"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 59
Até onde ele deixava
"Eu não sou sua noiva."
Helena disse a frase quando ficaram sozinhos no espaço de espera. Augusto olhou para a porta por onde o funcionário saíra e voltou para ela.
"Era uma explicação simples."
"Meu nome é mais simples."
Ele assentiu sem discutir, mas não prometeu corrigir a palavra. Helena abraçou a bolsa e decidiu não transformar a manhã inteira em mais uma conversa que terminaria sem resposta.
A troca de acomodação demorou. Quando chegaram à nova casa, examinou o banheiro antes de deixar a mala no quarto. Augusto aguardou, permitindo que pedisse ao funcionário que mostrasse as partes que lhe causavam mais receio.
Só depois conseguiu tomar o café trazido de antes.
À tarde, saíram num barco reservado para um passeio de pesca. Helena teria preferido permanecer em terra, mas a vista a fez esquecer o protesto antes de formulá-lo direito.
A água estava clara, e a tripulação conversava sem pressa enquanto organizava os lugares. Ela se sentou na sombra, mantendo o chapéu perto do rosto.
Augusto veio buscá-la para conhecer a atividade.
"Você gosta de peixe. Pode gostar de ver como chega até a mesa."
"Conheço a parte da cozinha."
"A anterior também pode ser interessante."
Ela o acompanhou.
O tripulante apresentou o material e lhe mostrou como poderia participar. Helena observou os gestos, mas, por alguns segundos, viu outra pessoa no lugar dele.
Seu pai levava equipamentos de pesca nos fins de semana em Santa Clara. Voltava com histórias sobre o que quase conseguira pegar e, às vezes, com peixes que preparava para ela.
Marisa reclamava do tempo que passava fora e depois elogiava a comida.
Depois da morte dele, os objetos desapareceram da casa. Helena nunca soubera para onde. Só percebera que a cozinha já não recebia aqueles relatos de um rio pequeno onde o pai conhecia cada caminho.
"Quer tentar?", Augusto perguntou.
Ela voltou ao barco.
"Quero."
Sentou-se no lugar indicado e esperou, surpresa com a necessidade de ficar quieta para que alguma coisa acontecesse. Não era uma atividade em que pudesse trocar esforço por resultado imediato.
Augusto lhe trouxe suco de laranja.
Quando ela manteve as mãos ocupadas com o material, segurou o copo para que bebesse pelo canudo. Helena aceitou antes de pensar no gesto.
Depois olhou para ele.
"Não precisa ficar aqui o tempo todo."
"Posso ficar se quiser."
Ela não respondeu porque, naquele momento, não sabia se se referia à pesca ou a tudo.
Ele perguntou se apostariam quem conseguiria mais peixes. Helena balançou a cabeça imediatamente.
"Uma aposta na minha vida já basta."
Augusto não insistiu. Pegou o protetor solar e perguntou se poderia passar nos braços que haviam ficado descobertos.
Ela estendeu um deles, acompanhando a atenção com que ele espalhava o produto.
Era difícil não perceber o cuidado.
Também era difícil esquecer quantas vezes o mesmo homem decidira que o desconforto dela não mudaria o que faria.
Helena olhou para o mar.
"Meu pai pescava", disse.
Augusto parou de falar.
Ela contou apenas um pouco, sem o acidente, sem o hospital, sem a dor que vinha depois da palavra pai. Falou de refeições e de uma peixeira que a mãe mandava afiar porque ele nunca fazia como deveria.
O sorriso surgiu antes que percebesse.
"Ele me deixava escolher como preparar", continuou. "Mas, se eu dizia que não sabia, fazia o que ele gostava e depois perguntava se tinha acertado."
Augusto olhou para ela.
"Acertava?"
"Quase sempre. Quando errava, dizia que na próxima melhorava. Não parecia uma coisa difícil."
Ela acompanhou uma mudança na água, sem saber se devia prestar atenção nela ou no peso que a lembrança trazia. O tripulante veio conferir o equipamento e voltou a deixá-la esperar.
Helena passou o dedo pelo apoio onde tinha colocado a mão.
"Às vezes lembro mais dessas coisas que do dia em que morreu", disse. "Acho melhor assim."
Augusto assentiu e não tentou acrescentar uma frase sobre como deveria sentir. Ela ficou grata por isso, embora não quisesse transformá-lo no lugar onde todas as lembranças do pai precisariam ser contadas.
Pegou o copo de suco e bebeu sozinha, preservando aquele pequeno espaço entre a história e quem a escutava.
Augusto a escutou sem ocupar a lembrança com uma história própria.
Helena gostou disso.
Logo ficou zangada por gostar.
"Você faz algumas coisas muito bem", disse, sem olhar para ele.
"Isso é um elogio?"
"É uma observação."
Ele sorriu.
Ela continuou antes que o sorriso transformasse a frase em uma promessa.
"Podia fazer para uma pessoa que quisesse ficar com você."
O rosto dele mudou.
Helena percebeu imediatamente, mas já tinha começado.
"Tem outras mulheres. Você sabe. Não precisa decidir que só eu posso viver desse jeito. Eu não ficaria zangada se procurasse alguém que gostasse de você."
Augusto retirou a mão de seu braço.
O espaço pareceu ficar mais frio apesar do sol.
"Você está tentando me ajudar ou se livrar de mim?"
Helena olhou para a própria mão.
"Estou tentando dizer uma coisa que é verdadeira."
"A verdade que escolhe repetir até que eu aceite."
Ela levantou os olhos.
"Você faz isso comigo o tempo todo."
Augusto se aproximou e segurou seu queixo, obrigando-a a manter o rosto voltado para ele. A pressão a fez interromper a respiração por um instante.
"Pede que eu ouça suas palavras. Ouça as minhas também. Não estou procurando outra pessoa."
Helena afastou a mão dele.
"Eu ouvi. Não quer dizer que gostei."
Ele permaneceu olhando para ela, depois se levantou e entrou na cabine.
Helena ficou sozinha com a vista e a pesca.
Não sentiu vitória. Sentiu apenas que a tranquilidade daqueles minutos tinha um limite que ele não precisava anunciar antes.
Continuou a atividade por algum tempo. Um tripulante veio conferir se estava confortável e lhe ofereceu outra posição à sombra. Ela agradeceu, mas começou a olhar para a porta da cabine.
Augusto não voltava.
No começo, imaginou que ainda estivesse zangado. Depois se lembrou da palidez que vira enquanto se levantava e resolveu conferir, irritada consigo mesma por não conseguir ficar quieta até que ele decidisse aparecer.
Encontrou-o deitado, com os olhos fechados.
Seu rosto parecia diferente. Menos firme, menos pronto para uma resposta.
Helena se aproximou e tocou sua testa.
Ele abriu os olhos.
"Você está bem?", perguntou.
Augusto demorou um segundo.
"Não muito."
Foi a primeira resposta dele naquela viagem que a assustou sem parecer uma ameaça.
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