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"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 78

正文开头

O menino que meu pai salvou

Rafael Nunes tinha vinte e um anos e uma câmera que comprara pagando em muitas parcelas.

Na manhã em que voltou a Santa Clara, fotografou uma porta azul, duas bicicletas encostadas numa parede e a sombra de uma senhora varrendo a calçada. Enquadrou tudo com cuidado. Ainda assim, não conseguiu tirar uma única fotografia da estrada que levava à represa.

Precisou caminhar até lá sem levantar a câmera.

Oito anos antes, atravessara aquele caminho com outro menino, convencido de que a água não devia ser tão funda. Depois, a lembrança vinha aos pedaços: o susto, um braço firme, a tosse, adultos correndo.

O professor não voltara.

Seus pais o levaram para outra cidade. Houve broncas, medo e uma transferência de escola tão rápida que Rafael sequer conseguiu procurar a família do homem que morrera para tirá-lo da água.

Durante anos, pensou que um dia saberia o que dizer.

Naquela manhã, levava flores e continuava sem saber.

A represa tinha novas grades de proteção e placas que não existiam em sua infância. Perto do acesso, uma mulher de vestido claro observava a água.

Ele reconheceu o cabelo antes do rosto.

Não tinha certeza. Só conhecera Helena Duarte de longe, nos corredores da escola, e depois naquela tarde terrível, ao lado da mãe. Mesmo assim, começou a andar mais depressa.

Um homem se colocou em seu caminho.

"Um momento, por favor."

Rafael parou. Viu outro homem a alguns passos da mulher e compreendeu que não eram visitantes comuns.

Ela se virou ao ouvir as vozes.

"Helena?", ele chamou, sem calcular o volume. "Você é a filha do professor Duarte?"

O nome do pai atravessou o espaço entre eles.

Helena olhou o rapaz. A câmera pendia sobre uma camiseta escura; nas mãos, ele apertava um ramo de flores a ponto de amassar o papel.

"Sou."

"Eu sou Rafael. Um dos meninos que ele salvou."

Ela não respondeu imediatamente.

Tinha visitado o túmulo do pai naquela manhã, deixado flores e limpado uma folha seca junto ao nome gravado. A represa fora uma parada que decidira fazer depois, sem avisar ninguém além do motorista.

Queria ver a água sem a pressa de ir embora.

Não esperava encontrar o passado de pé, pedindo licença.

"Pode deixar", disse aos homens.

Eles se afastaram o suficiente para que Rafael chegasse perto.

Ele tirou o boné.

"Eu devia ter procurado vocês antes."

Helena reparou nos olhos. Reconheceu alguma coisa do menino de treze anos que vira naquela confusão, embora o rosto agora fosse outro.

"Você veio hoje por causa dele?"

Rafael assentiu.

"Não sabia onde era o túmulo. Pensei em trazer as flores para cá, mas agora... não sei se faz sentido. Não queria jogar nada na água."

"Fez bem. Posso te dizer onde fica o cemitério."

Ele abaixou a cabeça.

"Desculpa."

A palavra saiu pequena demais para os oito anos que carregava.

正文1

"Meus pais ficaram com muito medo. Me levaram embora. Eu tentei perguntar, mas em casa ninguém queria falar disso. Depois cresci e continuei sem ter coragem. Parece uma desculpa horrível."

Helena passou os dedos pela alça da bolsa.

Durante muito tempo, havia lembrado mais das ausências que vieram depois do que dos rostos dos meninos. As contas, a mãe cansada, a cadeira vazia à mesa. Algumas pessoas prometeram ajuda; poucas permaneceram.

Rafael, no entanto, era um menino na época.

"Você não precisava resolver a vida da minha mãe aos treze anos", disse.

Ele ergueu os olhos, surpreso.

"Mas eu estou vivo."

"Eu sei."

A garganta dela apertou. Olhou a água antes de continuar.

