"O Menino Mimado Que Destruiu a Própria Família" Capítulo 3 — A Mãe Que Defendia Tudo
“Você tá dizendo não pra mim?”
Enzo parecia sinceramente ofendido. A palavra nunca lhe soara tão desagradável.
Marina não desviou o olhar.
“Estou. Porque você está fazendo isso de propósito.”
“Você tem que me obedecer!”
“Eu sou garçonete, não sou sua escrava!”
O salão ficou em silêncio. Até os talheres de outras mesas pareceram parar.
Marina apontou para as colheres espalhadas.
“Você jogou sopa quente em mim. Eu tive que pedir desculpas. Agora você fica jogando colher no chão só pra me humilhar!”
Enzo bateu na mesa.
“Cala a boca!”
“Não! Quem precisa aprender a respeitar os outros é você!”
Uma mulher se levantou imediatamente.
“Finalmente alguém falou!”
“Esse menino precisa de limites!”, disse outro cliente.
Enzo olhou ao redor. A garçonete, que antes baixara a cabeça, agora falava diante de todos. Ele apertou os punhos, ficou vermelho e soltou um grito que atravessou o restaurante:
“MÃÃÃE!”
Patrícia Almeida surgiu do corredor dos lavabos, ajeitando a alça da bolsa de grife.
“Meu filho! O que aconteceu?”
Enzo apontou para Marina.
“Ela tá me maltratando!”
Patrícia viu as colheres no chão e franziu a testa.
“Enzo, foi você que jogou tudo isso no chão?”
“Foi.”
A mãe o encarou por um segundo. Alguns clientes se entreolharam, esperando finalmente uma repreensão.
“E por que essa garçonete não trouxe outras?”
Marina ficou sem reação.
Patrícia se voltou para ela.
“Meu filho pediu uma colher. É tão difícil assim fazer seu trabalho?”
“Seu filho jogou seis colheres no chão de propósito!”
“E você contou? Não tinha nada melhor pra fazer?”
A senhora que testemunhara a sopa se levantou.
“Senhora, seu filho queimou essa moça com sopa!”
Patrícia ergueu uma sobrancelha.
“Você é mãe dele?”
“Não!”
“Então não se meta na educação do meu filho!”
Outro cliente interveio:
“Mas alguém precisa educar, porque a senhora não está fazendo isso!”
Patrícia ficou vermelha.
“Essa garçonete está colocando todo mundo contra meu filho!”
“Eu não preciso colocar ninguém contra ele”, Marina respondeu. “Todo mundo viu o que aconteceu!”
Enzo se escondeu parcialmente atrás da mãe e mostrou a língua para a garçonete.
“Roberto!”, Patrícia chamou. “Quero essa funcionária fora daqui!”
O gerente veio depressa. Olhou para as colheres no chão, para a manga molhada de Marina e para os clientes indignados. Mesmo assim, dirigiu-se apenas à funcionária.
“Você já foi advertida uma vez!”
Marina soltou uma risada sem alegria.
“Advertida por quê? Por não aceitar ser humilhada?”
“Controle seu tom de voz.”
“E o senhor vai controlar o comportamento desse menino?”
“Marina, chega!”
“Chega mesmo”, murmurou a senhora. “Já passou da hora.”
Naquele instante, Dona Lúcia Almeida entrou no restaurante. Viera de uma consulta médica e se atrasara para o almoço combinado com a família. Carregava uma bolsa simples e caminhava com cuidado, apoiando-se discretamente na bengala.
Ao ver o neto cercado por adultos irritados, parou.
“O que aconteceu?”
Uma cliente explicou o episódio da sopa. Outra apontou as colheres. Joana mostrou a marca vermelha no braço de Marina.
Lúcia ouviu tudo sem interromper. Depois se aproximou do neto.
“Enzo, você vai pedir desculpas agora.”
Ele revirou os olhos.
“Ah, vó! Você de novo!”
“Você machucou essa moça e ainda fez pouco dela!”
“Eu não vou pedir desculpa!”
“Vai, sim!”
Patrícia colocou-se imediatamente entre os dois.
“Sogra, não grite com meu filho!”
Lúcia voltou-se para a nora.
“Patrícia, você não está criando um filho. Está criando um menino que acha que pode pisar em todo mundo!”
“A senhora já criou o seu filho! Deixe o meu em paz!”
“Eu não vou ficar calada vendo meu neto maltratar uma trabalhadora!”
Patrícia deu uma risada de desprezo.
“Então leve essa garçonete pra sua casa!”
Enzo riu junto.
