"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" EXTRA 1 — A sua família pode esperar
EXTRA 1 — A sua família pode esperar
No primeiro Natal depois de passar a morar de vez com Augusto, Helena decidiu que não sairia de casa.
Tinha acabado de completar vinte anos. O semestre terminara, os livros estavam empilhados numa cadeira e a única roupa que desejava usar naquela tarde era um pijama leve, velho o bastante para não precisar de cuidado.
Na sala de televisão, acomodou uma tigela de cerejas junto ao braço do sofá e escolheu um filme que não exigia nenhuma concentração extraordinária.
Augusto apareceu com uma camisa já passada e o telefone na mão.
"Ainda não se arrumou?"
Ela olhou para o pijama.
"Estou arrumada para o que pretendo fazer."
Ele parou perto da mesa.
"Minha mãe ligou."
"Imagino."
"Quer saber a que horas chegamos."
Helena pegou outra cereja.
"Você pode responder por você."
Augusto levou alguns segundos para aceitar que não se tratava de uma brincadeira. Sentou ao lado dela, tirando a tigela do espaço em que pretendia apoiar o braço.
Helena a trouxe imediatamente para o próprio colo.
"Isso estava muito bem ali."
"Estou tentando conversar."
"Pode conversar sem reorganizar a minha comida."
Ele respirou fundo, com uma paciência que ela conhecia melhor nas reuniões de trabalho do que dentro de casa.
"Vai ser uma ceia pequena. Não precisa ficar até tarde."
"Para você, uma ceia pequena tem quantas pessoas?"
"Umas vinte."
Helena fez uma expressão incrédula.
"Então o que seria uma ceia grande? Um congresso?"
Ele quase sorriu.
"Você conhece boa parte delas."
"Exatamente."
O filme continuava ao fundo, com uma personagem perdida num aeroporto. Helena reduziu o volume, sem desligá-lo. Não queria oferecer àquela conversa a sala inteira.
Augusto percebeu o gesto.
"Não vão tratar você mal."
Ela olhou para ele.
"Já trataram."
O silêncio o fez abandonar o argumento seguinte.
A morte de Eduardo havia acontecido no começo daquele ano. Muitos meses tinham passado, mas Helena ainda lembrava de como sua mãe fora afastada das despedidas, das acusações no corredor do hospital e da certeza de que os sentimentos de ambas ocupavam o último lugar na organização da família.
Desde então, vira Antônio e Lídia poucas vezes, em encontros breves demais para chamar de convivência.
Uma ceia seria outra coisa. Haveria convidados, fotografias, perguntas e o novo lugar que Augusto queria lhe dar à mesa.
"Você acha que basta eu entrar segurando seu braço e está tudo resolvido?", perguntou.
"Não acho isso."
"Mas está me pedindo que vá como se não houvesse nada para resolver."
Ele olhou para a televisão, talvez procurando uma resposta num filme que não conhecia.
"Não podemos evitar minha família para sempre."
"Você não está evitando. Vai lá. Eu só não vou junto hoje."
"Não gosto de deixar você sozinha no Natal."
Helena ergueu a tigela.
"Tenho comida, um filme e uma paz excelente. Não estou sendo abandonada numa praça."
A palavra abandonada lhes trouxe uma lembrança que nenhum dos dois comentou.
Augusto se recostou.
"Você poderia pelo menos pensar mais um pouco."
"Pensei enquanto você estava trabalhando."
"E não me avisou."
"Você também avisou à sua mãe que eu iria antes de perguntar."
Ele baixou os olhos para o telefone.
Nesse ponto, Helena soube que tinha tocado a parte certa do problema. As roupas, o carro e o horário tinham sido organizados ao redor de uma presença que ainda não concordara em existir.
"Se você quer mesmo casar comigo depois que eu terminar a faculdade, vai ter outras festas", disse. "Não precisa transformar esta numa prova."
Augusto guardou o telefone no bolso.
"Não é uma prova."
"Então eu posso faltar sem ser reprovada."
Ele a observou, vencido pelo encadeamento simples que ela se recusava a abandonar.
"Está bem."
Helena desconfiou da facilidade.
"Está bem o quê?"
"Não vai. Eu janto lá e volto."
Ela assentiu, satisfeita. Aumentou um pouco o som e ofereceu uma cereja como quem encerrava uma negociação.
Augusto pegou a fruta.
"Vai me oferecer só uma?"
"Você ainda tem uma ceia inteira."
Ele sorriu enfim. A expressão lhe fez parecer menos distante do que a camisa impecável e o relógio deixavam supor.