"Meu pai queria que você ficasse vivo. Não acho que quisesse que passasse o resto da vida pedindo desculpa por isso."

Rafael respirou fundo. As flores tremeram um pouco nas mãos.

"Eu lembro dele todo ano."

"Obrigada por me contar."

O silêncio que veio depois já não pareceu uma acusação.

Helena indicou o caminho do cemitério. Rafael anotou no telefone e perguntou se poderia convidá-la para almoçar. Ela recusou de início, dizendo que não precisava de compensação.

"Não é para pagar nada", ele explicou. "Eu não conseguiria. Só queria sentar um pouco com você. Se não quiser, tudo bem."

Ela olhou o relógio. A volta para São Paulo estava marcada para mais tarde. Tinha tempo.

"Conhece aquele restaurante perto da praça?"

O rosto dele se iluminou.

"O da família que faz peixe aos domingos?"

"Esse."

Foram em carros separados. Rafael passou primeiro no cemitério; Helena esperou na praça, olhando uma loja que, em sua infância, vendia material escolar e agora tinha capinhas de celular na vitrine.

Quando ele voltou, parecia ter deixado alguma coisa para trás.

No restaurante, Rafael abriu o cardápio e começou a escolher pratos como se recebesse uma visita de Estado.

Helena interrompeu a terceira sugestão.

"Se pedir tudo isso, vamos precisar convidar a praça inteira."

Ele riu, envergonhado.

"Não sei do que você gosta."

"Gostava do peixe com arroz e farofa. Meu pai me trazia quando eu ia bem na escola. Às vezes minha mãe dizia que uma nota não justificava tanta comida."

A senhora que os atendeu ouviu o nome Duarte e perguntou se ela era a filha do professor.

Helena assentiu.

"Você cresceu muito, menina."

Ela sorriu diante da obviedade afetuosa.

"Já estou com vinte e três."

"Para mim continuam todos pequenos. Vou pedir para capricharem no peixe."

Rafael acompanhou a mulher com os olhos.

"É bom que ainda lembrem."

Helena concordou. Pela primeira vez naquela manhã, sentiu fome.

Enquanto esperavam, ele contou que estudava na faculdade e fazia pequenos trabalhos de fotografia. Gostava mais de pessoas que de prédios, embora fotografar pessoas lhe desse muito mais medo.

"Prédios não perguntam por que ficaram com cara de cansados", comentou.

Helena riu.

Ele tocou a câmera e hesitou.

"Posso tirar uma foto sua? Só se quiser. Essa luz da janela está bonita."

Ela ajeitou uma mecha atrás da orelha.

"Pode. Mas me mostre antes de publicar qualquer coisa."

"Claro. Posso deixar só para você."

A primeira fotografia a pegou ainda sorrindo. Na segunda, Rafael pediu que olhasse para a praça. Depois desistiu de dirigir cada movimento e conversou enquanto fotografava.

Helena respondeu sobre a antiga escola, a professora que escrevia muito rápido e a ponte pela qual os dois passavam quando eram crianças.

Quando viu as imagens, encontrou uma versão de si mesma que não parecia estar esperando uma ordem.

"Ficaram lindas", disse, sinceramente surpresa.

Rafael ficou vermelho.

"Você facilita bastante o trabalho."

O peixe chegou e ele guardou a câmera. Helena provou a primeira garfada, fechando os olhos por um instante. Não era exatamente o gosto que lembrava, mas era perto o suficiente para doer de um jeito bom.

Trocaram contatos para o envio das fotografias.

"Seu namorado podia aprender também", Rafael comentou. "Assim você não depende de encontrar um fotógrafo no almoço."

Helena soltou uma risada curta.

"Meu marido? Já tentei. Ele consegue me cortar os pés numa foto e deixar um poste inteiro na outra."

Rafael pousou o garfo.

"Marido?"

Ela ainda olhava a última fotografia.

"É. Não dá para confiar naquela câmera na mão dele."

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