"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 80
Tia Helena
Bianca apareceu na entrada do salão ao lado do pai, e as conversas se dissolveram na música.
Helena se levantou com os demais convidados. O vestido da noiva tinha uma elegância que combinava com ela: linhas claras, poucos detalhes, nenhum movimento feito para pedir aprovação.
Pedro, à frente, abandonou por um instante a expressão treinada de quem sabia receber pessoas. Sorriu de um jeito tão aberto que Helena quase não o reconheceu.
Augusto também percebeu.
"Finalmente está prestando atenção", murmurou.
Helena segurou o riso. Sentaram quando a cerimônia começou, e ela acompanhou a troca de votos com as mãos sobre a bolsa.
A última vez que estivera num casamento daquela família como simples convidada, a própria vida ainda lhe parecia organizada. Marisa usava um vestido novo, Eduardo olhava para a mãe dela com uma felicidade tranquila, e Augusto era um homem a quem se dirigia com respeito por não conhecê-lo direito.
Agora estava ao lado dele, de aliança no dedo.
Pedro beijou Bianca sob os aplausos. Helena bateu palmas, sinceramente contente pelos dois, e depois inclinou a cabeça para o marido.
"Na hora dos cumprimentos, posso levantar e ir ao banheiro?"
Augusto olhou para ela.
"Pode ir quando quiser. Por que precisa ser nessa hora?"
"Porque seu sobrinho vai chegar aqui."
"É a ideia dos cumprimentos."
Helena apertou os lábios.
"Você entendeu."
Ele compreendeu enfim e baixou os olhos para esconder uma diversão que ela percebeu mesmo assim.
"Não vai acontecer nada."
"Ele é mais velho que eu."
"Continua sendo meu sobrinho."
"Esse é o problema."
Augusto pousou a mão ao lado da dela, sem prendê-la.
"Não precisa fugir da própria cadeira."
Helena respirou fundo e olhou as mesas. Algumas pessoas desviaram o rosto rápido demais; outras lhe devolveram sorrisos. Não era novidade. Ainda assim, nunca se acostumava completamente à sensação de que sua presença continha uma pergunta que ninguém tinha coragem de fazer.
No casamento deles, um ano antes, pedira que evitassem discursos sobre a família. A cerimônia fora numa ilha, com poucos convidados e vento suficiente para desarrumar até os arranjos mais caros.
Antes de sair do quarto, examinara o rosto no espelho por tanto tempo que a maquiadora perguntara se precisava corrigir alguma coisa.
Helena dissera que não.
Augusto a esperava do lado de fora. Ao vê-la, não falou do vestido nem do horário. Perguntou se queria caminhar até a cerimônia com ele.
Ela segurou seu braço.
Na recepção, Antônio lhe dera os parabéns com um aperto de mão breve. Lídia beijara seu rosto e lhe entregara uma pequena caixa com brincos de família, dizendo que esperava paz entre os dois.
Helena agradecera.
Não perguntou o que havia mudado. O filho deles continuava sendo o mesmo homem que decidira casar, e o poder de transformar recusas alheias em silêncio também continuava com ele.
Marisa comparecera usando um vestido escolhido durante uma viagem. Chorara na cerimônia, abraçara a filha e comentara que estava linda.
Helena aceitara o abraço sem conseguir voltar a ser a menina que acreditava que a mãe lhe abriria qualquer porta.
Naquela noite, já longe dos convidados, retirara os sapatos e sentara na cama. Augusto se ajoelhara para desfazer a fivela que ela não alcançava.
"Está arrependida do vestido?", perguntara, vendo o silêncio.
"Dos sapatos, com certeza."
Ele rira. Ela também, depois de algum esforço. Havia descoberto que certas coisas podiam ser agradáveis sem que o passado se tornasse outra história.
Um garçom trouxe água e a fez voltar ao salão de Pedro e Bianca.
Augusto lhe entregou o copo.
"Você está muito longe."
"Só estava lembrando."
Ele não perguntou de quê.
Depois de se mudarem, Helena recusara várias festas. Era mais fácil ficar com um livro do que aprender nomes enquanto tentava adivinhar o que cada pessoa sabia sobre sua vida.
Augusto certa vez deixara um convite na mesa e perguntara se a razão era falta de vontade ou medo.
"Não sei fazer tudo o que aquelas mulheres fazem", ela admitira. "Não sei conversar sobre cada viagem, cada projeto, cada pessoa importante."
"Você não precisa fazer tudo."
"E se eu falar alguma bobagem?"
"Provavelmente metade da mesa também vai falar."
Helena rira, contrariada.
Ele dissera que poderia escolher as reuniões de que gostava. Que não precisava virar anfitriã profissional só porque se casara com ele. Acrescentara, com a seriedade de quem discutia uma expansão de negócios, que no Brasil ninguém teria motivo para tratá-la como uma intrusa.
"E lá fora?", ela perguntara.
"Ainda estou trabalhando nisso."
A honestidade calculada a divertira mais que uma promessa absoluta.
Desde então, aprendera a comparecer sem se obrigar a gostar de tudo. Escolhia uma pessoa com quem conversar, fazia perguntas reais e ia embora quando se cansava.
Também aprendera que não queria construir uma vida dedicada a provar que merecia estar ao lado dele. Tinha terminado seu curso, gostava de ler, de cozinhar quando ninguém transformava isso em dever, de passar uma tarde sem resolver nada extraordinário.
Não pretendia pedir desculpa por ser assim.
"Vai me defender se eu derrubar uma taça?", perguntou agora.
Augusto acompanhou o olhar dela até o vinho.
"Posso culpar o chão."
"É um chão muito caro."
"Então deveria trabalhar melhor."
Helena soltou uma risada que atraiu um olhar curioso da mesa vizinha. Dessa vez, não se calou por causa dele.
Os noivos começaram a circular pelo salão. Bianca cumprimentava cada pessoa com atenção; Pedro parecia contar os passos que faltavam até poder sentar e comer.
Quando chegaram, Augusto se levantou. Abraçou o sobrinho, desejou felicidade a Bianca e recebeu dos dois um agradecimento cordial.
Helena também se levantou, preparando um sorriso que lhe pareceu excessivamente duro.
Pedro olhou para ela.
Por um segundo, o tempo trouxe de volta o rapaz que a diminuíra por ser filha de uma mulher sem dinheiro. Depois o homem diante dela ajeitou a taça na mão e lançou uma breve olhada ao tio.
"Obrigado por vir, tia Helena."
O título saiu baixo, mas perfeitamente audível.
Helena sentiu o calor subir até as orelhas.
Bianca beijou seu rosto.
"Ficamos muito felizes, tia Helena."
Ela conseguiu agradecer e desejar felicidade sem tropeçar numa palavra. Considerou isso um resultado excelente.
Pedro percebeu o esforço e quase sorriu de lado. Bianca tocou discretamente seu braço, antes que ele resolvesse transformar a situação em brincadeira.
Augusto viu tudo, satisfeito demais para disfarçar.
Quando os noivos seguiram para a próxima mesa, Helena voltou à cadeira e cobriu metade do rosto com a mão.
"Não diga nada."
"Não disse."
"Está dizendo com a cara."
Ele afastou a mão dela com delicadeza suficiente para que pudesse soltá-la se quisesse.
"Você se saiu muito bem."
Helena olhou o casal que se afastava e, apesar do constrangimento, sorriu.
Ainda preferiria nunca ouvir aquele tratamento. Mas a vida tinha guardado uma pequena ironia: Pedro precisara aprender a pronunciá-lo com respeito.
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