"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 66
Uma pergunta sem preço
Eduardo se afastou do carro e procurou o banco perto da entrada.
Augusto esperou que se sentasse antes de continuar. O irmão respirava com cuidado, irritado com a limitação do próprio corpo num momento em que desejava discutir sem precisar parar.
"Você vai ter de explicar isso aos nossos pais", disse.
"Vou."
"Eles não vão ouvir como eu estou ouvindo."
"Eu sei."
Eduardo passou a mão pelo rosto. Conhecia o modo como Augusto escolhia uma coisa e construía todos os caminhos até ela. Durante anos, aquela disposição sustentara parte da família.
Agora a via voltada para sua filha.
"Às vezes penso que você mudou demais depois que assumiu tudo", disse.
Augusto permaneceu ao lado do banco.
Na juventude, os pais imaginavam uma divisão: Eduardo ficaria com os negócios, e Augusto seguiria uma carreira ligada à vida pública, usando a capacidade de observar e negociar que Gilberto Monteiro reconhecera cedo.
A saúde do irmão mais velho alterara a organização.
Augusto deixara planos para trás e passara a ocupar um espaço que exigia decisões constantes, conflitos e a disposição de perder pessoas para conservar posições.
Eduardo conhecia parte do custo. Não o suficiente para transformar tudo que viera depois em consequência inevitável.
"Não foi você que me obrigou", Augusto respondeu.
"Não estou dizendo que obriguei. Estou dizendo que vejo o que aconteceu."
"Eu escolhi."
"Então também pode escolher parar."
Augusto olhou para a janela da casa.
Helena estava atrás da cortina, sem conseguir ouvir as palavras com clareza. Precisava apenas ter certeza de que ele não entraria antes que encontrasse uma forma de olhar para o padrasto.
Eduardo acompanhou a direção do olhar.
"Ela ama você?"
A pergunta ficou entre os dois.
Augusto demorou mais que nas respostas anteriores.
"Não preciso que diga isso agora."
"Não perguntei o que precisa ouvir. Perguntei o que ela sente."
Ele permaneceu em silêncio.
Eduardo suspirou.
"Renata feriu você. Eu sei. Seu casamento tinha interesses desde o começo, mas o que aconteceu deixou uma marca. Isso não significa que pode escolher alguém mais jovem porque acredita que vai controlar tudo antes de se machucar outra vez."
Augusto endureceu a expressão.
"Não estou tentando substituir uma pessoa por outra."
"Pode não estar. Ainda assim, quer uma segurança que nenhuma relação deveria exigir de alguém que não quer dar."
O irmão mais novo ajeitou a camisa, evitando responder à parte da frase que não gostava de ouvir.
Eduardo continuou com uma firmeza que não precisava de força física.
"Você pode dar uma casa, uma viagem, uma vida sem preocupação com contas. Não pode chamar isso de uma relação normal só porque consegue pagar."
Augusto olhou para ele.
"Não estou pedindo sua permissão."
"Eu sei. É uma das coisas que estou tentando mostrar."
A conversa não terminou num acordo. Augusto disse que iria encontrar os pais e pediu que Eduardo descansasse antes de falar mais.
O irmão não agradeceu pelo conselho.
Ficou olhando o carro sair, depois entrou em casa com passos mais lentos.
Helena se afastou da janela assim que percebeu que ele voltava. Marisa estava ao lado dela, mas não encontrou uma frase que deixasse a espera mais fácil.
"Converse com ele", disse apenas.
A filha assentiu, sentindo o medo de decepcionar Eduardo ocupar um espaço diferente do medo de Augusto. Um parecia feito de ameaça. O outro vinha de ter recebido gentileza e não saber como devolver sem vergonha.
Quando o padrasto apareceu na sala, Helena foi até ele.
"Pai, desculpa."
A voz falhou no fim.
Eduardo olhou seu rosto e pediu que não tentasse resolver tudo naquela frase. Queria conversar num lugar mais tranquilo, sem uma pessoa interromper a outra antes de entender.
Marisa começou a acompanhá-los, mas ele disse que gostaria de falar com Helena primeiro.
A mãe parou.
Entraram no escritório, e Eduardo deixou a porta fechada sem trancá-la. Indicou o sofá, mas Helena permaneceu de pé.
"Eu não queria fazer mal à sua família", disse.
Ele se sentou e esperou.
"Você sempre foi bom para mim. Para a minha mãe também. Eu sei que parece..."
A frase terminou num choro que vinha sendo contido desde o carro. Helena tentou se ajoelhar diante dele, procurando um gesto que correspondesse ao tamanho da vergonha.
Eduardo segurou seu braço com cuidado e pediu que se sentasse.
"Não precisa ficar assim para falar comigo."
"Eu não sei como ficar."
"Pode começar sendo uma pessoa sentada num sofá."
A simplicidade da resposta a fez chorar mais.
Eduardo lhe entregou um lenço e aguardou. Não disse que tudo estava bem. Não exigiu que explicasse depressa para aliviar a preocupação dele.
Helena olhou para a porta e perguntou se a mãe precisava participar daquela conversa.
"Só se você quiser", respondeu.
Ela balançou a cabeça.
Eduardo assentiu e não perguntou por que. Pegou o copo que estava sobre a mesa, oferecendo água, e deixou que decidisse se queria beber antes de continuar.
Helena aceitou.
O silêncio não parecia uma armadilha daquela vez. Não havia uma frase pronta esperando que desse a resposta errada. Havia apenas alguém com tempo para ouvi-la, mesmo precisando descansar e mesmo tendo motivos próprios para estar triste.
Ela segurou o copo com as duas mãos até conseguir diminuir o tremor.
Helena conseguiu se sentar.
"Eu nunca queria ter atrapalhado vocês."
"Você não fez meu irmão desejar alguma coisa só por existir."
Ela levantou os olhos.
Era uma frase que ninguém lhe oferecera daquela forma. A mãe tentara transformar o desejo dele numa vantagem. Augusto chamara de destino. Eduardo o deixava com a pessoa a quem pertencia.
"Não sei tudo que aconteceu", continuou. "Conheço meu irmão. E preciso saber uma coisa sem você achar que existe uma resposta capaz de me agradar mais."
Helena apertou o lenço no colo.
"Você quis essa relação?"
Ela balançou a cabeça devagar.
Depois disse não em voz alta, porque não queria que o gesto fosse confundido com dúvida.
Eduardo fechou os olhos por um instante.
Quando voltou a olhá-la, não parecia procurar um motivo para responsabilizá-la pela resposta.
Helena respirou um pouco melhor.
Ele se inclinou para a frente, mantendo a voz baixa e firme.
"Então me responda outra coisa, minha filha."
Ela esperou.
"Você quer ir embora?"
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