Helena acomodou as pernas sob o corpo. Estava prestes a voltar ao filme quando se lembrou de uma pergunta que vinha guardando havia meses.
"Eu tenho cara de interesseira?"
Augusto parou de mastigar.
"De onde tirou isso?"
"Do que seu pai disse. Das caras que fazem. De como parece mais fácil acreditar que eu planejei tudo."
Ele pousou o caroço num guardanapo.
"Meu pai estava com raiva."
"E eu estava com medo. Isso não fez ninguém tratar minhas palavras como uma coisa sem importância."
Augusto não tentou negar.
Helena olhou a tigela.
"Nunca fui atrás dele. Do dinheiro, da família, de nada disso. Minha mãe casou com Eduardo. Eu só fui junto."
Ela não disse o restante. A sala era confortável, a discussão já tinha custado energia, e naquela tarde queria poder escolher o ponto em que pararia.
Augusto pegou um guardanapo limpo e lhe ofereceu.
"Tem suco aqui", disse, indicando o canto da boca.
Helena limpou sozinha.
"Não muda de assunto."
"Não estou mudando. Você não precisa aceitar o que ele disse."
"Você pode falar isso para ele também."
O pedido o fez encará-la com mais atenção.
"Vou falar."
Ela não agradeceu antes que acontecesse. Apenas pegou outra cereja, desta vez sem a pressa irritada de antes.
Augusto se levantou para sair. Deu dois passos e voltou ao perceber que Helena já prestava atenção na televisão.
"Você não vai nem sentir minha falta?"
Ela pausou o filme outra vez.
"Você disse que ia jantar e voltar. Não falou em atravessar o oceano a remo."
Ele riu pelo nariz.
"Você está muito engraçada hoje."
"É o descanso. Recomendo."
Augusto se sentou novamente, tirando o relógio para olhar o horário como se o objeto pudesse lhe oferecer uma exceção.
"Posso ficar dez minutos."
"O filme já passou do meio. Você não vai entender."
"Você explica."
Helena resumiu as personagens em três frases. Quando ele fez uma pergunta, precisou corrigir o nome de uma delas e acabou rindo da expressão séria com que ele tentava acompanhar uma história absurdamente simples.
Os dez minutos viraram vinte.
Augusto passou o braço pelo encosto. Helena se inclinou um pouco, confortável, e depois percebeu que ele olhava mais para ela do que para a tela.
"A personagem está ali", avisou.
"Eu vi."
"Então por que está olhando para cá?"
Ele beijou sua testa. Ela empurrou de leve o ombro dele quando tentou prolongar a distração.
"Ainda estou vendo o filme."
Augusto se afastou o suficiente para deixá-la terminar a cena. Helena, divertida apesar de si mesma, colocou uma cereja na mão dele e voltou a encostar.
O telefone vibrou no bolso da camisa.
Ele ignorou a primeira chamada. Na segunda, Helena apontou o aparelho.
"Sua ceia está procurando você."
Era Pedro.
"Meu tio, todo mundo chegou. A vovó mandou perguntar se o carro quebrou."
Augusto fechou os olhos por um instante.
"Estou saindo."
"Você disse isso faz meia hora."
Helena ouviu e não conseguiu conter a risada. Pedro ficou em silêncio na outra ponta.
"Ela está rindo de quê?"
"De você", Augusto respondeu, encerrando a ligação antes de ouvir o protesto.
Helena lhe devolveu o relógio.
"Pode dizer que fui eu que atrasei, mas não inventa que tive vontade de ir."
Ele colocou o relógio e se levantou, agora de verdade.
"Quer alguma coisa da ceia?"
"Sobremesa. Sem discurso junto."
"Vou ver o que consigo."
Na porta, Augusto olhou para trás uma última vez. Helena já havia retomado o filme, uma almofada sob o braço, a tigela de cerejas ao alcance.
Não parecia triste, nem perdida, nem especialmente agradecida pela concessão.
Parecia satisfeita porque uma pequena parte do dia tinha acontecido do jeito que escolhera.
Augusto saiu mais tarde do que devia.
Helena terminou o filme, comeu as últimas cerejas e deixou uma tigela limpa sobre a mesa. Quando ele voltou com duas sobremesas embaladas, ainda estava acordada.
"Trouxe sem discurso?", perguntou.
Ele lhe entregou a sacola.
"Fiz o possível."
Ela abriu uma das caixas e separou duas colheres.
"Então senta. Essa parte do Natal eu aceito."
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