"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 82
Debaixo do mesmo guarda-chuva
A mensagem de Camila chegou enquanto Helena separava roupas para a volta.
Uma fotografia antiga da turma acompanhava o convite. Na imagem, todas pareciam mais cansadas do que lembravam: o último semestre, uma apresentação, alguém segurando um copo de café como se fosse um prêmio.
"Soube que você está no Brasil. Vamos almoçar amanhã em Curitiba. Consegue vir?"
Helena ampliou a foto. Encontrou a própria figura na segunda fila, meio escondida atrás de uma colega mais alta.
Responder que não seria fácil. A mala estava quase pronta; o voo para os Estados Unidos sairia dois dias depois. Não precisava reorganizar nada.
Mas sentiu saudade do modo como Camila a puxava para dentro das conversas, sem perguntar antes se ela tinha algo brilhante a dizer.
"Consigo. Me passa o lugar."
Quando Augusto chegou, Helena já consultava horários de avião.
"Vou a Curitiba amanhã", contou. "O pessoal de Letras vai se encontrar. Um almoço."
Ele deixou as chaves na mesa.
"Quantas pessoas?"
"Não sei ainda. Vinte e poucas, acho."
"Camila vai?"
"Foi ela que chamou."
Augusto observou a tela, onde apareciam duas opções de voo.
"Quer voltar no mesmo dia?"
"Quero."
Helena esperou a próxima pergunta. Sentiu-se tola por explicar mais do que precisava, mas explicou mesmo assim.
"É só a nossa turma. Não é um encontro de todos os cursos."
O olhar dele passou brevemente pelo seu rosto.
"Não precisa fazer uma apresentação para ir almoçar com amigas."
Ela quase perguntou por que então contava as pessoas antes de comentar a viagem. Em vez disso, voltou à escolha do horário.
"Esse chega cedo."
"Vou pedir para organizarem."
"Eu consigo comprar a passagem."
"Eu sei. Só posso facilitar."
A frase tinha aprendido a se encaixar em quase qualquer decisão.
Augusto ligou para uma assistente da equipe brasileira. André cuidava agora de outras funções no exterior, mas a eficiência que deixara na rotina não havia diminuído.
Perguntou por lembranças para os colegas de Helena. Ela tentou interromper dizendo que não era necessário; ele respondeu que desejava mandar um cumprimento como marido.
No dia seguinte, havia pequenas caixas na sala: perfumes de tamanho discreto, cadernos bonitos, canetas e algumas pulseiras. Nada tão ostensivo quanto a joia guardada na gaveta, mas suficiente para transformar sua chegada num acontecimento.
"Vão achar que estou exagerando."
"Vão achar gentil."
Helena abriu uma caixa e a fechou novamente.
"Não são clientes, Augusto."
"Sei disso."
Ele informou que a assistente viajaria com ela para ajudar com os presentes e o deslocamento. Disse que poderia deixá-la no restaurante e voltar para buscá-la, sem participar do almoço.
Helena olhou todas as caixas. A organização já estava feita; recusar cada parte exigiria uma energia desproporcional ao que ela queria, que era apenas passar algumas horas com a antiga turma.
"Ela fica fora da sala."
"Como preferir."
Em Curitiba, encontraram chuva fina.
Helena reconheceu o cheiro das ruas molhadas ao sair do aeroporto. O carro percorreu caminhos que ela fizera tantas vezes de ônibus. Uma padaria mudara de nome; um muro agora trazia uma pintura que não existia no último ano do curso.
Perto do restaurante, o trânsito parou. Ela pediu para descer a duas quadras, levando apenas a bolsa e um guarda-chuva. A assistente seguiria com os presentes até a entrada.
"Tenho o endereço", Helena disse, antes que a mulher propusesse acompanhá-la a pé.
Saiu do carro e abriu o guarda-chuva. Precisou levantá-lo mais alto quando uma pessoa passou no sentido contrário.
Ouviu o próprio nome.
Virou-se.
Lucas estava sob a cobertura de uma loja, segurando uma pasta fina. Usava uma camisa sem gravata e tinha o cabelo um pouco mais curto. O rosto perdera a hesitação de estudante, mas não a maneira de olhá-la como se sua resposta importasse antes de qualquer outra coisa.
"Oi", ele disse.
Helena demorou um segundo.
"Oi, Lucas."
Ele olhou o guarda-chuva pequeno, depois a chuva.
"Indo para o almoço?"
"Você também?"
"Alguns amigos meus namoram meninas da sua turma. Falaram do encontro. Eu estava por aqui e pensei em passar."
A explicação veio um pouco depressa.
Helena assentiu. Tinham retomado um contato distante depois de ele voltar ao Brasil, mensagens ocasionais e cumprimentos em datas especiais. Ela soubera da empresa. Ele soubera do casamento por outras pessoas antes que voltassem a conversar.
Nunca haviam falado da mesa do café.
"Sua amiga está me ensinando a chegar atrasado", Lucas comentou. "Disse que só começa a valer quando todo mundo senta."
Helena sorriu, reconhecendo Camila naquela desculpa.
Ele saiu da cobertura e tocou a haste do guarda-chuva.
"Posso? Assim não fico te empurrando para fora."
Ela lhe entregou. Caminharam lado a lado, com uma distância pequena imposta pelo tecido acima deles e outra, muito maior, pelo que não diziam.
"Você está bem?", ele perguntou.
"Estou. E você?"
"Trabalhando bastante."
"Vi algumas coisas sobre a empresa. Parabéns."
"Obrigado. Ainda parece que estou fazendo tudo pela primeira vez. Só ficou mais caro errar."
Ela riu baixinho.
O sinal fechou. Esperaram na esquina, ouvindo a água escorrer pela borda do guarda-chuva.
"Você volta para fora quando?"
"Depois de amanhã."
"E vem de novo..."
"Não sei. Talvez no fim do ano."
Lucas assentiu, olhando a luz vermelha.
"Ele cuida de você?"
Helena apertou a alça da bolsa.
"Nossa vida está bem."
O sinal abriu, e a frase ficou atrás deles sem parecer uma resposta completa.
Perto da entrada do restaurante, Lucas diminuiu o passo.
"Acho melhor eu não entrar."
"Você veio até aqui."
"Foi. Mas não quero que passem o almoço inventando histórias só porque nos viram chegando juntos."
Ela olhou para ele, reconhecendo uma gentileza antiga.
"Obrigada por pensar nisso."
Lucas moveu a cabeça de leve.
"Pensei em você durante muito tempo, Helena. Isso não ficou difícil de repente."
Ela baixou os olhos para o telefone. Uma mensagem de Camila perguntava onde estava.
"Estão me procurando."
Deu um passo para fora do guarda-chuva, pretendendo atravessar o pequeno espaço que faltava até a cobertura.
"Helena."
A voz dele a deteve.
Lucas parecia lutar para recuperar uma compostura que funcionara durante todo o caminho.
"Sei que você casou. Sei que não devia falar disso agora. Mas eu preciso perguntar uma coisa."
Ela permaneceu em silêncio.
"Quando você terminou comigo, eu pensei que precisava voltar melhor. Com alguma coisa para oferecer além de querer ficar. Estudei, trabalhei, voltei antes de alguns colegas. E quando cheguei..."
Ele respirou pela boca, olhando a aliança dela.
"Você já tinha ido embora."
Helena sentiu a chuva fria tocar a ponta dos dedos.
"Lucas..."
"Por que você não esperou?"
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