"A Menina Pintou o Rosto do Chefe da Máfia Enquanto Ele Dormia" Capítulo 1 — Flores no Rosto do Homem Mais Temido
O primeiro detalhe que Luna Rocha percebeu no homem adormecido foi que ele parecia triste.
Não bravo. Não perigoso. Triste.
Aos três anos, Luna ainda não compreendia por que quatro homens armados guardavam as portas da sala, por que ninguém pronunciava o nome de Dante Montenegro acima de um sussurro ou por que sua mãe havia repetido tantas vezes que ela não deveria sair da pequena copa dos funcionários.
Mas a menina conhecia rostos tristes. Via um todas as noites, quando Marina abria as contas sobre a mesa da cozinha e fingia que não estava preocupada.
Dante dormia no sofá de couro preto da sala principal da mansão, em Jardim Europa. A gravata fora abandonada sobre uma poltrona. Dois botões da camisa preta estavam abertos, revelando a corrente com uma cruz e parte das tatuagens que subiam pelo peito. Uma das mãos permanecia fechada, como se até dormindo ele esperasse precisar lutar.
Havia quatro noites que Dante não descansava. Dois caminhões de sua empresa tinham sido interceptados em Santos, um contador desaparecera e alguém de dentro da organização estava entregando rotas confidenciais a uma quadrilha rival.
Naquela tarde, ele se sentara por um minuto.
Seu corpo tomara o restante.
Luna espiou da porta. Vestia um vestido amarelo simples e abraçava um coelho de pelúcia com uma orelha faltando. Na outra mão, segurava um estojo de tinta infantil que Marina lhe dera para mantê-la quieta.
A babá que cuidava dela tivera febre. Marina não podia faltar no terceiro dia de experiência como empregada. A governanta aceitara a presença da criança com uma condição:
“Ela fica na copa e não cruza com o senhor Montenegro.”
Luna havia prometido.
Promessas, porém, eram coisas difíceis quando um homem triste precisava de cores.
Ela caminhou na ponta dos pés até o sofá, molhou o pincel na tinta amarela e desenhou uma pequena flor na face esquerda de Dante. Esperou. Ele não se moveu.
Então veio uma borboleta azul na testa, um sol laranja no queixo e três pontinhos verdes perto da sobrancelha. Luna recuou, analisando a obra com seriedade.
Ainda faltava alguma coisa.
Ela escolheu o vermelho e começou a desenhar um círculo na mão fechada de Dante.
O pincel tocou a pele.
A mão dele se abriu de repente e segurou o pulso minúsculo.
Luna arregalou os olhos. O potinho de água caiu sobre o tapete persa.
Os quatro seguranças avançaram ao mesmo tempo.
Marina entrou carregando uma bandeja de café e parou tão bruscamente que as xícaras se chocaram. O sangue desapareceu de seu rosto.
“Luna.”
A menina olhou para a mãe, depois para Dante, que acabava de abrir os olhos sob uma borboleta azul torta.
“Eu posso explicar”, Marina disse, embora não pudesse.
Dante soltou devagar o pulso da criança. Passou os dedos pela própria face e os observou manchados de amarelo.
Rafael Costa, chefe da segurança, aproximou-se.
“Senhor, eu tiro as duas daqui.”
Marina colocou-se diante da filha.
“A culpa é minha. Eu não tinha com quem deixá-la. Desconte do meu pagamento, me demita, mas não assuste a menina.”
O silêncio tornou a sala ainda maior.
Dante se levantou. Com um metro e noventa, vestido de preto e cercado por homens armados, parecia ocupar todo o ambiente. Caminhou até o espelho antigo próximo à escada.
Viu a flor, a borboleta, o sol e os pontos verdes.
Por alguns segundos, ninguém respirou.
Luna escapou da proteção da mãe e parou ao lado dele.
“Você estava com a cara triste”, explicou. “Agora está bonito.”
O maxilar de Dante se contraiu. Marina esperou uma ordem terrível.
Em vez disso, um som baixo saiu da garganta dele.
Era uma risada.
Curta, rouca, enferrujada pelo desuso.
