"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 83
Vamos para casa
Helena demorou a responder.
Um carro passou pela poça junto à guia. Lucas puxou o guarda-chuva um pouco para trás, protegendo-a do respingo por hábito, mesmo enquanto a pergunta permanecia entre os dois.
"Eu não pedi que esperasse por mim", ela disse.
Ele fechou os olhos brevemente.
"Eu sei."
"Eu disse que não podia continuar. Não foi um pedido para você provar alguma coisa."
Lucas olhou para ela de novo.
"Você gostava de mim. Falou isso naquela mesa."
"Gostava."
"Então como..."
"Não consigo transformar tudo o que aconteceu depois numa explicação que faça sentido aqui."
Helena apontou discretamente o passeio estreito, a chuva, a entrada do restaurante onde os colegas começavam a se reunir.
"Eu terminei a faculdade. Casei. Moro com meu marido. É a vida que tenho agora."
Lucas engoliu em seco.
"Você fala como se só estivesse descrevendo um endereço."
Ela sentiu a frase encontrar um ponto doloroso demais.
"Porque você está me pedindo quatro anos em cinco minutos."
O rosto dele mudou. Por um instante, pareceu compreender. Depois olhou a aliança e o gesto duro voltou.
"Eu teria levado você comigo. Se queria sair do Brasil, podia ter falado. A gente teria dado um jeito."
"Não foi uma viagem que eu estava tentando escolher."
A voz saiu mais baixa do que Helena pretendia.
Lucas se aproximou meio passo.
"Então me conta."
Ela olhou para a entrada. A assistente descarregava as caixas; Camila estava sob a cobertura, procurando alguém na rua.
"Não vou fazer isso agora."
"Você nunca vai fazer?"
"Talvez não do jeito que você quer."
Ele segurou seu pulso antes que ela se afastasse. Não foi um gesto brusco de início, mas interrompeu seu movimento de modo tão conhecido que Helena parou de olhar o rosto dele e passou a olhar a mão.
"Solta, por favor."
"Eu só preciso entender."
"Pode perguntar sem me segurar."
Lucas percebeu o gesto, mas demorou a afrouxá-lo.
"Uma parte de mim ainda pensa que devia estar com você. Eu nunca deixei de..."
"Não diga isso como se eu tivesse deixado uma vaga para você voltar."
Ele ficou pálido.
"Você poderia se separar."
Helena ergueu o rosto, firme dessa vez.
"Não vim aqui para combinar uma vida com você. E não vou aceitar que fale do meu casamento como um obstáculo que basta tirar do caminho."
Tentou recolher a mão. A bolsa escorregou pelo antebraço, e o telefone, que ainda segurava com os dedos frios, caiu.
O som da tela contra o chão os calou.
Lucas soltou imediatamente o pulso dela.
Curvou-se, recolheu o aparelho e limpou as gotas na própria camisa antes de entregá-lo. Uma linha clara cortava o vidro de um lado ao outro; pequenas fissuras se abriam perto da borda.
"Desculpa", disse.
Helena pegou o telefone. O aparelho ainda respondia ao toque.
"Não faça isso de novo."
"Não vou. Eu perdi a cabeça."
Ele olhou sua mão, como se agora lhe parecesse estranha.
"Deixa eu pagar o conserto."
"Eu resolvo."
Helena recuou o suficiente para se separar do guarda-chuva. A chuva já quase terminara. Preferia algumas gotas na roupa à proximidade que acabava de mudar de significado.
"Você foi importante para mim", disse. "Isso não desapareceu. Mas eu não sou uma coisa que ficou esperando no mesmo lugar."
Lucas assentiu sem conseguir olhar diretamente para ela.
Entregou o guarda-chuva. Ao pegar a haste, Helena cuidou para que os dedos não se tocassem.
"Espero que a sua vida seja boa", falou.
Não acrescentou outra promessa. Ele murmurou um agradecimento e foi embora pelo caminho que haviam feito juntos.
