"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 79
Uma casa grande demais
"Você já é casada?"
A surpresa de Rafael fez Helena erguer o rosto. Ele parecia recalcular todas as coisas que havia imaginado durante o almoço.
"Há um ano", respondeu.
"Mas você só tem dois anos a mais que eu."
"Ainda bem que isso não mudou."
Ele percebeu a brincadeira e sorriu sem graça.
"Desculpa. Não quis parecer intrometido."
"Não pareceu. Eu me casei depois de terminar a faculdade."
Rafael olhou de relance para a rua, onde um dos homens aguardava junto ao carro. A aliança dela era discreta naquele dia; nem por isso deixava de ser visível agora que ele sabia procurá-la.
"Vocês moram aqui?"
"Nos Estados Unidos. Viemos por causa de uma festa de família e de algumas coisas do trabalho dele. Aproveitei para visitar meu pai."
Ela cortou um pedaço pequeno de peixe.
"Não consigo voltar sempre."
"Sua mãe ainda mora perto?"
"Ela passa um tempo aqui, um tempo viajando. Hoje não deu para virmos juntas."
Rafael aceitou a resposta sem tentar completá-la. Helena agradeceu, em silêncio, aquela delicadeza que ele provavelmente nem percebia ter usado.
À sobremesa, dividiu com ela um doce de leite que vinha servido numa tigela de vidro. Rafael explicou que não havia incluído as fotografias no trabalho do dia. Enviaria os arquivos, e ela poderia decidir se queria guardar ou mostrar.
"Quero guardar", Helena disse. "E mostrar algumas."
"Então escolho as melhores."
Ele insistiu em pagar a conta. Helena permitiu, mas pediu que não incluísse nenhum prato extra para levar, como ele já sugeria ao garçom.
Na porta, a sombra da varanda os protegeu do calor.
"Hoje foi importante para mim", Rafael falou.
Helena olhou a praça. Um menino atravessava correndo com um sorvete na mão, seguido por um pai que fingia não conseguir alcançá-lo.
"Para mim também. Às vezes parece que só eu e minha mãe lembramos dele fora de uma fotografia. Foi bom descobrir que não."
Rafael apertou a alça da câmera.
"Nunca esqueci."
"Então viva uma vida boa. Não precisa me prometer mais nada."
Ela entrou no carro e baixou o vidro para se despedir. Ele acenou até o veículo dobrar a esquina.
Depois voltou à mesa para buscar o boné esquecido. O garçom comentou que a moça era simpática; Rafael concordou sem conseguir resumir o encontro numa palavra tão simples.
No hotel, começou a selecionar as imagens. Parou numa fotografia em que Helena olhava para fora da janela e sorriu antes de se repreender pela própria distração.
Abriu o perfil dela apenas para confirmar o contato.
Havia poucas publicações: pratos de comida, paisagens, um livro num banco de jardim, uma mão masculina segurando a dela. Nenhum retrato que explicasse muito sobre o marido.
Numa imagem antiga de uma rua de Santa Clara, reconheceu um nome entre as pessoas que haviam reagido.
Lucas Azevedo.
Rafael o conhecia de uma visita universitária à empresa de jogos que ele ajudara a fundar depois de voltar do exterior. Lucas recebera os estudantes, olhara os currículos e perguntara pelo lugar onde Rafael nascera.
"Santa Clara? Conheci alguém de lá", dissera na ocasião.
Depois conversara com ele sobre fotografia para jogos e apresentações, oferecendo um contato profissional caso quisesse enviar portfólio.
Rafael lembrava de ter achado aquela atenção desproporcional à própria experiência.
Agora compreendia que o nome da cidade podia ter levado outra pessoa àquela sala, mesmo sem estar presente.
Não escreveu a Lucas. Não havia nada de seu para perguntar.
Terminou a seleção e enviou os arquivos a Helena com uma mensagem curta de agradecimento.
