"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 62
Me deixa ir, tio
Helena tropeçou na areia quando Augusto aumentou o passo.
Não caiu porque ele continuava segurando seu pulso, mas a proteção do gesto não diminuía a dor provocada pela força.
"Está machucando", repetiu.
Ele olhou para sua mão apenas por um instante e continuou andando.
"Eu vi o que fez."
Helena tentou organizar a frase através da confusão do vinho.
"Dancei."
"Com um homem que acabou de conhecer."
"Tinha gente ali. Você estava ali."
Augusto não respondeu. A ideia de outra pessoa recebendo dela um sorriso, um toque ou uma curiosidade que não fosse sua parecia ter deixado de caber nas concessões daquela viagem.
Helena sentiu o braço repuxar quando diminuiu a velocidade.
"Não consigo andar assim."
"Consegue."
Ela parou de tentar acompanhá-lo e se sentou na areia.
O gesto o obrigou a interromper o caminho. Augusto se voltou para ela, ainda segurando a mão, até perceber que a manteria presa numa posição que não conseguiria disfarçar de ajuda.
Soltou.
Helena levou o pulso ao peito e ficou olhando a marca avermelhada. O choro veio com a facilidade que o vinho dava às coisas que tentara calar o dia inteiro.
"Eu falei que doía."
Augusto se abaixou diante dela.
"Não devia ter tocado naquele homem."
Ela ergueu a cabeça, incrédula.
"Não devia ter me machucado."
A resposta o deixou quieto por alguns segundos.
Helena enxugou o rosto com a mão livre e tentou lembrar por que tinha começado a rir durante a música. Queria alcançar aquele instante antes que ele o transformasse em uma coisa de que precisaria se arrepender.
"Eu não estava fazendo nada para ferir você", disse. "Queria dançar. Queria não pensar um pouco."
"Você não estava em condições de decidir tudo sozinha."
"Mas estava em condições de ouvir quando disse que estava doendo."
Augusto respirou fundo e olhou para o caminho. Não havia ninguém próximo o suficiente para acompanhar cada palavra, mas Helena já não se importava tanto com isso.
O medo de parecer inadequada perdera força diante da necessidade de ser escutada.
Helena tentou desenhar uma linha com o dedo na areia. A mão tremia, e o traço saía irregular. Ficou olhando para ele até uma brisa apagar parte.
"Eu estava feliz por alguns minutos", disse. "Não feliz com tudo. Só com a música."
Augusto a observou, sem responder.
"Isso também podia existir. Você não precisava estragar porque não era uma coisa que estava fazendo com você."
Ele se aproximou, querendo que a conversa diminuísse, mas Helena levantou a mão livre. Não para bater nem afastá-lo com força. Apenas para pedir que aguardasse enquanto terminava uma frase.
Augusto parou perto demais, mas parou.
"Você me trouxe para tão longe", continuou. "Organiza a comida, a casa, a hora de sair. Parece que tudo é bom até eu querer uma coisa diferente."
Ele tentou segurar a mão para olhar o pulso. Helena a recolheu.
"Não quero que cuide da marca depois de fazer."
Augusto ficou imóvel.
Ela pegou um pouco de areia e deixou escapar entre os dedos, procurando alguma coisa simples para fazer enquanto chorava.
"Eu disse que não queria. Desde o começo. Você lembra?"
"Lembro."
"Então não pode falar como se eu tivesse esquecido uma promessa de ser feliz."
A frase saiu de modo mais claro do que esperava. Helena olhou para ele, com o rosto molhado, sentindo o cansaço de tudo o que precisava explicar mesmo quando já explicara.
Augusto disse que não queria discutir na praia.
"Eu não escolhi discutir. Você escolheu me puxar."
Ele tirou o casaco leve que trazia no braço e o colocou perto dela, oferecendo que cobrisse os ombros. Helena aceitou porque o vento começara a incomodar, não porque a discussão tivesse terminado.
Ficaram alguns minutos em silêncio.
O mar se aproximava e recuava a uma distância que lhe parecia mais constante que o humor dele. Helena acompanhou o movimento até sentir a cabeça menos confusa.
Não contou a mensagem de Lucas.
Se dissesse naquela hora, Augusto receberia uma vitória no meio do choro. Não tinha força para observar como a expressão dele mudaria.
"Quero levantar", disse por fim.
Ele ofereceu as mãos.
Helena segurou apenas uma e se ergueu devagar. Ao dar o primeiro passo, percebeu que ainda não estava firme. Augusto a apoiou pela cintura, desta vez sem apertar o pulso.
"Posso levar você?"
Ela hesitou, depois assentiu porque o trajeto parecia longo demais para sustentar sozinha.
Ele a pegou no colo.
Helena ficou olhando para a linha dos ombros dele, tão próxima que podia ver a areia presa à camisa. Um homem capaz de carregá-la com cuidado depois de lhe causar medo. Não sabia como separar essas duas coisas sem sentir que uma sempre tentava apagar a outra.
Encostou a cabeça de lado.
"Tio Augusto."
Ele diminuiu o passo.
Era um nome que ela evitava desde que a relação mudara. Voltava agora com uma vontade antiga, quase infantil, de pedir proteção a alguém que deveria ter sido seguro.
"Me deixa ir. Por favor."
Augusto não respondeu imediatamente.
Helena esperou, sentindo o coração bater perto demais do corpo dele.
"Não", disse por fim.
Ela fechou os olhos.
Não gritou. Não procurou outro argumento. A resposta tinha a dureza de uma coisa que já ouvira muitas vezes, e naquele momento estava cansada demais para fingir surpresa.
"Por que eu?", murmurou. "Eu não sou tudo isso que você imagina. Um dia pode cansar."
Augusto continuou andando.
Disse que ela era gentil, que percebia necessidades que outras pessoas ignoravam, que não transformava cada gesto em uma cobrança antes de fazê-lo.
Helena ouviu parte.
O sono começava a interromper as frases, misturando a voz dele ao som da água.
Augusto olhou para seu rosto e percebeu quando deixou de acompanhar. Continuou falando mesmo assim, agora sem esperar que respondesse.
Gostava da vida que ela trazia para lugares em que ele só conhecia obrigações. Gostava de vê-la curiosa, irritada, com fome, capaz de rir de uma cena que não entendia.
Queria conservar tudo aquilo perto.
Sabia que conservar não era a mesma coisa que cuidar.
A diferença não o fizera soltá-la.
Ao chegar à casa, colocou-a na cama e deixou água ao alcance da mão. Helena se mexeu, procurando uma posição mais confortável, ainda com o pulso protegido junto ao corpo.
Augusto ficou olhando a marca antes de apagar a luz.
A noite terminara sem uma resposta nova para ela.
Para ele, continuava sendo uma noite em que a trouxera de volta.
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