainda não mereço.”
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