"O Menino Mimado Que Destruiu a Própria Família" Capítulo 2 — Peça Desculpas ao Menino!
“Eu fui queimada, Roberto! Por que sou eu que tenho que pedir desculpas?”
Marina falou alto o suficiente para que as mesas próximas ouvissem. Seu braço ardia, mas a indignação era ainda mais difícil de suportar.
Roberto Farias ajeitou a gravata.
“Porque você é funcionária e ele é cliente!”
“Ser cliente não dá o direito de maltratar ninguém!”
Algumas pessoas aplaudiram. A senhora que testemunhara o incidente ergueu a mão.
“Ela tem razão!”
“Você vai deixar uma funcionária ser humilhada desse jeito?”, perguntou o homem de camisa azul.
O gerente lançou aos clientes um sorriso rígido.
“Estamos resolvendo internamente.”
“Internamente?”, a senhora repetiu. “Todo mundo viu o que aconteceu!”
Enzo tamborilava os dedos na mesa, encantado com a confusão. Roberto voltou a se aproximar de Marina.
“Quem manda aqui sou eu!”
“E quem responde pela minha queimadura?”, ela perguntou.
“Não faça cena.”
Aquelas três palavras lhe atingiram o peito. Ela queria mostrar a pele avermelhada, pedir que alguém chamasse o proprietário, exigir o mínimo de respeito. Mas Roberto inclinou o rosto e falou tão baixo que apenas ela pôde ouvir:
“Se você não pedir desculpas agora, pode esquecer seu salário do próximo mês.”
Marina abriu a boca e não conseguiu responder.
Na noite anterior, o proprietário do apartamento lhe mandara uma mensagem cobrando o aluguel atrasado. A filha, ainda pequena, perguntara se poderiam comprar frutas na feira. Marina prometera que sim depois de receber. A conta de luz estava sobre a geladeira, presa sob um ímã de propaganda.
Ela não queria que ninguém naquela sala soubesse disso.
Não queria que sua necessidade fosse confundida com fraqueza.
Mas também não podia voltar para casa sem trabalho.
O restaurante inteiro parecia esperar por uma atitude corajosa. Ela desejou ter dinheiro suficiente para jogar o avental sobre a mesa e sair naquele instante. Não tinha.
Marina engoliu em seco.
“Me desculpe.”
Enzo inclinou a cabeça, teatral.
“O quê? Não ouvi!”
O gerente ficou imóvel.
Marina repetiu, com a garganta apertada:
“Me desculpe.”
O menino apontou para ela.
“Ela não tá olhando pra mim!”
“Marina, olhe para o menino!”, Roberto ordenou.
Ela ergueu os olhos. Uma lágrima escorreu antes que conseguisse contê-la.
Enzo abriu um sorriso enorme.
“Agora sim!”
“Isso é uma humilhação!”, disse a senhora.
“Ela foi machucada e ainda tem que pedir desculpas?”, protestou outra mulher.
Roberto fingiu não ouvir.
“Assunto encerrado. Vamos voltar ao almoço.”
Joana se aproximou de Marina.
“Vem comigo.”
As duas entraram na cozinha. O barulho das panelas abafava as vozes do salão. Marina abriu a torneira e deixou a água corrente, fresca, passar sobre a região atingida. A pele estava vermelha e sensível. Joana ofereceu ajuda para comunicar a ocorrência e procurar atendimento.
“Você não devia ter pedido desculpas”, disse, com cuidado.
“Eu sei.”
“Ele fez aquilo de propósito.”
“Eu sei, Joana.”
A colega ficou em silêncio.
Marina encostou a testa por um instante no armário acima da pia. Pensou na filha esperando em casa, na despensa quase vazia, no preço da passagem de ônibus. Chorou sem fazer barulho. Depois enxugou o rosto com papel-toalha.
“Só mais algumas horas”, murmurou para si. “Aguenta, Marina. Você precisa desse emprego.”
Joana apertou seu ombro.
“Eu posso ficar com aquela mesa.”
“Roberto vai dizer que estou me recusando a trabalhar.”
“Então eu fico por perto.”
Marina ajeitou o uniforme, respirou fundo e voltou ao salão. Queria terminar o turno sem novas discussões. Passaria pela mesa sete, atenderia o que fosse necessário e seguiria adiante.
