"O Menino Mimado Que Destruiu a Própria Família" Capítulo 6 — O Dono do Parquinho
“Agora é minha vez!”
Pedro Costa, de seis anos, falou com a coragem de quem ensaiara aquela frase enquanto esperava na fila do balanço. Havia outras três crianças atrás dele. Enzo Almeida acabara de passar na frente de todas e se sentara no brinquedo como se fosse o único dono do parque.
“Quem disse?”, Enzo respondeu, agarrando as correntes.
“Eu estava esperando!”
“E daí? Eu faço o que eu quiser!”
Uma menina de tranças protestou:
“Você furou a fila!”
Enzo impulsionou o balanço com os pés.
“Então espera mais!”
O parquinho ficava numa área arborizada de São Paulo. Era sábado à tarde. Pais conversavam nos bancos, crianças corriam entre escorregadores e funcionários recolhiam copos esquecidos. Patrícia Almeida estava numa mesa do café, conversando com uma amiga e mostrando fotografias no celular.
Naquela manhã, Juliana prometera ao filho uma tarde tranquila. Ele concluíra as tarefas da escola, guardara os sapatos sem reclamar e escolhera levar o carrinho novo para mostrar aos amigos. Durante a viagem de ônibus, falara sem parar sobre como faria o veículo contornar os bancos do parque. Juliana o ouvira sorrindo, feliz por proporcionar um passeio simples sem gastar quase nada.
Patrícia, ao contrário, dissera a Enzo que se comportasse apenas porque pretendia conversar com uma amiga influente. “Não me faça passar vergonha na frente dela”, advertira. Enzo entendera que o problema não era machucar alguém, mas atrapalhar a imagem da mãe.
Pedro olhou para a mãe, Juliana, que estava a poucos metros. Ela lhe fizera um sinal para tentar resolver o conflito falando, sem empurrões. Ele tentou novamente.
“Você pode sair? Todo mundo quer brincar.”
“Quando eu cansar.”
Enzo ficou mais dez minutos no balanço, embora já estivesse entediado. Gostava de ver Pedro esperando. Quando finalmente desceu, fez uma reverência exagerada.
“Pronto, bebê. Pode ir.”
Pedro preferiu se afastar. Sentou-se perto de uma árvore e abriu a mochila. Tirou de dentro um carrinho de controle remoto, vermelho e preto, que ganhara do pai no aniversário. Havia economizado as pilhas para aquele passeio.
O carro percorreu a calçada e fez uma curva perto de um banco. Pedro sorriu pela primeira vez desde a discussão.
Enzo viu o brinquedo.
“Deixa eu brincar.”
Pedro segurou o controle.
“Agora eu estou usando.”
“Eu não perguntei.”
Enzo arrancou o aparelho de suas mãos.
“Devolve! É meu!”
O carro disparou pela calçada. Enzo o conduziu diretamente para uma poça de lama.
“Para! Meu pai me deu de aniversário!”
“Então pede outro pro seu pai!”
“Ele trabalhou muito pra comprar!”
Enzo gargalhou.
“Meu pai compra dez desses sem nem olhar o preço!”
Pedro tentou alcançar o controle. Enzo levantou o braço, impedindo-o, e fez o carro bater contra a borda de um degrau. O brinquedo capotou. Uma das rodas se desprendeu.
Pedro ficou imóvel.
“Você quebrou”, murmurou.
Enzo ergueu o carro pela antena.
“Era fraco mesmo.”
“Você quebrou meu presente!”
As lágrimas vieram. Pedro estendeu as mãos para recuperar o brinquedo, mas Enzo o manteve longe.
“Buá, buá! Meu carrinho!”, zombou.
A menina de tranças chamou um adulto. Outra criança correu até Juliana.
“Mãe do Pedro! O menino grande quebrou o carro dele!”
Juliana se aproximou depressa. Encontrou o filho chorando, a roda do brinquedo caída na terra e Enzo com o controle nas mãos.
“O que aconteceu aqui?”
Pedro tentou explicar entre soluços.
“Ele pegou sem pedir e jogou na lama. Depois bateu na pedra.”
Juliana se abaixou para abraçá-lo. Só então se voltou para Enzo.
“Você pegou o brinquedo dele?”
“Peguei.”
“E quebrou?”
“Era só um carrinho velho!”
“Velho ou novo, não era seu!”
Enzo franziu a testa.
“Você não manda em mim!”
“Eu estou pedindo que devolva o controle e peça desculpas.”
“Não vou!”
Juliana estendeu a mão.
“Então devolva, por favor.”
Enzo atirou o controle sobre o banco e começou a gritar:
“MÃÃÃE! ESSA MULHER TÁ BRIGANDO COMIGO!”