Helena esperou alguns segundos sob a marquise de uma loja fechada. Limpou os olhos, conferiu se a tela rachada ainda mostrava a mensagem de Camila e respondeu que estava chegando.
Quando se aproximou do restaurante, a amiga correu até ela.
"Finalmente! Achei que você tivesse desistido no aeroporto."
Helena a abraçou com força.
"Não desisti."
A assistente perguntou se estava tudo bem. Helena respondeu que sim, agradeceu a ajuda e combinou que mandaria mensagem ao terminar.
Na sala reservada, os presentes causaram exatamente a agitação que Augusto previra.
Uma colega abriu o perfume, outra experimentou a pulseira; alguém ergueu o caderno dizendo que finalmente teria um lugar elegante para anotar contas atrasadas.
Helena riu junto.
"Meu marido quis mandar um cumprimento. Não precisam fazer discurso."
"A gente aceita sem dificuldade nenhuma", Camila respondeu, escolhendo uma cadeira ao lado dela.
Logo a mesa ficou cheia de pratos e de histórias que precisavam competir por espaço. Uma colega dava aulas; outra trabalhava numa editora; um rapaz começara o mestrado e descobrira que sentiria saudade das provas com hora marcada.
O restaurante fora escolhido por uma antiga aluna que agora coordenava eventos ali. Todos se orgulhavam de ajudá-la, embora discutissem se ela merecia o crédito por conseguir fazer vinte pessoas concordarem com um horário.
Helena ouviu mais do que falou no início. Depois contou sobre a mudança, uma viagem em que confundira a entrada de um museu e o clube de leitura que encontrara perto de casa.
Camila a observava com um sorriso.
"Você está diferente."
Helena tocou o cabelo, desconfiada.
"Cortei só um pouco."
"Não é o cabelo. Antes parecia que estava sempre tentando ocupar metade de uma cadeira."
Ela olhou para a própria postura e riu.
"Essa cadeira é pequena. Não tenho escolha."
"Estou falando sério. Está bonita. E com uma cara de quem finalmente compra roupa porque gostou."
Helena aceitou o elogio. Não precisava discutir cada coisa boa que alguém via nela.
Uma colega perguntou se havia fotografia do marido.
Ela encontrou uma imagem dos dois numa viagem e a mostrou. Ouviu comentários sobre a idade, o porte, a maneira como ele a segurava junto ao corpo.
"Como se conheceram?", Camila perguntou.
Helena bebeu um gole de suco antes de responder.
"Num casamento da família. Minha mãe tinha se casado. Ele era um dos convidados."
Não era mentira até ali. A facilidade de continuar, porém, surpreendeu até a ela.
"A gente se encontrou outras vezes. Depois que terminei o curso, decidiu casar."
"Ele decidiu sozinho?", alguém brincou.
Helena sorriu no instante certo.
"Eu também assinei."
A mesa riu. Camila perguntou se ele fora romântico no pedido, e Helena falou da pedra verde, de como o anel servira, de uma cerimônia com vento e poucos convidados.
Omitiu a gaveta, a primeira noite em que recebera a joia e todas as palavras que tinham vindo antes.
"Eu queria uma história de amor assim", comentou uma colega.
Helena sentiu o sorriso ficar imóvel por um segundo.
Amor era uma palavra pequena para tantas coisas que não cabiam juntas com facilidade.
Augusto podia reconhecer seu silêncio à distância, preparar a comida de que gostava, esperar que dormisse antes de retirar a mão de suas costas. Também podia saber onde ela estava sem perguntar, decidir que sua vontade era apenas uma resistência a vencer.
Ela não conseguiria contar aquilo entre o prato principal e a sobremesa.
Perguntou à colega sobre o emprego novo, e a conversa seguiu.
Ao terminar, abraçou Camila novamente. Combinaram outra visita sem estabelecer uma data impossível de cumprir.
Na calçada, Helena pegou o telefone para chamar a assistente e viu a rachadura refletir a luz.
Havia uma loja de assistência técnica logo adiante. Perguntou quanto tempo levaria para trocar a tela e recebeu uma estimativa curta, compatível com o horário do voo.
