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"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 69

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A despedida que não deixaram

A notícia chegou de madrugada.

Helena viu Marisa levantar antes de entender o que o médico dizia. A mãe levou a mão à boca, perguntou alguma coisa duas vezes e depois começou a chorar de um jeito que a filha conhecia desde Santa Clara.

Eduardo morrera.

Não haveria outra conversa no escritório, nem um dia em que a promessa de ajudar se tornasse uma ação. Helena ficou olhando para o chão enquanto as palavras alcançavam lugares diferentes dentro dela.

Não o perdera apenas por precisar dele.

Perdera o homem que recebera sua palavra pai sem transformar aquilo numa obrigação.

Marisa tentou ir até ele.

A família se reuniu primeiro, e alguém disse que deveriam esperar num corredor próximo. Ela esperou alguns minutos, depois voltou a perguntar e recebeu a mesma resposta.

"Sou a esposa dele", disse.

A frase não abriu a passagem.

Helena ficou ao lado da mãe, tentando descobrir a quem poderia pedir uma coisa tão simples. As pessoas respondiam com cuidado no tom e obediência nas decisões.

O pedido de Antônio e Lídia era claro: naquele momento, não queriam as duas perto.

Marisa começou a discutir. Disse que cuidara dele, dormira ao lado dele, soubera quando precisava de água ou de silêncio. Não aceitava tornar-se uma desconhecida no instante em que já não poderia ouvi-la.

Augusto chegou antes que a discussão atraísse mais pessoas.

Escutou o pedido e respondeu que organizaria uma despedida depois que os pais saíssem.

"Só quero ver meu marido", Marisa repetiu.

"Eu entendi."

Helena olhou para ele, esperando que acrescentasse que não precisava pedir permissão à família para ser viúva.

Não acrescentou.

Ofereceu apenas o que podia controlar sem enfrentar naquele momento a vontade dos pais.

A despedida aconteceu num espaço silencioso, sem outras pessoas da família ao redor. Marisa tocou a mão de Eduardo e ficou falando com ele, baixo, como se ainda pudesse se preocupar em não incomodá-lo.

Helena não tentou interromper.

Quando chegou sua vez, aproximou-se e disse obrigada. Não encontrou um discurso melhor. O rosto do padrasto já não tinha a expressão atenta com que lhe perguntara o que queria.

Ela guardou a lembrança da pergunta porque não queria que a última imagem apagasse todas as outras.

Marisa perguntou se poderia permanecer mais alguns minutos. O funcionário concordou depois de olhar para a porta, como se precisasse verificar uma autorização que não deveria fazer parte daquela despedida.

Helena se afastou para dar espaço à mãe.

Viu o movimento conhecido dos dedos dela ajeitando uma dobra da roupa de Eduardo. Quase esperou que ele reclamasse de tanto cuidado, como fazia quando ainda podia tentar parecer menos doente.

Não houve resposta.

Marisa falou da casa, dos horários e de uma viagem que os dois tinham imaginado fazer. Não pediu dinheiro nem segurança naquele momento. Pediu que tivesse ficado.

Helena chorou em silêncio.

Queria guardar também aquela parte da mãe: a pessoa que perdera alguém, não apenas a pessoa que vinha tentando conservar uma posição.

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Quando foram chamadas para sair, Marisa demorou a soltar a mão dele. A filha ofereceu a sua, e a mulher a segurou sem olhar.

Percorreram o corredor juntas.

Helena não tinha uma frase que desse à mãe o que a família retirara. Apenas continuou caminhando ao lado dela até o carro, sem exigir que parasse de chorar para parecer forte diante das pessoas que as observavam.

Depois foram levadas para casa.

Augusto pediu que permanecessem ali enquanto a cerimônia e os compromissos com parentes fossem organizados. Falou de exposição, comentários e da necessidade de evitar discussões públicas.

Marisa entendeu antes de Helena.

Não as queriam no velório nem no enterro.

"Vocês não podem fazer isso", disse.

Augusto respondeu que não era o momento de criar outro conflito.

Helena viu a mãe se calar e percebeu o tamanho da dependência que a família usava para tornar uma exclusão possível. Não era uma regra que apagava o casamento. Era uma decisão que pessoas com poder faziam cumprir.

Naquela mesma madrugada, longe delas, um advogado apresentou a Augusto um documento complementar preparado por Eduardo.

Havia disposições em favor de Marisa e Helena sobre recursos pessoais, fora da parte que já estava organizada para Pedro. A validade e o cumprimento precisariam seguir seus próprios caminhos, mas a intenção do irmão era inequívoca.

Tinha deixado uma saída.

Augusto leu o documento e reconheceu a assinatura.

Pediu que, por enquanto, não comunicassem as beneficiárias. A justificativa foi a confusão da família. A vontade era impedir que Helena recebesse uma razão concreta para ir embora.

O advogado hesitou e lembrou que aquilo precisaria ser tratado.

Augusto disse que falariam depois.

Não transformava a ocultação numa coisa correta por adiá-la com uma voz tranquila.

Nas semanas seguintes, a casa de Eduardo continuou recebendo comida, limpeza e visitas de pessoas ligadas à organização familiar. Marisa e Helena permaneceram afastadas da cerimônia pública e das reuniões de memória que vieram depois.

Helena acompanhou a mãe durante o dia e dormiu ao lado dela à noite.

Marisa às vezes acordava procurando o marido. Em outras, ficava olhando o telefone, esperando uma mensagem da família que não chegava.

A filha não dizia que tudo passaria.

Já sabia o peso de uma promessa dessas quando ninguém tinha como cumpri-la.

Uma noite, desceu para buscar água e ouviu duas funcionárias comentarem que ninguém sabia por quanto tempo as duas continuariam ali.

Não discutiu.

Voltou ao quarto e encontrou a mãe acordada.

"Onde estava?"

"Fui beber água."

Marisa se virou para o lado e disse que talvez nunca tivesse conseguido realmente entrar naquela vida. Helena sentou junto a ela e esperou a frase terminar.

Depois perguntou se poderiam ir para Curitiba.

"Juntas."

A mãe olhou para ela.

Helena explicou que ainda tinha dinheiro guardado, que o apartamento poderia ser trocado por um menor e que conseguiria procurar atividades compatíveis com o curso.

Não oferecia abundância.

Oferecia dias em que ninguém precisaria autorizar o luto da mãe.

Marisa ficou quieta.

"Eu preciso pensar."

Helena assentiu e segurou sua mão.

Pela primeira vez em muitos dias, ir embora não parecia apenas um pedido feito a Augusto.

Parecia uma vida que poderia começar mesmo sem a ajuda dele.

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