"O Menino Mimado Que Destruiu a Própria Família" Capítulo 5 — A Culpa Nunca É do Enzo
“Você mexeu na roupa daquela moça?”
Dona Lúcia fez a pergunta sem levantar a voz. Estava de pé diante do sofá da sala, segurando o celular com a notícia que recebera de uma conhecida. Enzo continuou deitado, com os pés sobre as almofadas e um pacote de salgadinhos aberto no peito.
“Mexi. E daí?”
A avó demorou a responder. Não porque tivesse dúvidas, mas porque esperava ouvir alguma vergonha na voz do neto. Não havia nenhuma.
“Você entende que fez uma coisa muito grave?”
“Ela que gritou comigo!”
“Porque você desrespeitou o corpo e a privacidade dela. Você precisa pedir desculpas.”
Enzo pegou mais um punhado de salgadinhos.
“Não vou. Minha mãe disse que aquela mulher era maluca.”
Lúcia sentou-se na poltrona oposta. Desde a confusão com Marina, sentia que a família avançava para um lugar perigoso. No restaurante, vira uma trabalhadora sair chorando enquanto seu neto comemorava. Agora outra mulher havia sido humilhada, e Enzo repetia a mesma expressão de vitória.
“Camila tem nome”, disse. “Não é ‘aquela mulher’. E você não pode fazer isso com ninguém.”
“Todo mundo quer mandar em mim!”, o menino reclamou.
“Não. As pessoas querem que você respeite limites.”
Patrícia entrou na sala com uma xícara de café.
“Que sermão é esse logo cedo?”
“Estou conversando com Enzo sobre o que aconteceu ontem.”
A nora suspirou, impaciente.
“De novo? Aquela história já acabou.”
“Não acabou para a moça que ele constrangeu.”
Patrícia pousou a xícara com força.
“A senhora quer que eu humilhe meu próprio filho para agradar uma desconhecida?”
“Eu quero que você ensine a ele que outras pessoas também têm dignidade.”
“Na minha casa, ninguém vai fazer meu filho se sentir culpado!”
Lúcia ergueu os olhos.
“Mas ele fez uma coisa errada, Patrícia. Sentir responsabilidade pelo que fez é parte de crescer.”
“Responsabilidade?”, a nora repetiu, rindo sem humor. “Ele tem dez anos. A senhora fala como se estivesse diante de um criminoso.”
“Eu estou falando de educação. Você é quem transforma qualquer correção numa perseguição.”
Enzo acompanhava a discussão com atenção. Conhecia o momento exato em que a mãe começava a se irritar. Bastava uma frase para tornar a avó a inimiga da casa.
“A vovó gosta mais daquela mulher do que de mim!”, anunciou, fingindo tristeza.
Patrícia imediatamente se aproximou, sentou-se ao lado dele e passou a mão em seus cabelos.
“Claro que não, meu amor. Ninguém gosta mais daquela mulher do que de você.”
Virou-se para Lúcia.
“Olha o que a senhora está fazendo com a autoestima dele!”
“Autoestima não é licença para humilhar os outros!”
“Ele está ficando nervoso por sua causa.”
Enzo cobriu o rosto com uma almofada. Por trás do tecido, sorriu. Não estava triste. Estava testando até onde podia ir.
Antes de responder, Lúcia recordou o que uma vizinha lhe contara sobre Camila. A jovem não conseguira terminar o almoço. Precisara sentar-se do lado de fora, amparada por outra mulher, enquanto Enzo saía rindo. Lúcia imaginou a vergonha de ser exposta diante de desconhecidos e ainda ouvir que estava exagerando. Aquilo não era um desentendimento qualquer.
“Você sabe por que ela ficou tão assustada?”, perguntou ao neto. “Porque ninguém espera que outra pessoa toque na sua roupa sem permissão. Imagine alguém fazendo isso com você na escola.”
Enzo fez uma careta.
“Eu bateria nele.”
“Então você entende que é errado.”
“Comigo é diferente.”
“Por quê?”
Ele não soube responder. Olhou para a mãe, procurando a saída habitual.
“Porque eu não fiz por mal!”, gritou.
Lúcia percebeu que até a desculpa já estava pronta antes de ele pensar no que fizera.
“Eu não quero a vovó perto de mim”, resmungou.
Patrícia abraçou o filho com mais força.
“Então ela vai dar um tempo. Pronto.”
Lúcia sentiu o golpe, mas manteve a postura.
“Enzo, olhe para mim. Uma pessoa não deixa de estar errada porque alguém a ama.”
“Você só sabe reclamar!”
“E você só ouve que está certo.”