Mandou mensagem pedindo que viessem buscá-la um pouco depois e entrou.
O atendente examinou o aparelho. Explicou as opções de peça, o preço e o prazo. Helena escolheu uma tela adequada, sem pagar pelo modelo mais caro apenas porque podia.
Sentou perto do balcão enquanto ele trabalhava.
Quando o aparelho voltou a ligar, o atendente pediu que ela desbloqueasse a tela para conferir o funcionamento. Helena testou a imagem, a câmera e o toque.
Uma mensagem do sistema apareceu durante a verificação. O homem franziu o rosto.
"Esse telefone é de uma empresa?"
"Não. É meu."
Ele lhe mostrou um aviso relacionado ao gerenciamento do aparelho. Havia uma configuração administrativa ativa, vinculada a um serviço que ela não reconhecia.
"Pode ser uma preparação feita antes de entregarem o celular", explicou. "Eu não consigo dizer quem configurou só olhando isso. Mas aqui há acesso contínuo à localização. A senhora sabia?"
Helena se inclinou sobre o balcão.
O nome do serviço lhe era desconhecido. O sentido daquela permissão, não.
De repente, lembrou do parque. Da voz dizendo que olhasse para a esquerda. De perguntas que Augusto fazia depois de já conhecer a resposta. Dos aparelhos novos que chegavam prontos para uso, entregues por uma pessoa eficiente, com o cuidado de sempre.
Ela não tinha diante de si uma explicação completa para todos os anos. Tinha o suficiente para deixar de chamar de coincidência certas chegadas.
"Quer que eu interrompa o teste?", o atendente perguntou.
Helena percebeu que segurava a borda do balcão com força.
"Isso veio no telefone?"
"Não é uma função que eu esperaria encontrar ativa num aparelho pessoal sem você saber. Posso registrar o que aparece aqui para você consultar alguém de confiança. Não alterei nada."
Ela fechou os olhos brevemente.
A loja continuava aberta para a rua. Uma moça escolhia uma capa colorida; outro cliente perguntava por um carregador. Havia pessoas ali que não conheciam Augusto e não aguardavam ordens dele.
Helena abriu os olhos.
"Deixa como está. Quero só a tela."
O atendente hesitou.
"Tem certeza?"
"Tenho. Não mexe nessa configuração."
Não disse que estava certo. Não disse que havia permitido. A decisão de não retirar naquele momento era sua, tomada com o estômago apertado e o conhecimento de uma rotina à qual já não era simples dar outro nome.
Pagou o conserto. Guardou o recibo na bolsa, ao lado do bilhete de embarque.
A assistente a encontrou sob a cobertura, com o telefone intacto por fora.
Durante a viagem, Helena não dormiu. Viu a própria fotografia no aparelho, a que Rafael tirara no restaurante de Santa Clara. Ampliou o rosto sorridente, depois reduziu a imagem.
Pensou em Camila, em Lucas, no pai. Em como cada um conhecia uma parte dela e acreditava estar falando com a pessoa inteira.
Quando o carro chegou à casa em São Paulo, já era noite.
Augusto estava na entrada.
Helena desceu segurando a bolsa. Ele olhou seu rosto, o vestido, o telefone que ela trazia na mão.
"Chegou."
"Cheguei."
"Foi bom?"
Ela assentiu.
"Foi bom ver a Camila."
Augusto estendeu a mão, como fazia nas escadas, nos aeroportos, nas ruas cheias de gente.
Helena olhou aquela palma aberta.
Sabia agora de uma coisa que ele ainda não sabia que ela soubera. Poderia perguntar. Poderia recuar. Nenhum desses pensamentos se tornou movimento naquela noite.
Colocou a própria mão na dele.
Os dedos de Augusto se fecharam, quentes e firmes.
"Vamos para casa", ele disse.
Helena ergueu os olhos e encontrou o rosto que conhecia havia quatro anos, sereno sob a luz da entrada.
"Vamos."
E atravessou a porta ao lado dele.
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