Marina sentiu o rosto arder. Não precisava que aquela família a acolhesse. Precisava apenas que parassem de tratá-la como alguém sem valor.
“Eu tenho casa, senhora”, respondeu. “E tenho dignidade.”
“Então use essa dignidade para aprender a atender um cliente!”, Patrícia retrucou.
Um homem se levantou.
“Que vergonha! A senhora está ensinando seu filho a desprezar quem trabalha!”
“Meu filho não precisa ouvir sermão de estranhos!”, ela gritou.
Ricardo Almeida entrou no salão naquele momento, guardando o celular no bolso do paletó. Vinha de uma ligação longa sobre negócios e já demonstrava impaciência.
“Que barulho é esse?”
Patrícia correu até ele.
“Essa garçonete gritou com Enzo! Sua mãe chegou e começou a atacar nosso filho!”
Ricardo nem perguntou à funcionária o que havia acontecido.
“Mãe, a senhora está passando vergonha!”
Lúcia arregalou os olhos.
“Vergonha? Seu filho machucou uma mulher!”
“É uma criança!”
“Uma criança que vocês estão ensinando a não respeitar ninguém!”
“Chega, mãe! Não se meta mais!”
Lúcia apertou a alça da bolsa.
“Eu nunca pensei que você fosse se tornar esse tipo de homem.”
Ricardo desviou o rosto, irritado. Enzo olhou para os pais, depois para a avó, e sorriu. Estava protegido outra vez.
Roberto aproveitou a chegada do empresário.
“Senhor Ricardo, peço desculpas pelo transtorno. Já estou resolvendo.”
Voltou-se para Marina.
“Ou você pede desculpas, ou está demitida!”
Ela ficou olhando para ele. Pouco antes, havia pedido desculpas por uma queimadura que sofrera. Tinha engolido a vergonha, lavado o braço e voltado ao trabalho. Em troca, recebera seis colheres atiradas ao chão e mais uma ameaça.
Pensou na filha. No aluguel. Na geladeira quase vazia.
Uma lágrima desceu por seu rosto.
Mas ela não abaixou a cabeça.
Desamarrou lentamente o avental.
“Eu não vou pedir desculpas.”
Roberto pareceu não compreender.
“Marina, pense bem no que está fazendo.”
“Eu pensei quando o senhor me obrigou a pedir desculpas pela sopa. Pensei quando trouxe a segunda colher. E a terceira. E todas as outras.”
Ela dobrou o avental e o colocou sobre a mesa.
“Eu trabalho aqui para ganhar meu salário honestamente. Não para ser humilhada por uma criança mal-educada.”
Patrícia avançou um passo.
“Olha como você fala do meu filho!”
Marina sustentou o olhar.
“Seu filho não nasceu assim, senhora. Alguém ensinou a ele que pode fazer tudo sem sofrer consequências.”
O silêncio que se seguiu foi profundo.
“Eu me demito”, Marina anunciou.
Retirou o crachá e o colocou sobre o avental. Roberto abriu a boca, mas não encontrou resposta imediata.
A senhora da mesa próxima começou a aplaudir. O homem de camisa azul se levantou e a acompanhou. Logo, outras pessoas fizeram o mesmo.
Marina não se sentia vitoriosa. Estava sem emprego, com o braço dolorido e sem saber como pagaria as contas. Ainda assim, caminhou em direção à saída.
Enzo se ergueu na cadeira e gritou:
“Ela foi demitida! Eu ganhei!”
Marina parou por um instante.
Olhou para ele, para Patrícia e para Ricardo.
Não disse nada.
Saiu.
Do lado de fora, o sol de São Paulo batia no asfalto e os carros passavam indiferentes. Marina caminhou até o ponto de ônibus. Sentou-se no banco e deixou que o choro, represado durante todo o almoço, finalmente viesse.
Seu celular vibrou.
Era outra cobrança do aluguel.
Antes que pudesse guardar o aparelho, surgiu uma ligação da filha.
“Mamãe, você vai trazer alguma coisa pra gente jantar?”
Marina fechou os olhos. Enxugou as lágrimas com a mão que não estava machucada.
“Vou, meu amor.”
“Você tá triste?”
“Não, filha. Só estou cansada.”
“Então vem logo. Eu te espero.”
A ligação terminou.
Marina abriu a carteira. Havia apenas algumas notas amassadas e moedas, quase o valor exato da passagem de volta.
Ficou olhando para aquele dinheiro por muito tempo.
Naquele domingo, ela defendera a própria dignidade.
Mas ainda não sabia como colocaria comida na mesa.
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