"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 67
Ele prometeu ajudar
"Quero."
Helena respondeu antes que o medo pudesse mudar o modo como diria. Eduardo continuou olhando para ela, com a atenção de quem tinha feito uma pergunta para receber a verdade.
"Quero voltar para Curitiba. Posso continuar estudando, procurar trabalho. Não preciso voltar para cá. Só queria que minha mãe pudesse me ver."
Ele assentiu lentamente.
Helena apertou o lenço no colo.
"Você consegue me ajudar?"
Eduardo demorou a responder. Não porque duvidasse da vontade dela, mas porque conhecia o homem que precisaria enfrentar.
"Meu irmão tem responsabilidade com as pessoas que considera suas", disse. "É uma coisa que vi muitas vezes. Quando me contou que pretendia casar com você, fiquei surpreso. Não imaginava que voltasse a pensar nisso."
Helena baixou os olhos.
Reconhecia o começo de mais uma conversa sobre o valor do sentimento de Augusto. Não queria desprezá-lo para ser ouvida. Queria que o próprio sentimento também tivesse valor.
"Eu sei que ele pode cuidar de muita coisa."
"Depois do divórcio, não aceitava nem conversar sobre casamento. Nossos pais insistiram de um jeito que não deveriam."
Eduardo passou a mão pelo rosto, constrangido.
Contou que a família chegara a considerar o uso escondido de substâncias para interferir nas escolhas do filho e aproximá-lo de uma mulher que haviam selecionado. Augusto percebera a tentativa antes que a levassem adiante.
"Não foi uma coisa que aprovo", acrescentou. "Foi uma vergonha."
Helena se lembrou da cirurgia que Augusto lhe revelara. Não sabia se uma coisa estava ligada à outra e não lhe pareceu certo repetir um segredo naquele momento.
O que a assustava era perceber como a vontade de alguém podia ser tratada como um problema a corrigir até dentro de uma família.
"Ele devia saber como é ruim", disse.
Eduardo a olhou.
Helena continuou, com a voz baixa.
"Ser empurrado para uma vida que não quer. Ele devia saber."
O padrasto não encontrou uma defesa pronta para aquilo.
Helena olhou para o lenço amassado entre os dedos.
"Eu posso agradecer pelo que fez sem ficar com ele?", perguntou.
Eduardo respondeu que sim, e ela levantou os olhos, tentando encontrar algum limite escondido depois da resposta.
"Sem alguém dizer que enganei porque aceitei ajuda?"
"Receber ajuda não significa prometer um casamento."
A frase não resolvia a dívida nem a aposta. Ainda assim, devolvia um nome simples a uma diferença que Augusto insistia em misturar. Helena apoiou as mãos nos joelhos e tentou respirar sem preparar de imediato outra defesa.
Ficou quieto, deixando que ela terminasse sem acrescentar outra qualidade do irmão.
"Não estou dizendo que ele nunca fez nada bom. Fez. Eu recebi ajuda, comida, uma casa. Às vezes ele escuta. Às vezes eu até consigo ficar tranquila. Mas, quando peço para ir, tudo muda."
Helena olhou para a porta fechada.
"Não quero passar a vida tentando adivinhar qual palavra ele vai aceitar."
Eduardo assentiu.
"Você não precisa."
A frase lhe trouxe uma esperança tão rápida que quase doeu.
"Então acredita em mim?"
"Acredito que sabe o que quer."
Helena enxugou o rosto.
Não precisava que ele achasse Augusto incapaz de amar. Não precisava que todos se tornassem inimigos por causa dela. Desejava apenas uma pessoa que aceitasse que ir embora era uma resposta possível.
Eduardo se aproximou e colocou a mão sobre a dela.
"Eu vou falar com ele. Precisarei pensar no modo, mas não vou pedir que fique com alguém só para facilitar nossa vida."
Helena soltou uma respiração que vinha prendendo desde o carro.
"De verdade?"
"De verdade."
Ela o abraçou, com um choro silencioso que se tornou mais forte ao sentir a palma dele em suas costas. O gesto lhe lembrou o pai, sem exigir que esquecesse uma pessoa para aceitar outra.
Eduardo permitiu que permanecesse assim por alguns segundos.
Depois disse que precisava levantar e buscar uma coisa. Helena se afastou imediatamente, receosa de cansá-lo, e começou a recolher o lenço e o copo.
Ele se ergueu e parou.
A mão voltou ao peito.
Helena deixou o copo na mesa.
"Pai?"
Eduardo tentou responder que passaria. Não conseguiu terminar a frase. A palidez mudou de intensidade, e seu corpo pareceu perder o apoio antes que ela compreendesse o que acontecia.
"Mãe!"
Helena gritou enquanto tentava alcançá-lo. Não tinha força para sustentar o peso dele. O padrasto caiu, e ela abriu a porta do escritório com uma urgência que lhe tirou o ar.
Marisa veio primeiro.
Depois os funcionários, uma pessoa ao telefone, outra pedindo espaço. Helena foi afastada para que pudessem atender Eduardo, mas continuou procurando seu rosto entre os corpos.
Não sabia quanto tempo passara até a chegada da equipe de emergência.
Sabia apenas que cada ordem parecia maior que qualquer coisa que pudesse fazer.
Marisa acompanhou a transferência e pediu que a filha viesse junto. Helena seguiu, segurando a bolsa sem lembrar quando a pegara.
As luzes, a pressa, as portas abertas para uma maca.
Uma parte de sua memória não estava em São Paulo. Estava na tarde em que recebera a notícia do reservatório, tentando entender por que todos falavam do pai como se ele já pertencesse a um lugar que não podia alcançar.
No hospital, Eduardo desapareceu atrás de outra porta.
Helena ficou olhando até alguém pedir que se sentasse. Não respondeu. Marisa falava com a equipe e chorava sem conseguir parar entre uma pergunta e outra.
Augusto chegou depois de ser avisado. Os pais vieram com ele, e a presença dos três mudou o corredor antes que qualquer informação médica fosse dada.
Antônio perguntou quem estava com Eduardo quando passara mal.
Uma pessoa respondeu que ele conversava com Helena.
O avô se voltou para ela.
O rosto estava tão tomado pela raiva que a menina levou um segundo para reconhecê-lo. Ele começou a falar da discussão, da família e das pessoas que tinham trazido problemas à casa.
Helena tentou dizer que chamara ajuda.
Não conseguiu ser ouvida.
Antônio ergueu a bengala.
Ela fechou os olhos e ficou imóvel, esperando uma dor que não soube evitar.
Augusto a puxou antes que o golpe chegasse.
O braço dele fechou em torno de seus ombros, e uma voz conhecida surgiu muito perto.
"Fica aqui."
Helena abriu os olhos contra a camisa dele.
O homem de quem acabara de pedir para escapar estava entre ela e outra violência que não tinha causado.
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