Ela recebeu as fotografias durante a viagem para São Paulo. Escolheu uma, ampliou o rosto e só então reparou que tinha respondido ao fotógrafo com três exclamações, como fazia quando era mais nova.
Augusto telefonou pouco depois.
"Já está na estrada?"
"Estou. Almocei antes de sair."
"Gostou?"
Helena contou sobre Rafael. Explicou quem ele era, o ramo de flores, a conversa perto da represa. Augusto ouviu sem interromper até a palavra fotografia.
"Ele tirou fotos suas?"
"Tirou. Posso mandar uma para você ver como uma pessoa inteira cabe numa imagem sem perder a cabeça ou os pés."
Augusto ficou em silêncio por um instante.
"Isso é uma crítica?"
"Uma contribuição para o seu desenvolvimento."
Ela enviou a fotografia e esperou.
"Ficou bonita", ele disse.
"Obrigada ao fotógrafo."
"Você estava bonita antes da fotografia."
Helena sorriu para o vidro.
"Ele disse quase isso."
"Não precisa repetir tudo o que ele disse."
Ela riu de verdade dessa vez.
"Está vendo? Você pode aprender. Não leva uma empresa inteira."
"Quando voltarmos, arrumo um tempo."
"Um tempo para uma pessoa ensinar você, ou um tempo para contratar alguém e me convencer de que é a mesma coisa?"
"Para aprender."
Helena olhou a fotografia novamente.
"Vou cobrar."
Augusto pediu que avisasse quando chegasse. Ela disse que o motorista já faria isso, e ele respondeu que preferia ouvir dela.
Desligaram depois de uma pequena discussão sobre o jantar. Helena queria qualquer coisa leve. Augusto sugeriu sopa. Ela pediu que fosse uma sopa que pudesse reconhecer, e ele compreendeu a referência sem insistir no assunto.
No quarto, sozinho, deixou o telefone sobre a mesa.
O apartamento de São Paulo tinha menos objetos pessoais do que a casa nos Estados Unidos, mas em ambos o espaço parecia errado quando Helena não estava.
No início da semana, ele trabalhara de lá enquanto ela descansava no andar de cima. Uma música baixa, o movimento de um copo, o som de passos descalços bastavam para lhe dizer que o dia estava completo.
Agora havia apenas o ar condicionado.
Augusto entrou numa reunião com a equipe estrangeira. André já estava instalado no escritório de fora havia anos e conduziu os primeiros informes, eficiente como sempre.
Um executivo apresentou projeções para investimentos ligados à saúde. Falou da demanda crescente e encerrou com uma piada sobre a tristeza de uns garantir os lucros de outros.
Augusto não riu. Tampouco o corrigiu.
"Quero a revisão dos riscos antes de aprovar", disse, passando ao próximo assunto.
Discutiram uma venda, uma aquisição adiada, margens que não tinham agradado. Alguém pediu mais prazo; Augusto exigiu uma data concreta. Sua voz permaneceu igual durante toda a reunião, fria o suficiente para encerrar qualquer tentativa de transformar hesitação em conversa.
Quando a tela escureceu, olhou o relógio.
Ainda faltava tempo.
Foi até o quarto e encontrou o livro que Helena deixara aberto de cabeça para baixo. Ela o repreendia quando ele fazia isso, dizendo que estragava a lombada. A própria marca denunciava uma pressa que raramente admitia.
Augusto colocou um marcador entre as páginas.
Depois abriu a fotografia mais uma vez.
A mulher na janela sorria para uma conversa que não era com ele. A imagem era bonita; isso lhe desagradou mais do que a técnica perfeita do rapaz.
Pousou o telefone e verificou se o jantar já estava a caminho.
Poderia trabalhar mais uma hora. Resolver uma pendência, responder a alguém, obter outro resultado.
Em vez disso, permaneceu junto à janela, esperando o ruído do carro.
Nenhuma sala de reunião lhe parecia grande demais. Só a casa, quando faltava Helena.
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