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"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 75

正文开头

Primeiro, meu telefone

Helena atravessou as horas seguintes sem conseguir organizar tudo o que acontecia.

Pedia que parassem, que a deixassem pensar, que chamassem alguém. Augusto permaneceu perto, oferecendo a própria presença como resposta a um sofrimento que tinha provocado.

Não era uma escolha dela aproximar-se quando precisava de apoio.

Não era vontade dizer qualquer coisa que pudesse diminuir o desconforto.

Durante aquele período de consciência alterada, Augusto voltou a impor uma intimidade que ela não tinha condições de aceitar livremente. O que houve não se tornou consentido porque sua resistência perdera força.

Depois, Helena ficou quieta.

Não encontrava uma frase capaz de fazer o ocorrido parecer menor. Estava cansada de tentar receber uma explicação de alguém que sempre terminava dizendo que queria cuidar.

A memória veio aos poucos, sem pedir licença.

Tinha dez anos e medo de aprender a nadar. O pai ia com ela nas tardes de verão, levava os objetos de que precisava e tentava fazê-la confiar no próprio corpo dentro da água.

Helena chorava quando engolia água ou perdia o jeito de respirar.

Num dia, disse que nunca aprenderia.

Ele se sentou perto dela, sem transformar a dificuldade numa vergonha. Disse que poderiam tentar de outro modo, que não precisava aprender tudo naquele verão e que coragem não era deixar de sentir medo.

Era voltar a procurar uma saída quando a primeira forma não funcionava.

Naquele ano, Helena não aprendeu.

Depois da morte dele, voltou a tentar em aulas, guardando uma raiva silenciosa de tudo que parecia ter ficado incompleto. Aprendeu aos quinze anos.

Não recuperou o pai.

Recuperou uma capacidade que julgara impossível.

Na cama de Augusto, a lembrança não lhe ofereceu uma solução pronta. Ofereceu tempo. A possibilidade de não confundir um momento em que não conseguia agir com o fim de toda ação futura.

Quando a cabeça ficou mais clara, pediu água e a bebeu sem permitir que ele segurasse o copo.

Augusto perguntou como estava.

Helena olhou para ele.

"Não vou dizer bem para você ficar tranquilo."

Ele assentiu, mas não se afastou.

Ela puxou a coberta sobre o corpo e ficou sentada até a tontura diminuir. Não queria discutir de pé nem encontrar a porta antes de saber se conseguiria alcançar o corredor.

Pensou na mãe, em Lucas e em Camila. Não precisava escolher naquele instante para quem contaria o quê. Precisava recuperar um meio de alcançá-los.

"Meu telefone", disse.

Augusto a observou.

"Podemos conversar."

"É o que estou fazendo. Quero meu telefone. Quero que pare de trancar a porta."

Ele ficou quieto por alguns segundos.

Helena continuou antes que o silêncio se transformasse numa espera por algo mais agradável.

"Se cada vez que disser uma coisa que não gosta você tirar meus meios de falar com outras pessoas, nunca vai haver uma conversa. Só vai haver você decidindo o que consigo fazer."

Augusto olhou para a porta.

Ela acompanhou o gesto e se obrigou a não acrescentar pedidos demais de uma vez. Queria sair daquela casa, mas precisava parar de ser mantida num quarto antes de alcançar qualquer outro lugar.

正文1

"Não vou passar o dia batendo na madeira", disse. "Não quero ficar sem comer. Quero estudar, falar com as pessoas, saber o que acontece fora daqui."

"E quanto a nós?"

Helena respirou fundo.

Era a condição que ele continuava procurando.

"Não consigo pensar em nada enquanto estou presa. Se quer que eu consiga viver aqui por enquanto, não pode fazer isso."

Não oferecia perdão nem uma promessa de casamento. Oferecia uma mudança no modo de permanecer enquanto tentava recuperar o resto.

Augusto recebeu a frase como uma abertura maior do que era.

Helena percebeu.

Não tinha força para corrigir cada parte antes de conseguir o telefone.

Ele se levantou e trouxe o aparelho, colocando-o sobre o criado-mudo. Depois abriu a porta e deixou a chave fora da fechadura.

"Pode descansar."

Helena pegou o telefone imediatamente.

Havia mensagens recebidas enquanto estivera sem o aparelho. O nome de Camila apareceu entre elas, perguntando se continuaria em São Paulo durante as férias.

Helena abriu a conversa e começou a escrever que precisava falar.

Parou, olhando para Augusto ainda junto à porta. Não queria preparar a primeira frase importante com ele observando a tela.

Guardou o telefone sob a mão, sem fechá-lo.

"Preciso que vá", disse.

Ele perguntou se conseguiria descansar.

"Consigo tentar quando estiver sozinha."

Augusto assentiu e saiu. Helena esperou até não ouvir mais seus passos. Só então voltou à conversa, escreveu que mandaria notícias e verificou se a mensagem era enviada.

A confirmação pequena não retirou o que tinha acontecido. Deu-lhe um modo de alcançar o lado de fora que já não queria perder.

Conferiu se ligava, se continuava com acesso às mensagens e se havia chamadas da mãe. Não abriu todas. Apenas precisava ter certeza de que conseguia procurar alguém quando desejasse.

Augusto a observou por alguns instantes, depois saiu para trabalhar.

Ela esperou ouvir os passos desaparecerem antes de levantar.

A porta abriu.

Helena ficou no corredor por alguns segundos, tentando entender a diferença entre o que sempre deveria ter sido possível e o alívio enorme de finalmente conseguir.

Não saiu correndo.

Foi até o banheiro, tomou banho e escolheu uma roupa que lhe permitisse caminhar sem ficar pensando no próprio corpo a cada movimento.

Quando a funcionária perguntou se queria almoço, respondeu que sim.

Pediu comida simples e acompanhou sua chegada com uma atenção que não tinha antes. Não quis repetir o prato da madrugada.

Sentou-se numa mesa voltada para o jardim. Havia uma magnólia, árvores menores e um caminho por onde uma pessoa recolhia folhas.

Helena perguntou o nome da árvore maior e escutou que às vezes a florada ocupava quase toda a copa.

Olhou para um botão ainda fechado.

O mundo continuava fazendo coisas que não dependiam de Augusto.

Terminou a comida devagar.

Não precisava se tornar feliz naquele lugar para continuar vivendo. Precisava conservar as possibilidades pequenas que ainda conseguia abrir: uma porta, um telefonema, uma refeição escolhida por si.

Levou o aparelho consigo quando voltou ao quarto.

Dessa vez, fechou a porta porque queria silêncio.

Não porque alguém a impedira de sair.

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