"Na Gaiola do Bilionário: O Irmão do Meu Padrasto Não Me Deixa Ir" Capítulo 58
Ela não queria pôr os pés no chão
Augusto voltou com o café da manhã e encontrou Helena ainda dormindo.
Deixou a bandeja sobre a mesa, colocou água ao lado e se sentou perto da cama. A mão dela estava fora da coberta, relaxada junto ao travesseiro.
Ele a segurou devagar.
Não para acordá-la. Queria conferir o tamanho do dedo em que imaginava colocar um anel.
Tinha decidido que prepararia a joia antes de discutir qualquer data. Helena continuava falando da aposta como uma saída; ele pensava em coisas que a aproximariam do futuro que já escolhera.
Comparou a medida com um pequeno aro que trouxera na bolsa e fez uma anotação no telefone. Depois devolveu a mão à cama.
Ela se mexeu, franzindo a testa.
Augusto guardou o objeto antes que abrisse os olhos.
"Você estava aqui?", perguntou, ainda sonolenta.
"Trouxe comida."
Helena se sentou e esfregou o rosto. Tinha sonhado com uma coisa estranha no mar, uma criatura escura que insistia em acompanhá-la mesmo quando tentava mudar de direção.
Não contou.
Olhou a bandeja e agradeceu. Depois foi ao banheiro, tentando acordar o suficiente para encontrar vontade de comer.
Augusto começou a abrir os recipientes.
O grito veio antes que terminasse.
Ele se levantou e encontrou Helena saindo do banheiro com os olhos arregalados. Ela não tentou explicar primeiro. Correu até ele e se agarrou ao seu corpo, levantando os pés do chão.
Augusto a segurou, recuando um passo para manter o equilíbrio.
"O que aconteceu?"
"Tem uma cobra."
Ele olhou por cima do ombro dela.
"Onde?"
"No banheiro. Perto do vaso. Não me põe no chão."
A última frase saiu mais urgente que as outras. Helena apertou os braços em volta de seu pescoço e olhou para baixo como se a distância da porta não significasse proteção alguma.
"Ela encostou em você?"
"Não. Eu vi e saí. Mas estava ali."
Augusto assentiu e se afastou da entrada do banheiro. Não tentou decidir a espécie pelo que ela dizia. Pegou o telefone da casa e chamou a equipe do resort, pedindo ajuda imediata.
Helena acompanhou a conversa sem soltar o pescoço dele.
Quando desligou, ele sugeriu que se sentasse numa cadeira do terraço.
"Não."
"Os funcionários estão vindo."
"E se tiver outra aqui?"
Augusto olhou para o quarto.
"Não vi nenhuma."
"Porque não olhou."
Ela apontou para a cama com uma mão e imediatamente voltou a segurá-lo, com medo de perder o apoio.
"Olha debaixo. E atrás da mesa."
Augusto respirou fundo e começou pelo que podia conferir sem se aproximar do animal. Afastou-se até a parte visível da cama e verificou os espaços ao redor.
"Aqui não tem nada."
"A gaveta."
"Helena..."
"Pode ter entrado."
Ele abriu a gaveta do criado-mudo, mostrando o interior vazio. Ela olhou e apontou para outra parte do quarto.
Se estivesse tranquila, perceberia o esforço de carregá-la enquanto tentava conferir móveis. Naquele momento, apenas procurava uma certeza que nenhum lugar parecia oferecer.
Augusto não riu do medo.
Foi até a porta do terraço e olhou antes de atravessar. Helena viu o movimento de uma folha perto da piscina e apertou o abraço.
"Ali."
"É uma folha."
"Você tem certeza?"
"Dessa, tenho."
Ela continuou observando até o vento mover a folha outra vez.
A equipe chegou com equipamentos e pediu que aguardassem longe do banheiro. Augusto se dirigiu à área indicada, ainda com Helena nos braços, e explicou onde ela tinha visto o animal.
Um funcionário ofereceu uma cadeira. Ela olhou a altura e finalmente aceitou sentar, mas manteve os pés recolhidos sobre o assento.
"Não precisa me olhar desse jeito", disse a Augusto.
"De que jeito?"
"Como se eu estivesse exagerando."
Ele se sentou ao lado.
"Estou esperando resolverem."
Helena puxou a roupa sobre os joelhos, irritada por perceber que as mãos ainda tremiam. Tinha pedido para ir embora de situações muito piores sem se agarrar a ele daquela forma. Agora uma cobra a fizera procurar o primeiro corpo conhecido.
Não queria que Augusto interpretasse o gesto como uma escolha sobre os dois.
"Não foi porque quis ficar perto de você", avisou.
Ele soltou um sorriso pequeno.
"Foi porque não quis ficar perto dela. Entendi."
A resposta quase a fez rir. Não conseguiu, mas sentiu o medo diminuir o suficiente para soltar os ombros.
Um funcionário voltou e disse que a equipe havia retirado o animal, mantendo a área isolada até terminar a verificação. Helena quis saber se tinham olhado todos os acessos.
O homem respondeu com calma, explicando o que ainda estavam conferindo.
Ela não aceitou voltar para o quarto.
"Quero outra casa."
Augusto assentiu imediatamente.
"Podemos trocar."
O funcionário disse que verificaria a disponibilidade e ofereceu um lugar para aguardarem com conforto. Helena pegou o telefone, a bolsa e o livro quando lhe trouxeram os objetos.
Não quis buscar nada pessoalmente.
Enquanto organizavam a transferência, Augusto pediu que o novo espaço fosse conferido antes da chegada. Disse que gostaria de manter a mesma privacidade e de não repetir o susto.
Helena o escutou falar em inglês com a facilidade que lhe faltava naquela manhã.
O homem do resort olhou para ela e pediu desculpas outra vez. Augusto respondeu antes que encontrasse as palavras.
Helena perguntou se poderia acompanhar a equipe até a nova acomodação antes de voltarem ao quarto antigo. Não queria permanecer perto daquela porta nem ouvir movimentos de objetos sem saber o que significavam.
O funcionário concordou e disse que alguém poderia trazer a bagagem depois.
Ela procurou Augusto com os olhos, esperando uma objeção sobre dar trabalho. Não veio.
"Vamos quando estiver pronta", ele respondeu.
Helena pegou o copo de água oferecido e bebeu aos poucos. Ainda não tinha vontade de comer. O medo não desaparecia só porque alguém retirara o animal; precisava ver outro banheiro, outro caminho e uma cama que não associasse ao susto.
Augusto começou a dizer que não aconteceria novamente, mas ela o interrompeu.
"Você não sabe."
Ele assentiu.
"Não sei. Podemos pedir que confiram melhor."
A resposta imperfeita lhe pareceu mais tranquilizadora que uma certeza dita apenas para fazê-la parar de perguntar.
"Minha noiva ficou bastante assustada. Agradeço se puderem cuidar disso."
Helena virou o rosto.
Noiva.
Tinha conseguido trocar o quarto.
Sua própria posição na vida dele mudara sem que ninguém perguntasse também.
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