Patrícia surgiu pouco depois, contrariada por ter sido interrompida.
“Que foi, meu amor?”
“Ela tá me chamando de ladrão!”
“Eu não usei essa palavra”, Juliana respondeu. “Seu filho pegou o brinquedo do meu sem autorização e o quebrou.”
Patrícia examinou o carrinho quebrado, depois abriu a bolsa.
“Tudo isso por um brinquedo?”
Ela tirou uma nota e a estendeu.
“Pronto, compra outro.”
Juliana não aceitou.
“Eu não pedi dinheiro. Pedi respeito.”
Patrícia soltou uma risada curta.
“Então quer que meu filho se ajoelhe?”
“Quero que ele reconheça o que fez.”
Um pai que acompanhava a discussão se aproximou.
“Senhora, seu filho também furou a fila e ficou provocando as outras crianças.”
Patrícia voltou-se para ele.
“Então levem seus filhos para outro lugar!”
“É um parque para todos”, o homem respondeu.
“Meu filho tem tanto direito de brincar quanto qualquer um!”
“Exatamente”, Juliana retrucou. “O mesmo direito. Não mais do que os outros.”
Enzo percebeu que a mãe estava irritada com Juliana, não com ele. Aproveitou para pisar na roda solta do carrinho.
“Pronto. Agora quebrou de vez!”
Pedro soltou outro choro. Juliana se abaixou para recolher a peça.
“Não encoste mais nas coisas dele”, ordenou.
Uma funcionária que organizava a fila dos brinquedos chegou com um formulário de ocorrência.
“Preciso registrar a reclamação da senhora”, disse a Juliana.
Patrícia se adiantou.
“Não há reclamação nenhuma. Já ofereci dinheiro pelo brinquedo.”
“A senhora não pode decidir isso por mim”, Juliana respondeu.
A funcionária pediu que as duas falassem separadamente. Enzo aproveitou a distração para pegar o carrinho danificado outra vez. Pedro estendeu a mão, aflito.
“Devolve. Por favor.”
“Vem buscar, então.”
Juliana voltou o rosto no instante em que ouviu o filho. A funcionária percebeu a provocação e pediu ao menino que largasse o objeto. Enzo não gostou de receber uma ordem de alguém usando uniforme.
“Você não manda em mim!”, Enzo repetiu.
Patrícia tocou no ombro do filho.
“Vem, amor. Não vamos discutir com gente assim.”
Pedro deu um passo à frente, segurando o carrinho quebrado.
“Você precisa consertar!”
Enzo se virou bruscamente.
“Cala a boca, bebê!”
“Não me chama assim!”
Antes que Juliana pudesse intervir, Enzo empurrou Pedro com as duas mãos. O menino perdeu o equilíbrio e caiu perto da borda de um degrau baixo, apoiando mal o braço.
O grito de dor fez todos correrem.
“Pedro!”, Juliana chamou, ajoelhando-se ao lado do filho.
Ele apertava o antebraço contra o peito e chorava sem conseguir explicar onde doía.
“Não mexe, meu amor. Eu estou aqui.”
Uma funcionária do parque se aproximou e ofereceu ajuda para acionar o atendimento. Juliana pediu que chamassem socorro e avisassem a administração.
Patrícia, porém, puxou Enzo para perto e examinou suas mãos.
“Meu filho, você se machucou?”
Juliana ergueu a cabeça, incrédula.
“Meu filho está chorando de dor e a senhora pergunta se o seu está bem?”
“Eu preciso saber se ele foi atacado!”, Patrícia respondeu.
“Ele empurrou o Pedro!”, afirmou a menina de tranças.
“Eu vi!”, confirmou o pai que interviera antes.
Patrícia não olhou para nenhuma das testemunhas.
“Seu filho deve ter provocado o meu.”
“Ele tem seis anos!”, Juliana gritou.
“O meu também é uma criança!”
“E isso dá a ele o direito de machucar alguém?”
Enzo espiou por trás da mãe. Pedro estava pálido e soluçava enquanto uma funcionária ajudava Juliana a mantê-lo confortável até a chegada de atendimento.
Em vez de se assustar, Enzo riu.
“Agora ele vai chorar no hospital!”
O pai que presenciara a queda deu um passo à frente.
“Você ouviu o que seu filho acabou de dizer?”
Patrícia o ignorou.
Juliana pegou a mochila de Pedro, sem soltar o filho. Tinha vontade de gritar, mas precisava cuidar dele primeiro.
“Se meu filho estiver machucado de verdade, vocês vão ter que responder por isso.”
Patrícia ergueu o queixo.
“Pode tentar.”
Enquanto Juliana saía com Pedro para receber atendimento, Enzo pediu um sorvete.
Patrícia comprou o maior da vitrine.
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