A discussão continuou até Ricardo chegar para almoçar. Ele entrou falando ao telefone sobre pagamentos atrasados de fornecedores e uma reunião remarcada. Quando desligou, Patrícia foi ao seu encontro.
“Sua mãe passou a manhã inteira atacando Enzo por causa daquela mulher do restaurante.”
Lúcia se levantou.
“Ricardo, pergunte ao seu filho o que ele fez.”
“Eu já sei o suficiente”, ele respondeu.
“Então sabe que ele precisa pedir desculpas.”
Ricardo largou as chaves sobre o aparador.
“A senhora já criou seus filhos. Agora deixe a gente criar o nosso.”
“E quando ele machucar alguém de verdade?”
“Ele tem dez anos!”
“E aos onze? Aos quinze? Você vai continuar usando a idade para justificar tudo?”
Patrícia cruzou os braços.
“Eu não vou permitir que ela fale assim com você dentro da nossa casa.”
Ricardo olhou para a mãe, cansado.
“Por favor, não transforme tudo numa guerra.”
Lúcia soltou uma risada amarga.
“Uma mulher foi queimada com sopa. Outra teve a roupa puxada. E a guerra é eu pedir que seu filho se desculpe?”
Enzo desceu do sofá, arrastando os chinelos. Passou pela mesinha onde Lúcia organizava um álbum antigo. A avó separara fotografias do marido falecido e do aniversário de Ricardo quando criança.
“Enzo, cuidado com o álbum”, ela pediu.
O menino olhou para as fotos, depois para os pais.
“Se você não parar de reclamar, eu quebro tudo!”
“Não faça isso”, Lúcia advertiu.
Ele empurrou o álbum. As páginas se abriram no chão; várias fotografias escorregaram para debaixo do sofá.
“Enzo!”, Lúcia exclamou. “Pegue isso agora!”
O menino recuou, já preparando o choro.
“Ela tá gritando comigo!”
Patrícia levantou-se imediatamente.
“Não precisa assustar meu filho por causa de umas fotos!”
“São fotografias da nossa família”, Lúcia respondeu. “E ele as jogou no chão porque quis.”
“Depois a empregada arruma”, Patrícia disse.
“Não. Ele vai arrumar.”
Ricardo massageou a testa.
“Mãe, não faça questão de cada detalhe.”
Lúcia olhou para o filho. Viu um homem adulto, bem vestido, com o mesmo rosto do menino que um dia ela obrigara a devolver uma bola tirada do vizinho. Naquela época, Ricardo chorara de vergonha, mas devolvera a bola. Depois aprendera a pedir emprestado.
Em que momento ele começara a confundir amor com ausência de limites?
“Não é um detalhe”, ela respondeu. “É o que vocês ensinam quando deixam que outra pessoa recolha tudo o que ele destrói.”
Enzo chutou uma fotografia para longe.
“Eu não vou pegar nada!”
Patrícia pegou a mão dele.
“Vem, filho. Você não precisa ficar ouvindo isso.”
Os dois subiram. Ricardo voltou ao telefone sem sequer ajudar a mãe a recolher o álbum.
Joana, a empregada da casa, surgiu discretamente à porta e ofereceu ajuda para recolher as imagens. Lúcia agradeceu, mas pediu que deixasse algumas para Enzo guardar quando descesse.
“Ele não vai descer, dona Lúcia”, Joana disse com tristeza. “Dona Patrícia mandou que eu arrumasse tudo.”
“Você não precisa fazer isso. Já trabalhou demais hoje.”
“Eu sei, senhora. Mas se a sala ficar assim, vão dizer que fui descuidada.”
Lúcia observou a moça e sentiu o mesmo aperto que tivera ao ver Marina ser humilhada no restaurante. As duas trabalhadoras, em casas diferentes, eram obrigadas a pagar pela falta de limites de seu neto.
“Vá descansar, Joana. Eu converso com eles.”
A empregada hesitou, agradeceu e se afastou. Lúcia se ajoelhou devagar. Seus joelhos doíam, mas ela alcançou uma fotografia de Ricardo aos sete anos, sorrindo com um uniforme escolar simples. Outra mostrava o marido segurando o filho no colo diante de uma casa pequena.
Ela passou o dedo pela imagem desbotada.
Não queria perder o neto. Queria que ele aprendesse a conviver com o mundo antes que alguém sofresse ainda mais.
Do alto da escada veio a voz de Enzo:
“A mamãe disse que você não manda em mim!”
Lúcia não respondeu. Apenas segurou a fotografia com as duas mãos.
Pela primeira vez, teve medo não só do que Enzo faria no futuro, mas da certeza com que seus pais o ajudariam a negar tudo.
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