Rafael virou o rosto, incrédulo. A governanta, Teresa, levou a mão ao peito. Ninguém naquela casa ouvira Dante rir desde a morte da mãe, dois anos antes.
Luna sorriu, satisfeita.
“Funcionou.”
A expressão de Dante mudou quando ele percebeu algo em seu pulso. O relógio marcava quatro e vinte. Ele se lembrava de ter tomado apenas metade de um café às três. Não costumava dormir durante o dia. Nunca dormia em salas abertas. Nunca perdia consciência perto de uma entrada.
“Quem trouxe meu café?”
Teresa respondeu:
“Seu tio César, senhor. Disse que o senhor precisava comer alguma coisa.”
Marina viu o olhar de Dante endurecer.
Luna puxou a barra da camisa dele.
“O moço da cobra colocou remédio.”
Todos olharam para ela.
Dante se agachou lentamente, ficando na altura da menina.
“Que moço da cobra?”
Luna apontou para a própria mão e desenhou no ar uma forma sinuosa.
“O que tem cobra no dedo. Ele pingou no café e falou para você dormir bastante.”
Marina segurou a filha pelos ombros.
“Luna, não invente coisas.”
“Eu vi, mamãe. Eu estava embaixo da mesa procurando meu coelho.”
Rafael trocou um olhar com Dante. César Montenegro, tio e conselheiro do chefe, usava um anel de ouro com uma serpente negra desde a juventude.
Passos firmes ecoaram no corredor.
César entrou na sala ajustando o paletó claro. O anel em forma de serpente brilhou em sua mão direita.
Ele parou ao ver o rosto pintado do sobrinho, a empregada assustada e Luna apontando diretamente para ele.
“Que palhaçada é esta?”
Luna se escondeu atrás de Dante.
César estreitou os olhos.
“Tirem essa criança daqui.”
Um segurança deu um passo.
Dante não ergueu a voz.
“Ninguém toca nela.”
A ordem atravessou a sala como uma lâmina.
César forçou um sorriso.
“Você está defendendo a filha de uma empregada que acabou de invadir sua sala?”
Dante encarou o anel de serpente.
“Estou ouvindo a única pessoa desta casa que não sabia que deveria mentir para mim.”
Luna apertou o coelho contra o peito. Uma gota de tinta azul escorreu do pincel e caiu no punho claro de César.
Ele puxou o braço com violência.
Por baixo da manga, havia uma mancha azul idêntica à tinta da menina.
Mas aquela mancha já estava seca.
Antes de César aparecer, Marina tivera tempo de reparar em outros detalhes que o susto quase apagou. A bandeja de café que encontrara no aparador não pertencia ao jogo usado pela cozinha. A xícara tinha uma borda dourada mais grossa, reservada ao escritório de César, e o pires carregava um risco escuro na porcelana. Teresa confirmou que ninguém da equipe doméstica preparara aquela bebida.
Dante pediu que todos permanecessem onde estavam. Caminhou até o sofá e viu, sob a mesa, a tampinha transparente de um pequeno frasco. Luna a apontou com o pincel.
“Caiu do bolso do moço.”
Rafael recolheu o objeto com um lenço. Não havia rótulo, mas um cheiro medicinal escapava do plástico. Dante então perguntou por que Luna estivera embaixo da mesa. A menina mostrou o coelho sem uma orelha e disse que procurava a parte perdida. Enquanto engatinhava, ouvira duas vozes: uma mandara “desligar os olhos da casa”; a outra respondera que teria onze minutos.
Marina pediu desculpas novamente. Dante a interrompeu.
“Pare de pedir perdão por ter uma filha que observa.”
A frase não era gentil. Era uma ordem. Mesmo assim, Marina percebeu algo inesperado: ele não olhava para Luna como um problema. Olhava como se a menina tivesse aberto uma porta que todos os adultos fingiam não ver.
Quando César entrou, Dante já sabia que a tinta seca não podia ter vindo da gota recém-caída. Alguém tocara o estojo de Luna antes de a menina chegar à sala. E esse alguém tivera acesso ao café, ao painel das câmeras e ao homem mais protegido de São Paulo.
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