"O Menino Mimado Que Destruiu a Própria Família" Capítulo 4 — Isso Não É Brincadeira!
“Não encosta em mim!”
O grito de Camila Ferreira cortou a conversa no restaurante de um shopping dos Jardins.
A jovem de vinte e sete anos segurava a barra da saia com as duas mãos. Acabara de se levantar para buscar água quando Enzo Almeida, sentado à mesa vizinha, puxara sua roupa sem permissão. O menino riu, como se a reação assustada dela fosse o melhor entretenimento da tarde.
“Foi só uma brincadeira!”
Camila virou-se para ele, indignada.
“Você ficou maluco? Quem te deu o direito de fazer isso?”
Enzo continuou sorrindo.
“Eu não fiz nada!”
“Você mexeu na minha roupa!”
“E daí?”
“Isso não é brincadeira! Você não pode mexer na roupa dos outros!”
Enzo afinou a voz, imitando-a.
“Você não pode! Você não pode!”
Uma senhora que almoçava com o marido se levantou.
“Menino, respeita a moça!”
“Cuida da sua vida!”, ele respondeu.
A senhora levou a mão ao peito.
“Olha como ele fala!”
Camila deu um passo para trás, procurando manter distância. Estava constrangida com a atenção de tantas pessoas, mas se recusava a fingir que nada acontecera. Não havia provocado ninguém. Queria apenas terminar o almoço com uma amiga.
“Você vai pedir desculpas”, disse.
Enzo cruzou os braços.
“Não vou.”
“Vai entender que não pode tocar nas pessoas sem autorização.”
“Você não manda em mim!”
A amiga de Camila, Bruna, aproximou-se.
“Eu vi o que ele fez. Camila, você está bem?”
“Estou com raiva. Ele acha que pode fazer o que quiser.”
Enzo esperou que Camila se virasse para Bruna. Então tentou novamente puxar sua roupa. Ela se afastou de imediato e segurou a saia, impedindo a exposição.
“Não encosta em mim!”, repetiu, mais alto.
Duas mães que estavam com crianças pequenas se levantaram. Uma delas puxou a filha para perto.
“Meu Deus, que falta de respeito!”
“Isso não é travessura!”, disse um homem de meia-idade. “Ele está humilhando a moça!”
Enzo deu uma risadinha.
“Vocês estão fazendo drama.”
Camila sentia as mãos tremerem.
“Eu estava apenas almoçando. Por que você acha engraçado me constranger?”
“Porque você fica brava!”, respondeu ele, sem vergonha alguma.
A franqueza cruel deixou a mesa vizinha em silêncio por um segundo.
“Está ouvindo?”, perguntou Bruna aos demais. “Ele faz porque gosta de ver a reação!”
“Cadê os pais dessa criança?”, exigiu a senhora.
Enzo apontou para a bolsa cara sobre sua cadeira.
“Minha mãe tá ali. E meu pai compra esse restaurante se quiser!”
O homem de meia-idade respondeu:
“Seu pai pode comprar muita coisa. Educação, pelo visto, não comprou.”
Enzo cerrou os punhos.
“Vou contar pra minha mãe que vocês me xingaram!”
Patrícia Almeida chegou poucos instantes depois, segurando o celular e uma sacola de compras. Viu o filho cercado por clientes e acelerou o passo.
“Meu filho! O que aconteceu?”
“Essa mulher tá gritando comigo!”, ele disse, apontando para Camila.
Patrícia franziu a testa.
“Por quê?”
Camila respondeu antes que Enzo inventasse outra versão.
“Seu filho puxou minha roupa sem permissão. Eu pedi que parasse e ele tentou fazer de novo.”
Patrícia olhou para o menino.
“Enzo, foi você que fez isso?”
“Foi. Mas era brincadeira.”
A mãe o encarou por um instante. Camila esperou uma repreensão. Bruna cruzou os braços, aguardando que a adulta assumisse a responsabilidade.
Patrícia soltou um suspiro impaciente.
“Meu Deus, moça! Você vai fazer esse escândalo por causa de uma brincadeira?”
Camila sentiu o sangue subir ao rosto.
“Seu filho mexeu na minha roupa sem minha permissão!”
“Ele tem dez anos! Você queria que ele fosse preso?”
“Eu quero que a senhora ensine seu filho a respeitar as pessoas!”
“Não venha me ensinar a criar meu filho!”
A mãe que segurava a filha pequena interveio.
“Senhora, se fosse com sua filha, a senhora acharia engraçado?”
Patrícia virou-se bruscamente.
“Você conhece meu filho?”
“Não preciso conhecer! Eu vi o que ele fez!”
“Então não se meta!”