Não tinha dado três passos quando ouviu:
“Moça!”
Era Enzo.
Marina se virou.
“Pois não?”
Ele segurava uma colher limpa entre dois dedos. Olhou para ela, estendeu a mão para fora da mesa e soltou o talher.
O metal bateu no chão.
“Ops! Caiu! Traz outra, rapidinho!”
Marina ficou parada um segundo. Viu o sorriso dele e entendeu perfeitamente a intenção. Ainda assim, foi ao aparador buscar outra colher.
“Está aqui.”
Enzo pegou o talher novo. Esperou que ela se virasse.
Tinlim.
“Caiu de novo!”
Um casal na mesa vizinha parou de conversar.
Marina apertou os lábios. Foi buscar a terceira colher.
Dessa vez, Enzo nem fingiu acidente. Colocou-a na beirada da mesa e empurrou lentamente com a ponta do dedo, olhando diretamente para Marina.
“Ah, não! Outra!”
“Menino, para com isso!”, reclamou um cliente.
Enzo deu de ombros.
“Ela trabalha aqui! É obrigação dela!”
Marina levou a quarta colher. Sua mão tremia tanto que precisou segurar o talher com mais força.
Enzo a soltou no chão antes mesmo de ela afastar a mão.
“Mais uma!”
“Isso é maldade”, comentou uma mulher, indignada.
“É uma criança se divertindo às custas de uma trabalhadora”, respondeu o marido.
A quinta colher caiu.
Depois a sexta.
A cada vez, Enzo aumentava o espetáculo. Fazia uma expressão de surpresa exagerada, abria os braços, reclamava da demora. Queria que os outros clientes olhassem. Queria que Marina se irritasse e fosse punida de novo.
Joana observava da entrada da cozinha, sem saber como intervir sem colocar o próprio emprego em risco.
Marina sentia a humilhação se transformar numa pressão quente dentro do peito. Tentou contar mentalmente até dez. Tentou imaginar o rosto da filha. Tentou se convencer de que aquele menino se cansaria.
Mas Enzo não se cansava.
“Vai demorar muito?”, perguntou ele, batendo na mesa.
Roberto passou naquele momento e encontrou Marina parada diante da cadeira.
“Marina! Não deixe o cliente esperando!”
Enzo apontou para os talheres espalhados pelo chão.
“Ela tá demorando!”
“Então traga outra!”, o gerente ordenou.
A senhora da mesa próxima levantou a voz:
“Você não está vendo que ele está fazendo isso de propósito?”
Roberto nem respondeu.
Enzo começou a rir tão alto que quase caiu da cadeira. Estendeu o braço e fez um gesto chamando Marina com o dedo.
“Vai, vai! Mais rápido!”
Do outro lado do salão, uma família decidiu pedir a conta antes da sobremesa. A mãe explicou ao marido que não queria que os filhos aprendessem a rir de alguém que estava trabalhando. O pai concordou, mas o gerente não percebeu a saída: estava ocupado demais tentando agradar Enzo.
Joana passou por Marina e sussurrou que podia testemunhar o que vira. Marina agradeceu com um olhar. Era importante saber que não estava imaginando a crueldade, que outras pessoas tinham percebido a intenção por trás de cada colher lançada ao chão.
Ainda assim, nenhuma testemunha podia pagar seu aluguel naquela noite. Essa era a parte que mais doía. Para Enzo, a tarde era um jogo; para Marina, cada minuto podia custar a segurança da filha. Ele não tinha como compreender a diferença, porque ninguém em sua casa jamais lhe exigira que pensasse nas necessidades de outra pessoa.
Uma nova gargalhada do menino atravessou o salão. Marina endireitou os ombros, segurando a bandeja com as duas mãos. Se precisasse tomar uma decisão, queria ao menos que fosse dela.
Algo mudou no rosto dela.
Não foi uma explosão repentina. Foi a decisão silenciosa de não suportar mais uma humilhação.
Marina olhou para as seis colheres no chão, para o gerente que fingia não enxergá-las e para o menino que parecia se divertir com seu sofrimento.
Pousou o pequeno prato que carregava.
“Não.”
Enzo interrompeu a risada.
“O quê?”
Ela manteve os olhos nele.
“Eu não vou pegar outra colher.”
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