"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 73
Como você consegue dormir?
Augusto recebeu a notícia no elevador da empresa.
A pessoa responsável pela casa dizia que Helena não tocara nas refeições e que pedira para sair todas as vezes que alguém se aproximara da porta.
Ele escutou sem mudar a expressão.
Pedro, Bianca e André estavam a poucos passos. Nenhum deles precisava de uma explicação para perceber que a conversa não era sobre um problema de manutenção.
"Eu falo com ela quando voltar", Augusto respondeu.
O funcionário chamou Helena de senhorita.
Augusto o corrigiu.
"Senhora."
Bianca olhou para ele. Pedro tentou esconder um sorriso que desapareceu quando a mulher ao lado lhe lançou uma expressão de reprovação.
O elevador abriu.
Augusto guardou o telefone e pediu que Bianca o acompanhasse para discutir uma apresentação da equipe. Ela foi, trazendo os documentos que já tinha organizado.
Não usou a conversa anterior como assunto de entrada.
Falou do trabalho, das informações recebidas de Pedro e das partes que ainda precisavam de confirmação. Augusto fez perguntas e ouviu as respostas com atenção suficiente para que ela percebesse a diferença entre ser consultada e ser usada apenas para ornamentar uma equipe.
Gostava daquela parte da função.
Não deixara de gostar do homem.
Quando terminaram, perguntou se ele teria tempo para um jantar, dizendo que queria agradecer a oportunidade de trabalhar ali.
Augusto recusou.
"Tenho coisas para resolver em casa."
Bianca assentiu, sem fingir que não compreendera o que o convite e a resposta significavam.
Ele acrescentou que Pedro poderia participar de uma conversa fora do escritório. Estava passando por um período difícil e talvez se beneficiasse de uma companhia que não fosse apenas a equipe ou os parentes.
"Eu trabalho com ele", ela respondeu. "Não posso prometer que uma refeição vai deixar de parecer uma reunião."
Augusto sorriu de modo breve.
"Pode tentar."
Bianca recolheu a pasta e se levantou. Antes de sair, voltou ao assunto que ouvira no elevador.
"Não quero me intrometer. Mas uma pessoa não deixa de ficar zangada porque recebe um nome diferente."
Ele levantou os olhos.
"Entendi."
"Talvez não. Você falou como se precisasse corrigir a casa inteira para que ela aceitasse o lugar."
Augusto ficou quieto.
Bianca sustentou a frase, embora soubesse que ultrapassava o conforto de uma conversa profissional.
"Não é uma funcionária. Não dá para esperar que obedeça só porque explicou o que considera melhor."
Ele agradeceu com uma frieza que encerrou o tema.
Ela saiu.
Augusto permaneceu olhando a porta por alguns segundos. Sabia exatamente a diferença entre Helena e uma subordinada. O problema era que essa diferença não fazia a vontade dele diminuir quando ela recusava.
Em casa, Helena deixara o jantar esfriar também.
Não passara o dia inteiro quieta. Chorara, chamara por alguém, pedira água para lavar o rosto e repetira que não aceitava o quarto fechado.
Cada pedido prático fora atendido.
A saída, não.
Uma pessoa trouxe uma troca de roupa e perguntou se podia arrumar a cama. Helena disse que não queria que mexessem nas suas coisas enquanto ainda estava ali.
O pedido foi respeitado.
Ela observou a mulher recuar e quase riu da contradição: podia escolher se uma almofada seria retirada, mas não podia escolher onde passaria a noite.
Perguntou o nome da funcionária. A mulher respondeu, surpresa, e Helena agradeceu pela roupa sem pedir que voltasse a explicar o que o senhor tinha ordenado.
Não queria perder a capacidade de reconhecer pessoas dentro daquela casa. Também não queria que essa capacidade fosse usada para convencê-la de que o quarto fechado deixara de existir só porque alguém falava baixo ao entregar uma toalha.
O contraste lhe dava vontade de gritar mais, como se as pessoas não conseguissem perceber que gentileza dentro de uma ordem injusta continuava servindo à ordem.
Quando anoiteceu, deitou porque as pernas doíam. Pretendia levantar assim que Augusto voltasse e exigir que explicasse como imaginava terminar aquilo.
Dormiu antes.
Sonhou com a mãe andando à sua frente, sempre um pouco além do alcance. Chamava, e Marisa parecia ouvir, mas continuava no mesmo caminho.
Helena acordou tentando falar.
O quarto estava escuro. Demorou a perceber que o peso perto de sua cintura era um braço e que Augusto dormia ao lado dela.
Tinha entrado sem acordá-la.
Ela se afastou imediatamente e acendeu a luz. Ele se mexeu, incomodado, mas não abriu os olhos na primeira tentativa.
Helena o sacudiu pelo braço.
"Acorda."
Augusto abriu os olhos.
"O que foi?"
A pergunta pareceu tão absurda que ela precisou de um segundo para responder.
"O que foi? Você me trancou aqui."
Ele se sentou, passando a mão pelo rosto. Helena permaneceu de pé junto à cama, com os punhos fechados e a garganta ainda dolorida de chamar durante o dia.
"Não pode entrar e dormir como se tivesse acabado uma discussão comum."
Augusto olhou o relógio e depois para ela.
"Podemos conversar de manhã."
"Não."
A palavra saiu com uma firmeza que a fez respirar melhor.
"Você teve o dia inteiro para decidir quando queria conversar. Eu não tive nada. Nem meu telefone."
Ele abriu a boca, mas Helena continuou antes que transformasse a madrugada numa razão para adiar.
"Não quero saber se tem trabalho amanhã. Também tinha uma vida antes de você me colocar aqui."
Augusto levantou-se, tentando diminuir a distância que a irritação criara. Ela recuou e indicou a cadeira.
"Pode sentar ali. Não precisa ficar em cima de mim para responder."
Ele obedeceu.
Helena acompanhou o movimento sem se tranquilizar por completo. Ainda havia uma porta entre ela e o restante da casa, e a chave não era sua.
"Onde está minha mãe?"
"Foi para Minas."
"Quero falar com ela."
"Depois podemos..."
"Para de dizer depois."
Ela enxugou o rosto, irritada por estar chorando de novo. Não queria que as lágrimas lhe dessem outra desculpa para considerar que precisava pensar com calma antes de decidir.
"Você consegue dormir porque já conseguiu o que queria", disse. "Eu não consigo porque ainda estou tentando entender o que perdi."
Augusto ficou olhando para ela.
Helena apontou para a porta.
"Abre."
Ele não se levantou.
Ela segurou a borda da cadeira mais próxima para não precisar continuar tremendo sem apoio.
"Não vai dormir enquanto finge que isso não existe."
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