“Todo mundo aqui tem o direito de se sentir seguro!”, a mulher respondeu.
Um senhor de cabelos grisalhos acrescentou:
“Quando uma criança passa dos limites, os adultos precisam corrigir. É assim que se educa.”
Patrícia riu com desprezo.
“Agora todo mundo virou especialista em educação?”
Enzo se escondeu atrás dela e mostrou a língua para Camila.
“Chorona!”
“Está vendo?”, Camila perguntou. “Ele continua porque sabe que a senhora vai defender qualquer coisa que ele faça!”
Patrícia apontou para a jovem.
“Você está exagerando para aparecer!”
Camila ficou imóvel por um instante.
“Eu estava apenas almoçando”, respondeu, a voz embargada. “Eu não fiz nada contra seu filho.”
Bruna segurou o braço da amiga.
“Você não precisa aceitar que ela fale assim.”
Um funcionário do restaurante aproximou-se, desconfortável.
“Senhoras, por favor, podemos conversar sem gritar?”
“Eu gostaria muito!”, Camila respondeu. “Mas quero que vocês registrem o que aconteceu e preservem as imagens das câmeras.”
Patrícia soltou uma gargalhada.
“Vai fazer boletim de ocorrência por causa de uma brincadeira?”
“Vou procurar orientação sobre os meus direitos”, Camila respondeu. “E quero que o restaurante registre minha reclamação.”
O funcionário assentiu, sem prometer o que não poderia decidir sozinho.
Ricardo Almeida apareceu vindo do corredor do shopping. Carregava o paletó sobre o braço e tinha a expressão de quem fora interrompido em algo importante.
“Patrícia, o que está acontecendo agora?”
“Essa moça está fazendo um escândalo por causa do Enzo.”
Camila se voltou para ele.
“Seu filho mexeu na minha roupa sem autorização. Eu pedi que parasse, e sua esposa está dizendo que a culpa é minha.”
Ricardo olhou para o menino.
“Enzo, você fez isso?”
O garoto deu de ombros.
“Era só brincadeira.”
Ricardo esfregou a testa, aborrecido.
“Tudo bem. Vamos resolver isso logo.”
Camila esperou que ele se desculpasse.
Em vez disso, Ricardo tirou a carteira do bolso.
“Quanto você quer para esquecer essa história?”
Bruna soltou uma exclamação de espanto.
Camila deu um passo à frente.
“O senhor está tentando me comprar?”
“Estou tentando resolver um problema que vocês estão transformando numa tragédia.”
“Eu não estou à venda!”
A senhora da mesa vizinha bateu a mão na mesa.
“Que absurdo!”
“Agora sabemos de onde o menino aprendeu!”, disse o homem de meia-idade.
Ricardo ficou vermelho.
“Não vou aceitar insultos contra minha família.”
Camila respondeu imediatamente:
“E eu não vou aceitar que sua família me humilhe.”
Patrícia agarrou a mão do filho.
“Vamos embora, Enzo. Não vale a pena discutir com esse tipo de gente.”
“Esse tipo de gente?”, repetiu Bruna. “Gente que exige respeito?”
Patrícia fingiu não ouvir.
O funcionário explicou que encaminharia a reclamação ao responsável pelo restaurante. Camila pediu o nome dele e anotou o horário do ocorrido. Uma cliente se ofereceu para confirmar o que testemunhara.
“Você não está sozinha”, disse a mulher.
Camila agradeceu com a voz trêmula. A indignação ainda lhe apertava a garganta, mas a presença de pessoas dispostas a testemunhar a ajudou a se manter firme.
Na saída, Enzo se soltou por um instante da mão da mãe.
Virou-se para Camila e acenou com um sorriso insolente.
“Tchau, chorona!”
Patrícia apenas puxou o menino para perto.
“Vem, meu amor.”
Camila ficou parada, sem acreditar que nenhum dos pais exigira sequer um pedido de desculpas.
A senhora que havia defendido a jovem se aproximou e segurou sua mão.
“Você fez certo em não ficar calada.”
Camila respirou fundo. Os olhos se encheram de lágrimas.
“Eu só queria almoçar em paz.”
Do outro lado do corredor, Enzo caminhava entre os pais, satisfeito. Ricardo reclamava do atraso. Patrícia dizia que o filho precisava esquecer aquela gente desagradável.
Enzo olhou para a mãe e perguntou:
“Eu fiz alguma coisa errada?”
Ela apertou sua mão.
“Você só precisa tomar cuidado com pessoas que gostam de confusão.”
O menino sorriu.
Não ouvira uma única palavra sobre respeito.
Aprendera, mais uma vez, que os outros sempre acabavam levando a culpa.
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